"No começo, tinha preconceito contra a cosmética", diz Seabra

"No começo, tinha preconceito contra a cosmética", diz Seabra

Atualizado: Terça-feira, 25 Maio de 2010 as 11:15

Há aqueles que acreditam em intuição. Luiz Seabra, fundador da Natura e co-presidente do Conselho de Administração da empresa, é um deles. E não à toa. Quando tinha 12 anos, sua irmã mais velha lhe disse que gostaria de ter um cantinho da casa para tocar um negócio em que pudesse cuidar da pele dos clientes. "Enquanto ela descrevia seu desejo, eu pensava 'farei os produtos que ela usará'", disse Seabra na ExpoGestão 2010, realizada em Joinville (SC), nesta quinta-feira (20/05).

Em palestra moderada pelo diretor de redação de Época NEGÓCIOS, Nelson Blecher, Seabra falou a respeito da criação da Natura e dos valores da empresa. Apesar de sua intuição ainda quando adolescente, o caminho do empresário para a indústria da beleza não foi planejado. Longe de ser uma de suas paixões no início de sua vida profissional, o ramo dos cosméticos não era visto com bons olhos pelo executivo. "Eu achava a cosmética uma coisa um pouco superficial".

Foi só quando entrou no setor que essa visão começou a mudar. "Vendo as matérias-primas se transformarem naqueles produtos, comecei a perceber que a cosmética é um instrumento que aproxima mente e corpo", afirma.

Esta maneira diferente de ver a indústria da beleza ajudou na consolidação da marca Natura e em seu crescimento. Uma das expressões mais claras disso foi o lançamento da linha Chronos. A campanha publicitária dos novos produtos mostrava mulheres de todas as idades e informava quantos anos cada uma tinha. "Não é possível ter 27 anos para sempre. Na Natura, procuramos ir contra tudo o que se praticava na indústria da beleza desde o século XIX. Não há produto que nos liberte da passagem do tempo", diz Seabra. Foi um sucesso.

Na Natura, a vaidade é respeitada, mas não a manipulação. "A busca da beleza é um anseio legítimo da humanidade, que desde sempre a acompanhou. No Egito, os faraós tinham um ministro encarregado de selecionar os cosméticos para seu uso. Isso era considerado como uma maneira de entrar em contato com os deuses".

Gestão

O jeito de ser da Natura é levado muito a sério dentro da empresa e transmitido a todos os funcionários que ingressam na companhia. Não é uma tarefa fácil "Isso tem um preço e não é simples", afirma Seabra.

Para manter essa filosofia viva entre seus 6,3 mil funcionários, há um trabalho de ‘naturalização’ com os novatos. Todos os gestores interagem o tempo todo para garantir a familiarização com os valores da empresa, para evitar, segundo o empresário, "a burocratização do pensar e do sentir".

A tarefa tem se tornado especialmente difícil nos últimos anos, com o forte processo de expansão da Natura. "Estamos ficando quase loucos", diz Seabra. Presente em sete países da América Latina e na França, a companhia finalizou o ano passado com lucro líquido de R$ 683,9 milhões e um milhão de revendedoras.

O início

Não foi fácil para a Natura, no entanto, se tornar o que é hoje. Como todo empreendedor, Seabra também enfrentou grandes desafios. A empresa começou numa pequena loja da Oscar Freire, que antes fora uma borracharia. Logo no início do negócio, a companhia sofreu um forte golpe: perdeu seu único cliente. Mesmo com uma proposta para voltar ao antigo emprego, Seabra decidiu ser persistente e apostar na Natura.

À época, o empresário foi à casa de um amigo filósofo que lia mãos. "Ele olhou a minha mão e meu terceiro olho e disse 'estou vendo um trator que caminhará muito lentamente no começo, mas que no futuro ninguém poderá deter. O seu destino é semear'".

Por: Elisa Campos

veja também