"Lipoaspiração é uma cirurgia e deve ser encarada com seriedade", alerta cirurgião

"Lipoaspiração é uma cirurgia e deve ser encarada com seriedade", alerta cirurgião

Atualizado: Sexta-feira, 6 Fevereiro de 2009 as 12

Quase sempre, quando ocorre alguma morte durante a lipoaspiração, é comum perguntar se que a cirurgia foi realizada em clínicas com condições de realizar o procedimento, se médico tinha qualificações e se a cirurgia é perigosa. Recentemente, a contaminação de cânulas também levou pacientes ao óbito

No último final de semana, foi noticiada mais uma morte de paciente durante a realização de uma lipoaspiração. Desta vez, a vítima foi Regiane Aparecida Bauer Lopes, de 27 anos, que passou pelo procedimento em uma clínica da Zona Leste de São Paulo. Segundo os meios de comunicação divulgaram, o local não possui estrutura hospitalar e a paciente sofreu uma parada cardiorespiratória durante a cirurgia. Apesar de ainda não haver informações oficiais sobre o caso ou sobre as condições da clínica, essa é mais uma morte que assusta quem tem o desejo de realizar uma cirurgia plástica.

"Costumo dizer que a cirurgia plástica é coisa séria. Os procedimentos de todas as cirurgias são minuciosos, envolvem riscos e precisam ser encarados de maneira profissional pelo médico e cautelosa pelo paciente", diz Alexandre Piassi Passos, cirurgião plástico.

Dr. Passos diz que não é possível analisar o caso específico de Regiane Lopes, já que ele não participou da cirurgia, mas que é possível alertar quem procura uma lipoaspiração ou qualquer outra cirurgia. Ele dá alguns conselhos:

O paciente precisa confiar plenamente em seu médico. Para isso, é preciso saber se ele é membro ativo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), quais foram a universidade e a residência que cursou e, caso seja possível, é bom também recorrer à própria SBPC para buscar referências do médico.

  No Brasil e na Europa, qualquer médico pode fazer a lipoaspiração. Infelizmente, não é preciso ser cirurgião plástico e, muitas vezes, o procedimento é realizado por médicos de outras áreas. É preciso, portanto, tomar cuidado com as diversas propagandas na mídia e as facilidades dos planos de pagamento. O ideal é pedir a indicação a um médico de confiança (cardiologista, ginecologista, clínico geral etc.), ou mesmo a alguém que tenha feito o procedimento.

  Qualquer cirurgia oferece riscos. Portanto, todas elas devem ser realizadas em hospitais preparados com UTI e equipes de plantão. Dessa maneira, pode-se evitar o óbito em diversos casos.

  Outro cuidado imprescindível tem de ser tomado tanto pela equipe médica quanto pelo paciente. Recentemente, a imprensa também noticiou a suspensão de uma série de procedimentos cirúrgicos de lipoaspiração e lipoenxertia em Vitória, capital do Espírito Santo. A decisão veio da Secretaria de Saúde do Estado e deu-se por conta da contaminação de pacientes por microbactéria da família da Tuberculose, chamada cientificamente de Mycobacterium abscessus do tipo 1. Apesar de ser uma decisão regional, é importante alertar que as contaminações podem ocorrer em qualquer procedimento no qual os equipamentos cirúrgicos não sejam devidamente higienizados e esterilizados. Essa bactéria pode trazer riscos irreversíveis à saúde e as cânulas ainda podem trazer outros problemas caso não sejam esterilizadas corretamente. Portanto, não custa nada ao paciente questionar e mostrar interesse por todos os procedimentos que serão realizados em sua cirurgia. Sobre a lipoaspiração

A lipoaspiração é uma das cirurgias plásticas mais procuradas do mundo. No Brasil, está em primeiro lugar dentre os demais procedimentos. Segundo Dr. Piassi Passos, desde a sua invenção, em 1978, pelo médico francês Yves Gerard Illouz, a maior novidade foi a redução do diâmetro das cânulas, que na época chegava a 12 mm, e hoje é de apenas 5 mm. "Isso reduziu o risco de irregularidades e imperfeições simétricas e melhorou o pós-operatório", comenta.

Passos contesta reportagens e peças de publicidade que divulgam "novas" técnicas. Ele cita a lipoaspiração precedida de um laser: "A idéia é que o laser entre na pessoa, agrida as células gordurosas e assim facilite a entrada da cânula. É interessante, porém pouco eficaz e ainda não tem comprovação de resultados".

Outra técnica divulgada pelos meios de comunicação é o Ultra-Shape. Trata-se de um Ultra-Som Extra-Corpóreo, que promete dissolver a gordura sem cirurgia. "Esta e outras técnicas estão sendo estudadas e estão ainda em fase experimental", alerta. "Elas não têm a indicação clínica de uma lipo convencional, que até hoje não encontrou procedimentos substitutos".

O cirurgião plástico ressalta que a única técnica realmente nova atualmente utilizada é a Vibrolipoaspiração. "Nessa, a cânula é acoplada a um sistema de vibração. A única diferença do procedimento convencional é que um aparelho facilita os movimentos que o médico faz para aspirar a gordura. Ainda não adotei a técnica, mas não descarto a possibilidade de incluí-la no rol dos procedimentos". Passos cita, ainda, uma técnica que foi usada no Brasil durante um período, mas que não mostrou diferença de resultados. Trata-se da Lipo Ultra-Sônica, na qual utilizava-se o ultra-som para destruir a gordura, antes da intervenção. "Na realidade, chegou a causar complicações graves que não ocorrem na lipo convencional, como queimaduras e até necrose".

Ainda hoje, a lipoaspiração é a prática clínica que mais complicações pode causar do ponto de vista do resultado. Por isso, o médico deve saber o que pode oferecer para o paciente. Passos reforça que a lipoaspiração nunca tem indicação de emagrecimento, mas sim de promover um contorno corporal. Só deve ser feita nos seguintes casos: 1) Em pessoas magras com leve sobrepeso e gordura localizada - quando o resultado, com raras exceções, é totalmente satisfatório; 2) Em pacientes com sobrepeso maior e sem contorno corporal nenhum, que precisam de um estímulo para começar uma dieta ou praticar exercícios. "Nesses casos, a intervenção servirá como um pontapé para que ele se anime a mudar os hábitos de vida e emagrecer", observa.

"Tirar gordura" não é difícil do ponto de vista mecânico, mas o importante é o médico ter noção técnica e artística: "Quanto mais gordura se tira, mais sangue sai e o risco aumenta. É preciso tirar essa gordura de forma adequada, e somente no lugar certo". Passos ressalta que é relativo o número de litros retirados: "O certo é tirar o necessário para dar o contorno adequado. Não importa o volume, e sim o resultado. Um eventual exagero pode deixar a pele irregular, com buracos, ondulações e nódulos. E o tratamento desses casos é extremamente difícil".

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