Escale à Pondichéry, da Dior, cheira a coisa barata

Escale à Pondichéry, da Dior, cheira a coisa barata

Atualizado: Sexta-feira, 17 Junho de 2011 as 9:55

  A primeira questão - na verdade, possivelmente a única - a ser feita sobre   Escale à Pondichéry   é: Como isso pode acontecer a uma maison como a Dior? A coleção de fragrâncias da Dior inclui obras clássicas criadas pelo lendário perfumista Edmond Roudnitska (Diorella   eDiorissimo ); perfumes contemporâneos maravilhosos e exclusivos, considerados obras de arte tanto quanto qualquer outro criado para uma marca de nicho (Bois d'Argent , de Annick Menardo ou   Eau Noire , de Francis Kurkdjian); triunfos modernos e luxuosos para as massas como   J'adore , de Calice Becker; sequências que evoluem e, surpreendentemente, melhoram (como o excelente   Pure Poison , que lembra um pedaço de vidro da garrafa de Coca-Cola, que foi polido ao longo de décadas, até se transformar em algo suavemente translúcido no fundo de um riacho). Como pode uma maison como esta produzir algo como   Escale à Pondichéry ?

O primeiro da série,   Escale à Portofino   ( "escale" pode significar escala, porto de escala ou estação de reabastecimento), que Dior lançou há exatamente um ano, foi uma bela água-de-colônia padrão, cítrica e condimentada ao estilo do século 19 que - como quase todas as novas águas-de-colônia - implorou pela resposta à questão: "Muito bem, mas por quê?" Colocar mais uma água-de-colônia no mercado é como a acrescentar mais um tipo de cereal matinal às prateleiras do supermercado.   Portofino , publicamente atribuída ao perfumista da maison Dior, François Demachy, era, pelo menos, um alfabetizado funcional e, com certo esforço, conseguiria manter uma conversa agradável até o fim.

Não era um bom prognóstico para os   Escales   futuros, mas ele nunca nos prepararia para nada minimamente parecido com o desastre que é   Escale à Pondichéry .

Pondichéry é a tradução para o francês de Pondicherry, uma cidade litorânea no estado indiano de Tamil Nadu, que já foi colônia francesa: o lugar não traz absolutamente nenhuma relevância palpável para o perfume. A fragrância cheira coisa barata, e se colocarem dinheiro na fórmula, ela vai continuar tão imperceptível quanto qualquer ligação geográfica com o perfume homônimo - e é uma cópia descarada do   Eau de The Vert , da Bulgari, guarnecida com a casca de um limão. Acrescente sal de frutas e gelo, e depois de 15 minutos ele se transforma em um refrigerante-nada de limão antes de sumir pelas frestas do chão do bar.

De acordo com o comunicado de imprensa da Dior, Demachy selecionou óleos de específicas plantações indianas de jasmim-árabe e chá preto, "originado de um extrato que apresenta um longo processo de fermentação no qual o chá é trabalhado com uma abordagem de 'folha', sugerindo uma densa vegetação e?" bom, ele continua nessa linha. Sério?

Eu não ficaria nada surpreso se Demachy tiver pouco a ver com o perfume. Suponho que, entre reuniões, ele supervisionava, apressadamente, o perfumista júnior, que foi quem realmente construiu o cheiro. E suponho que o "diretor criativo", crédito atribuído a John Galliano - estilista da grife Dior -, é designação obrigatória de um escritório de relações-públicas. O até então herdeiro de Chanel, Demachy é um dos verdadeiros peritos na arte da perfumaria trabalhando no momento. O chefe executivo, Bernard Arnault, nomeou-o diretor de desenvolvimento olfativo de todos os aromas da Louis Vuitton Möet Hennessy em 2006. E acho que o que estamos cheirando aqui é a prova do quanto o império do luxo de Arnault o levou ao limite do aceitável. Alguém dormiu no ponto.

Das sete pessoas que se sentam perto de mim no "New York Times", nenhuma gostou dePondichéry . Um disse que o acorde de fundo tem o cheiro do sabonete   Ivory   (verdade), outro disse que o cheiro era do sabonete   Irish Spring   (também verdade), e outra foi ao banheiro feminino e lavou o braço até o perfume ir embora. Eu não sei qual foi o sabonete que ela usou.

Escale à Pondichéry

Por Dior

www.dior.com/  

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