Eau Mega de Viktor & Rolf é um perfume mega comercial

Eau Mega de Viktor & Rolf é um perfume mega comercial

Atualizado: Sexta-feira, 17 Junho de 2011 as 9:50

Viktor & Rolf, uma marca que produz algumas das roupas mais conscientemente extravagantes da moda, conseguiu fazer dinheiro com a ideia de “mais estranho que você”. Isso contrasta em termos de estilo, não em termos de estrutura, com a persona que Viktor Horsting e Rolf Snoeren apresentam pessoalmente. Eles parecem dois agentes funerários: suas roupas são lúgubres, assim como seu comportamento. Pálidos, suas barbas parecem vir da Transilvânia do final do século 19, além do ar cuidadosamente romântico e de outro mundo.

Sob essa luz, os perfumes da marca são surpreendentes. Vários anos atrás, Horsting e Snoeren venderam a licença dos perfumes para a L’Oreal. O primeiro perfume da marca Viktor & Rolf que a L’Oreal colocou no mercado foi   Flowerbomb ,   em 2005, uma fragrância que poderia ser de qualquer marca, menos a da que estampava o rótulo.   Flowerbomb   trazia um ângulo sintético bizarro, quase alarmante, combinado com um copo de leite sob efeito de Red Bull. O resultado geral foi muito anos 80.

Mas funcionou:   Flowerbomb   foi um imenso sucesso comercial, uma das poucas – talvez a única – fragrância de prestígio a enxergar lucros em um mercado putrefato. Ela também era incomum e ousada. Em seu âmago, entretanto,   Flowerbomb   era um perfume comercial, nada perto de ser incomum ou ousado como a dupla dinâmica. Decepção: seu flanker é um perfume que não poderia ter sido dirigido mais para o mercado, ser menos interessante ou menos inovador.

Eau Mega   é realmente mega. Mega comercial. É uma cópia de papel-carbono (em mega escala) de todo o feminino dourado, luxuoso e “Trumpesco” desde os anos 70. Não poderia ser mais mega nem se tentasse, e ainda cheira como se estivesse tentando. Não é um perfume, exatamente, é um padrão olfativo sem correspondências no mundo natural. Assim, é quase impossível descrevê-lo com adjetivos. Usemos metáforas, então. Eau Mega é o cheiro que você sente em uma festa abafada, oferecida em um apartamento de luxo, quando uma mulher levemente mais velha e muito magra passa pelo seu lado. Ela está vestindo um tailleur Chanel, maquiagem um pouco além da conta, joias douradas, e seu cabelo tem laquê o bastante para formar um capacete. Ela não consegue não sorrir. Ela tem cheiro de maquiagem, laquê e lavagem a seco, tudo misturado com um bouquet monumental, que tem cara de ser luxuoso o bastante para agradar todos aqueles que almoçam em hotéis de luxo.

Você já sentiu esse perfume centenas de vezes. A pergunta a fazer é: por quê?

Deve haver um método para a loucura. Os perfumistas Carlos Benaim e Olivier Polge, sob a direção artística de Karine Lebret e Stephane Demaison, da L’Oreal, produziram um perfume realmente bem feito. Eau Mega tem intensidade e fixação excelentes na pele, além de uma estrutura coesa. Talvez seja algo intencional – uma piscadela de cumplicidade, uma piada interna, uma obra ironicamente kitsch?

Mesmo que seja o caso, não mudaria o fato de que este perfume é o equivalente olfativo de uma pele falsa, pseudo-cromada. Há muita chance de que   Eau Mega   venha a trazer muito dinheiro para a Viktor & Rolf e para a L’Oreal. O cheiro não deixa dúvidas quanto às suas intenções.    

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