Bulgari: Fragrância inspirada em chá

Bulgari: Fragrância inspirada em chá

Atualizado: Sexta-feira, 17 Junho de 2011 as 9:52

A história do   Eau Parfumée au Thé Vert   é uma das mais estranhas na perfumaria. Ela começou quando Jean-Claude Ellena - atualmente perfumista da maison Hermès, que durante anos foi um perfumista incógnito, que simplesmente criava fragrâncias para outras marcas - teve uma idéia.

Jean-Claude fez sucesso com seu primeiro perfume de verdade, o   First for Van Cleef & Arpels , uma fragrância francesa clássica, apresentada ao mercado em 1976 e que tinha muito do estilo francês do começo do século 20 - o   First   é uma imitação do   Mitsouko , de Guerlain (1919), com uma simplificação levemente modernista. Ele é, como diz o perfumista, um "bourré de choses", está repleto de figuras de linguagem como o veludo vermelho e as folhas de ouro do imaginário do típico perfume francês. Van Cleef havia direcionado Jean-Claude para este fim, que é o modo como, teoricamente, toda a perfumaria costumava trabalhar.

Mas acerca de 1989, ele sentiu intensamente que estava na hora de mostrar que tinha algo a dizer na perfumaria, "não só o que me pedem". No século 21, os perfumistas são, felizmente, cada vez mais artistas legítimos que criam trabalhos independentes: veja Laudamiel, Kurkdjian, Maisondieu, Lie, Roucel, etc. No final do século 20, entretanto, esta atitude era bastante incomum.

Jean-Claude e sua esposa, Susannah, há muito tempo são amantes de chá, especialmente dos chás da loja francesa Mariage Frères. Ele costumava visitar freqüentemente o local para absorver os maravilhosos aromas, então ia para seu laboratório e anotava fórmulas curtas, esboçando os odores que havia cheirado. Um dia, ele pediu para cheirar todos os seus chás: eles concordaram. O perfumista passou uma manhã mergulhando o nariz em 10 grandes latas cheias de chá. Ele estava desenvolvendo uma idéia, refinando-a. O truque a que ele chegou foi casar um sintético chamado ionona, que até onde ele sabia só tinha sido usado para criar aromas de violetas, com hedione, a marca registrada da molécula metil di-hidrojasmonato, originalmente encontrada no jasmim e que carrega um cheiro inebriante, etéreo, incandescente. Ele juntou os dois para fazer chá, mesmo não sendo um tipo de chá em especial; ele era, como Jean-Claude cuidadosamente explica, o conceito do chá.

Na época, Dior estava procurando novas fragrâncias para apreciação, queria lançar um novo e importante perfume masculino que se chamaria   Farenheit . Jean-Claude levou sua fragrância de chá até a maison. Segundo ele, Dior amou, e depois de mudanças, perguntas e muita espera, disse que ele havia vencido a concorrência. Ele se lembra de ir a Paris, de tomar champanhe com o alto escalão da Dior, de todos comemorarem - mas no dia seguinte, ligaram dizendo que haviam mudado de idéia: o departamento de marketing estava desconfortável com a qualidade abstrata do bálsamo do perfumista. Dior anunciou então que os vencedores da concorrência eram Jean-Louis Sieuzac e Michel Almairac, cujo perfume levado para avaliação se tornou o   Farenheit   da Dior que está atualmente no mercado - e é um enorme sucesso. Jean-Claude ficou perplexo, depois devastado.

Ele então abordou Yves Saint Laurent com a idéia, mas, segundo o perfumista, disseram: "Não, não serve para nós, é criativo demais." Ele passou então por várias perfumarias com sua criação, dizendo sempre: "Acredito que é uma coisa realmente nova e que vai funcionar." Ele estava muito convencido daquilo.

Então, sem saber de nada, a joalheria italiana Bulgari procurou Jean-Claude. Eles estavam vislumbrando uma agradável fragrância que pudesse ser vendida em um cantinho silencioso de suas lojas, talvez uma água de colônia. Talvez ela pudesse odorizar as lojas? E, sim, talvez alguns clientes eventualmente a comprassem. Não pensaram nela como um produto que lhes traria dinheiro, era simplesmente para ampliar a identidade da marca Bulgari. O perfumista levou para eles seu projeto do aroma de chá.

Eau Parfumée au Thé Vert   se tornou o nome do perfume que ele acabou fazendo para a Bulgari, entrou no mercado em 1993, e tem um cheiro tão profundo, forte e puro quanto os mares turcos. O chá traz um pouco das plantas aromáticas de Darjeeling, mas parece mais um chá preto e potente da China; ele tem somente a textura da folha do chá verde, não seu odor. Há um traço volátil de fumaça de madeira velha e ao mesmo tempo o cheiro nos atravessa como o frescor das folhas de shiso   [planta aromática de origem japonesa] , e é por isso, conforme Jean-Claude pretendia, que ele tem cheiro de chá e ao mesmo tempo não tem. Sua idéia não era copiar a realidade, e sim transformá-la.

Esta história tem um encerramento: O diretor do setor de perfumaria da Bulgari um dia ligou para o perfumista para contar que a loja de Nova York estava vendendo 10 frascos do perfume por dia. Ao preço de US$ 350 cada. Quando a Bulgari percebeu o potencial da fragrância, o   Eau Parfumée au Thé Vert   foi para o mercado. Quinze anos depois, um perfume que nunca fora planejado para distribuição ainda está fazendo rios de dinheiro.

Eau Parfumée au Thé Vert

Bulgari

bulgari.com    

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