Ao alcance de todas, a beleza real é aquela que podemos conseguir

Ao alcance de todas, a beleza real é aquela que podemos conseguir

Atualizado: Terça-feira, 28 Junho de 2011 as 10

Perseguir um ideal utópico, como vimos na primeira parte desta reportagem, pode trazer muito sofrimento. A beleza ao alcance de todos - e de todas - é a beleza real, aquela que podemos conseguir com a valorização dos pontos fortes, a mudança (ou aceitação) dos fracos, a visão de nós mesmas como um "todo" agradável e harmonioso. E isso inclui muito mais do que atratividade física.

Embora a mídia e os meios de comunicação sejam sistematicamente acusados de incentivar este padrão inalcançável, a iniciativa de uma marca de produtos de higiene e cosmética fez o caminho oposto. A marca Dove, do grupo Unilever, lançou, em 2004, a Campanha Pela Real Beleza, um sucesso para a imagem da marca e uma revolução dos estereótipos publicitários. Eram testemunhos de mulheres reais, e não as inatingíveis que estávamos acostumadas a ver em campanhas de publicidade.

“Pesquisa: 89% das brasileiras entre 18 e 29 anos gostariam de mudar algo no físico”

O segundo passo da campanha foi entender como as mulheres viam (e conviviam) com sua própria beleza. Por isso, a Dove realizou uma pesquisa com 3.200 mulheres, entre 18 e 64 anos, de dez países: EUA, Canadá, Inglaterra, Itália, França, Portugal, Países Baixos, Brasil, Argentina e Japão, com uma margem de erro de 1,7% entre o total de amostras. Segundo o relatório, o estudo "iniciou explorando a amplitude da percepção e da experiência das mulheres com sua beleza, e suas razões. Mais especificamente, este estudo tentou determinar o quão confortáveis são as mulheres ao falar sobre si, seu nível de satisfação com sua própria beleza, o impacto em seu senso de bem-estar e a importância destes aspectos como um todo".   Em setembro de 2004, a pesquisa A verdade sobre a beleza: um relatório global, coordenado pelas psicólogas Nancy Etcoff, professora da Universidade de Harvard (EUA), e Susie Orbach, da London School of Economics, foi finalizada. A íntegra do estudo pode ser acessada ainda hoje, em formato PDF, no site http://www.campanhapelarealbeleza.com.br/ .

Vale a pena ler o relatório - ele diz muito a respeito do que nós, mulheres, temos como parâmetro de avaliação de nós mesmas. "O resultado, alarmante, mostrava como as mulheres estavam insatisfeitas com a própria beleza e com os padrões estabelecidos pela mídia. Apenas 2% delas, por exemplo, se consideravam belas", conta Fernanda Conejo, gerente de marketing de Dove

Na época da divulgação do estudo, os meios de comunicação deram muita ênfase aos números da pesquisa, no que se refere ao grau de satisfação das mulheres com a própria beleza. Os números relacionados às brasileiras são realmente interessantes:

- Apenas 1% das brasileiras se descreve como "bonita", e 6% como "bela"

- 13% das brasileiras afirmam que só as top models são verdadeiramente bonitas

- 54% das brasileiras já consideraram submeter-se a cirurgia plástica e 7% relatam ter feito algum tipo de intervenção, a taxa mais alta entre os 10 países pesquisados

- 89% das brasileiras entre 18 e 29 anos gostariam de mudar algo no físico.

Mas o mais interessante no estudo é a análise que há por trás dos números - estes que apresentamos são apenas uma ínfima parte do universo pesquisado -, e as conclusões a que chegaram as coordenadoras da pesquisa.

O estudo aprofundou o grau de influência de fatores externos na percepção e avaliação da própria beleza, explorou a perspectiva - do ponto de vista feminino - das exigências da sociedade sobre a beleza. A análise dos resultados mostrou que "quando as mulheres se referem às mensagens que recebem da cultura popular e da mídia, as idéias de beleza e atratividade física são tratadas com equiparidade. Além do mais, os dois aspectos são vistos como altamente valorizados pela sociedade, mas quase impossíveis de se alcançar", segundo o relatório.

- Mais da metade de todas as mulheres (57%) concordam que os atributos da beleza feminina tornaram-se estreitamente definidos no mundo de hoje.

- Mais de 2/3 (68%) acreditam que a mídia em geral passa um padrão irreal de beleza, que a maioria das mulheres nunca poderá alcançar. Mulheres acima dos 30 anos tendem a acreditar mais neste fator do que as de 18 a 29 anos.   A segunda parte do estudo pedia às mulheres que respondessem sobre o significado da beleza feminina. A conclusão: há indícios de que as mulheres pesquisadas (nos dez países) "estão dispostas a abraçar uma concepção de beleza que desafia os padrões estreitos e enfocados no físico estabelecidos para elas pela cultura popular e que admite uma faixa muito mais ampla e cheia de nuanças para ‘o bonito'".

Um detalhe interessante na pesquisa é que há a distinção, para as mulheres, entre "beleza" e "atratividade física", sendo que o primeiro conceito tem uma dimensão muito mais extensa do que o primeiro. Diz o relatório: "As mulheres no mundo inteiro gostariam de ver uma mudança no modo em que a mídia representa a beleza, com a maioria concordando fortemente que elas desejaram que a beleza feminina fosse retratada na mídia como estando composta de mais do que somente atratividade física (76%)."

“É por este parâmetro, o da beleza inalcançável, que as mulheres medem a si mesmas, o que causa um nível grande de insatisfação e infelicidade”

A conclusão do estudo mostra que mulheres de todo o mundo têm visões semelhantes sobre a beleza. E que "beleza autêntica" é uma reivindicação feminina - embora isso ainda permaneça inexplorado pela sociedade, muito contribuído pela cultura popular sobre o tema e afirmado pelos meios de comunicação, que ainda têm uma definição estreita e localizada na aparência física.

É por este parâmetro, o da beleza inalcançável, que as mulheres medem a si mesmas, o que causa um nível grande de insatisfação e infelicidade. "Isto pode contribuir para a infelicidade e a baixa autoestima e auto-valorização - especialmente entre aquelas mulheres (freqüentemente mais jovens) que são mais propensas a deixar-se influenciar pela cultura popular", diz o relatório.

A importância da pesquisa está no fato de que, como resultado, o estudo descreve os quesitos que compõem a verdadeira beleza. "(...) afirma que, ao mesmo tempo em que eles incluem a atratividade física, eles também incluem felicidade, generosidade, sabedoria, dignidade, amor, autenticidade e auto-realização. Através deste estudo, as possibilidades para que a beleza seja conhecida, descoberta e representada foram infinitamente ampliadas".

Este é o conceito a que devemos nos agarrar, se precisamos de algum para a afirmação do que é a "nossa beleza". Ampliar as possibilidades que temos em cada uma de nós e que nos fazem verdadeiramente belas. Gerar a beleza através da autoestima. E não o contrário.  

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