Nutricosméticos prometem muito, mas estudos mostram pouco sobre efeitos reais

Nutricosméticos prometem muito, mas estudos mostram pouco sobre efeitos reais

Atualizado: Quarta-feira, 23 Junho de 2010 as 9:16

Beleza que vem de dentro e, melhor, obtida com uma ou duas cápsulas por dia.

O apelo, em um tempo em que todo mundo quer ser bonito e saudável sem fazer esforço, entra na fórmula do sucesso dos nutricosméticos.

No terreno preparado por pesquisas médicas, a indústria chegou à combinação esperta entre nutrientes e efeitos estéticos. A ideia tinha tudo para dar certo.

Em 2002, dois gigantes de cosméticos e alimentos (L'Oreal e Nestlé) se uniram para criar complementos nutricionais com foco na beleza da pele, do corpo e dos cabelos.

Como estratégia de vendas, funcionou: o mercado europeu de nutricosméticos movimenta 3 bilhões de euros. O mundo já consome 1,5 milhão de unidades por ano.

No Brasil, a tendência dos cosméticos orais apontou em 2008, com o lançamento do Innéov Fermeté. Em seis meses, o país se tornou o maior consumidor mundial do produto, segundo a L'Oreal.

Do final de 2009 para cá, mais dez foram lançados.

O marketing já teve efeito. E os produtos, funcionam?

"Pesquisas sugerem que algumas substâncias são eficazes na prevenção do envelhecimento. Mas os efeitos na pele ainda não estão estabelecidos", diz o dermatologista Davi de Lacerda.

EFEITOS COLATERAIS

Lacerda, que especializou-se na John Hopkins (EUA), diz que as pesquisas sobre o uso dermatológico desses nutrientes ainda são frágeis.

Para Meire Gonzaga, professora de dermatologia da Faculdade de Medicina do ABC, todos os nutricosméticos precisam de mais estudos, mas são promissores. "Vamos ouvir falar muito sobre eles daqui para frente."

Do que pouco se fala são de efeitos colaterais. "Pode haver interações com medicamentos", diz Lacerda.

O fato de essas substâncias virem de alimentos não significa que não possam fazer mal.

"Alguns aminoácidos do colágeno podem causar náuseas e refluxo e não devem ser tomados por quem tem alergia a mariscos", cita Gonzaga.

E o fato de agirem dentro, ao contrário dos cosméticos que só atingem camadas superficias da pele, não muda o axioma básico da indústria da beleza: nada faz milagres.

Para alguns, bom é combinar os nutricosméticos com outras práticas, tipo cremes e laser. "Aí os efeitos são maiores", diz Jardis Volpe, das sociedades brasileira e americana de dermatologia.

"Nutricosmético nada mais é que suplemento alimentar", diz a nutricionista Lara Natacci Cunha, da USP.

Para Daniela Jobst, do Instituto de Nutrição Funcional dos EUA, a indústria de cosméticos pegou o "gancho" do poder dos alimentos e foi na direção certa.

"Se você dá matéria-prima para renovar células e combater radicais-livres, a pele melhora", diz a nutricionista.

Apesar disso, Jobst diz que não há como garantir que os nutrientes ingeridos atuem na pele ou nos cabelos. "Eles vão para onde o corpo estiver precisando mais."

O nutrólogo e médico ortomolecular Wilson Rondó afirma que nossa necessidade de nutrientes e antioxidantes é tanta, que o que vier é lucro. "Como os nutricosméticos têm antioxidantes básicos, trazem benefício."

Para Rondó, muita gente tem desnutrição subclínica, e isso se reflete em pele flácida, cabelos sem brilho. "Nos nutricosméticos, as doses de nutrientes não são suficientes para um efeito terapêutico, mas podem favorecer a beleza", diz o médico.

O cirurgião plástico Alexandre de Souza acredita que esses produtos são uma forma de gerenciar o envelhecimento. "É uma poupança de nutrientes, um investimento em vitaminas", diz.

A aplicação é de longo prazo: os resultados só aparecem após três meses de uso. E vitalícia: "Suplementação é para fazer o resto da vida."

Por: Iara Biderman

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