Bertrand Duchafour cria fragância para Aedes de Venustas

Bertrand Duchafour cria fragância para Aedes de Venustas

Atualizado: Quinta-feira, 14 Abril de 2011 as 11:27

Aedes de Venustas Eau de Parfum abre com um choque de sedução. Primeiro vem um cheiro tão maravilhoso quanto efêmero, um cheiro que sentimos na culinária francesa e que pode ser descrito como o instante em que o açúcar deixa de ser pequenos grãos brancos de cana e vai se transformando em um caramelo de tons de ouro profundo. Conforme a gordura e os aminoácidos da manteiga se misturam ao açúcar, eles liberam um aroma doce, meloso, tão inebriante e, de um jeito estranho, tão floral quanto qualquer flor. É o maravilhoso cheiro da química.

Ainda: a fragrância toda é alquímica e libera uma mágica que transporta nossa memória para uma torta de maçã levemente torrada e fumegante, perfumada com canela e polvilhada com noz-moscada. E estes são só os primeiros 60 segundos depois de borrifado o perfume na pele.

Se “A Loja dos Perfumes Mais Surreais e Maravilhosos” fosse um título oficial, Aedes de Venustas certamente o mereceria. Até mesmo a porta verde-escuro do número 9 da rua Christopher, logo a oeste da Sexta Avenida em Manhattan, parece ter desaparecido do set de filmagem do “Labirinto do Fauno”. Mais de perto, parece ser uma porta normal, mas não é, assim como a loja que está atrás dela também não é. Dentro, você descobre que Guillermo del Toro não precisaria inventar uma perfumaria extremamente brilhante e imaginativa, porque Karl Bradl e Robert Gerstner já criaram.

Desde que abriram a Aedes em 1995, Bradl e Gerstner, que vieram da Alemanha para Nova York pela diversão – e, no começo, sem nenhum conhecimento sobre perfumes em particular – deram vida à sua perfumaria em um contínuo trabalho mutante de arte performática. Não é o closet da Bela Adormecida, nem um bordel da Paris dos anos 1600, tampouco um nightclub da Cruela DeVil e gerenciado por uma drag queen: é muito mais do que isso tudo. A clientela da Aedes vem do seio do mundo das celebridades, seus preços são pesados e sua decoração muda com tanta frequência quanto suas coleções de perfumes. Quanto às coleções, elas são insanamente desejadas, cruelmente exclusivas e deliciosamente iconoclastas e até mesmo, se você quiser, levemente alteradoras de consciência. Em termos de exclusividade, o próprio Eau de Parfum da loja, do qual Bradl e Gerstner fizeram a direção criativa (ao lado da talentosa Pamela Roberts), está entre os mais raros dos raros.

Pelo fato de os rapazes da Aedes terem trabalhado com a maison parisiense, L’Artisan Parfumeur, para criar sua própria fragrância, o perfumista deles foi o gênio da L’Artisan Bertrand Duchafour. Duchafour tem seu espaço no Pantão dos perfumistas e já criou fragrâncias verdadeiramente legendárias nos últimos 50 anos – as fascinantes obras de arte Avignon e Kyoto para Comme des Garçons; Bois d’Ombrie, Sienne l’Hiver e Paestum Rose para Eau d’Italie; e a atordoante, onírica e alucinógena Piment Brulant para L’Artisan.

Mas Duchafour é humano. Ele trabalha principalmente nos tons mais escuros: a abundante riqueza de Goya misturada ao silêncio de Edward Hopper. E seu recém-lançado Al Oudh para L’Artisan (a moda do oudh - uma mistura de flores e mel - que se transformou no clichê do oudh, precisa parar) tem cheiro única, desagradável e completamente de cominho. Mas Bradl e Gerstener direcionaram Duchafour para criar mais uma obra de arte.

Madeira, especiarias e o cheiro do caramelo queimando: se feito de modo insuficiente, evocaria um pacote de Cracker Jacks [um tipo de pipoca doce e caramelizada] aberto e espalhado em uma loja de ferragens. Mas quando construído com maestria, ele transcende a categoria e todos os seus componentes são estranho e familiares ao mesmo tempo. Aqui, a melancolia é quase alarmante. Ele produz uma resposta visceral, assim como ficamos fascinados por um raio. Todos os ingredientes são de excelente qualidade; este é um dos poucos perfumes cujo preço por quilo eu realmente gostaria de saber. Sua performance (intensidade e fixação) é exemplo de equilíbrio perfeito. E dentro deste universo de tamanha superioridade técnica, Duchafour surgiu com um incenso, uma de suas apostas, e equilibrou os dois com perfeição. Aedes de Venustas Eau de Parfum é simplesmente um trabalho impecável. Ele cheira como um sussurro morno e próximo em uma catedral imensa e vazia.  

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