Fragrância de Marc Jacobs Men é uma decepção monstruosa

Fragrância de Marc Jacobs Men é uma decepção monstruosa

Atualizado: Sexta-feira, 8 Julho de 2011 as 9:33

Sim, é verdade que a Coty faz coisas interessantes com sua coleção Marc Jacobs. Mas o quanto o estilista realmente se envolve no projeto? É uma questão pequena, no fim das contas, mas que ainda deve ser levantada sempre que um release de imprensa exagerado diz “o profundo e apaixonado envolvimento de (coloque aqui o nome do estilista) em um projeto que é uma extensão de sua marca, sobre o qual ele (ou ela) aprendeu e conheceu profundamente.” O quanto eu acredito que Jacobs se envolveu no projeto? Quase nada.

Sentei-me perto de Jacobs uma vez, na festa em que a DSquared comemorava o lançamento de um dos primeiros perfumes da marca. O evento aconteceu no telhado de um prédio no Chelsea que no passado havia sido uma indústria e que, depois de reformado, funciona como cenário chique para festas fashionistas.

A área vip onde estávamos tinha um banco de madeira, um tapete vermelho de 2x1m e uma corda de veludo vermelha ladeada por dois pilares de músculos anabolizados. Como em todas as áreas vips, ela era pouco mais do que a ideia de exclusividade – demarcada pela corda de veludo. Eu ouvi Jacobs falar sobre sua coleção de perfumes e suas ideias sobre cheiros. Ele parecia extremamente entediado, só se pavoneando quando Rachel Zoe sentou-se ao seu lado. Com certa excentricidade, quando falava sobre seus perfumes, ele os descrevia tanto como objetos distantes quanto como experiências pessoais.

Intencional ou não, esta confusão se reflete nas próprias fragrâncias. Sob o nome de Jacobs, a Coty lançou uma série extremamente variada em qualidade e estilos. Claramente, trata-se de uma demonstração de coerência do marketing: a coleção contém, simultaneamente, alguns dos melhores perfumes do mercado e alguns dos piores, e estes últimos estão aptos a serem dispostos em obscuras prateleiras de drogarias, sob duras luzes fluorescentes.

As melhores contribuições de Jacobs merecem todos os elogios. Marc Jacobs, seu primeiro perfume epônimo e criado pelos perfumistas Loc Dong e Steve DeMercado em 2001, foi um sucesso. Com sua bela fragrância espalhafatosa e seu posicionamento impetuoso, Dong e DeMercado transformaram baldes cheios de flores e sintéticos maravilhosos em uma fortaleza de luxo e elegância. Marc Jacobs não é um perfume imortal – falta-lhe dois ingredientes importantes: originalidade pioneira e um toque de estranheza – mas é maravilhoso.

Seis anos depois, Alberto Morillas criou Marc Jacobs Daisy. Este perfume, por contraste, é original e levemente estranho. Ele tem cheiro de beleza – um tipo de beleza líquida, ou melhor, uma beleza que se pode borrifar; perfeito para a produção em massa. Daisy é o equivalente olfativo a um modelo de entrada da Mercedes, algo que você preferiria que seus filhos fossem vistos dirgindo. Então Calice Becker e Yann Vasnier moldaram Lola, em 2009. É a bugiganga mais deliciosa e da mais alta qualidade que alguém poderia comprar, um pacote líquido de diversão criado com engenhosidade.

Mas então temos os outros. Em 2007, na noite anterior ao lançamento do Marc Jacobs Splash, eu jantei com o perfumista que o havia criado, um homem que eu conheço e de que gosto. Como uma cortesia profissional, eu lhe disse que minha crítica de Splash apareceria logo depois do lançamento da fragrância. “Você o destruiu”, ele adivinhou, jogando um edamame na boca. De certo modo eu admiti, ele então deu de ombros e disse: “Não me surpreende. Eles não me deram nenhum dinheiro”, querendo dizer que ele não recebeu quase nada para usar em matérias-primas de qualidade. Aquilo era evidente. Claro, é um jeito de espremer dinheiro a partir do nome Jacobs, mas o estrago que isso causa à marca vale a pena?

Com Marc Jacobs Men, a Coty poderia ter seguido um caminho incrível. Como tal, a fragrância é uma decepção monstruosa. Com Camille McDonald como diretora artística – e trabalhando, teoricamente, com Jacobs -, os perfumistas Barbara Zoebelein e Ralf Schwieger conseguiram criar um abstrato doce-porém-não-comestível, um cheiro contemporâneo com a forma e o estilo de um manifesto mais peculiar. Forte e, estranhamente, sem identidade como um loft moderno, ele é conscientemente artificial.

Tudo isso dura cerca de cinco minutos. Depois as notas de cabeça desaparecem, talvez porque aqui o dinheiro também desapareceu. A fragrância residual é mais um clichê masculino, como Cool Water sem o sabão em pó ou Hillfiger sem o alumínio. É infinitamente maçante e amorfo, como um objeto distante ou uma experiência pessoal mal contada.

*O crítico de perfumes é autor de "O Imperador do Olfato: Uma História de Perfume e Obsessão" (Companhia das Letras), de "The Perfect Scent: A Year Inside the Perfume Industry in Paris and New York" e do recém-lançado romance "You or Someone Like You", (ambos sem tradução no Brasil).    

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