D&G Feminine é um perfume absolutamente extasiante e maravilhoso

D&G Feminine é um perfume absolutamente extasiante e maravilhoso

Atualizado: Sexta-feira, 10 Junho de 2011 as 9:07

Na música, uma nota é uma nota. Um dó é um dó. Quando pensamos em música – ao contrário de quando ouvimos música – sempre percebemos as notas, aquelas discretas partículas de musicalidade. Mas ninguém que já tenha ouvido Rachmaninoff (ou a trilha sonora de “O Exorcista” ou de “Tubarão”) pode afirmar que música é melhor do que a soma de suas partes.

Quando pensamos em perfume, ao invés de sentirmos seu cheiro, o mesmo princípio deveria se aplicar. A análise de um perfume não é um tipo de matemática, embora todos os marqueteiros fiquem felizes em encorajar uma visão reducionista: a indústria persiste na estratégia absurdamente arcaica de deixar os consumidores no escuro quando falamos sobre o modo como o perfume é feito. É uma estratégia que vem tendo como resultado o declínio das vendas, especialmente nos Estados Unidos, há quase uma década.

O modo como os perfumes são feitos é mágico. Mas isto não combina com uma narrativa marqueteira e propagandística. Consequentemente, quando eles pretendem descrever sua construção, dizem algo como “este perfume contém benjoim da região do Laos”, e param ali. É o mesmo que descrever o mais novo álbum do Radiohead dizendo: “magníficos acordes dissonantes!”

Assim como os músicos usam os acordes para criar um vasto espectro de sons, os perfumistas também calibram delicadamente seus ingredientes, revelando uma variação igualmente impressionante. Um concerto de Bach ou uma canção da Amy Winehouse requerem notas específicas, assim como perfumes como Vivara de Pucci ou Beautiful de Estée Lauder descrevem determinadas matérias-primas, mas quem está preocupado com isso? O que interessa é o que é feito a partir delas.

Com D&G Feminine, criado para Dolce & Gabbana, os perfumistas Max Gavarry e Nathalie Lorson mostram o que fazer com elas. Lançado em 1999, D&G Feminine carrega o cheiro de glicínia/hortência com um toque verde, e é um perfume absolutamente extasiante e maravilhoso.

No famoso concerto em ré maior de Mozart, no qual ele usou um efeito fascinante e alquímico, o clarinete transforma os acordes em seda. Aqui, Gavarry e Lorson fizeram uma coisa parecida: o perfume é uma abstração extraordinária. Senti o cheiro de poucos perfumes tão bem equilibrados, tão bem construídos tecnicamente e tão perfeitamente adoráveis.

D&G Feminine não apresenta simplesmente um amontoado de matérias primas, ele cria todo um universo. O desdobramento técnico: uma estrutura coesa, sólida feito rocha, intensidade exemplar… tudo é muito equilibrado. A maestria técnica nos apresenta uma experiência emocional muito mais importante do que seus ingredientes separadamente. O perfume captura o momento da mais fresca das manhãs, antes de qualquer um ter acordado, enquanto você andava descalço lá fora e, embora seja verão, você sente um leve arrepio na espinha conforme a brisa sopra o último e pálido resto de noite em seu rosto.

Descrever D&G Feminine como um floral seria tanto incorreto quanto uma tentativa frustrada de capturar esta experiência de paz (o arrepio, as estrelas que estão se apagando, o exato tempo e espaço) acrescida de flores. Seu ângulo verde é parte integrante da mágica que Gavarry e Lorson compuseram sem esforço nenhum, e é maravilhoso. Não faço ideia de quais partes eles usaram para construir o todo. Mas quem é que está preocupado? O que vale é a experiência.    

veja também