Quero mudar de cor

Quero mudar de cor

Atualizado: Quarta-feira, 2 Fevereiro de 2011 as 10:15

Escolher a coloração certa não é difícil”, brinca Fernando Coutinho, especialista em coloração, diretor técnico da Framesi, empresa italiana do ramo. “Difícil é escolher o melhor profissional.” Coutinho mostra que nessa feira de vaidades do mundo da beleza ele veste a camisa das mulheres (gracias!), porque o que importa mesmo é o que a coloração vai fazer pelo nosso ego. Tem produto que deixa o cabelo com mais brilho; outro cobre os chatíssimos fios brancos. Tem ainda coloração que é legal pelo reflexo ou pela suavidade que deixa nos fios. E, parodiando a velha máxima “O que seria do verde se todos gostassem do amarelo, Coutinho arremata: “Se houvesse uma coloração ‘perfeita’, não existiriam as demais”. Democrático! Mas ele dá um recadinho: é bom conhecer os benefícios de cada uma. “Prefira as menos agressivas, com menor teor de amônia”, diz Sionara Bandeira, coordenadora técnica da Keune. Ressecam menos os fios. Viva!

Einstein

Mesmo que você entenda de química tanto quanto entende de física quântica, pergunte ao cabeleireiro quantos tons o produto irá clarear quando misturado com peróxido de hidrogênio 20 volumes. Se for dois tons, a carga de amônia é alta em relação às outras colorações. Isso não significa que você deva sair dali em desabalada carreira: é só um alerta para lembrar que, quanto mais amônia, maior sensibilização da cutícula. E você vai ter que se esfalfar usando produtos pós-coloração para dar conta do recado.

Mas tem diferença?

As colorações seguem normas legais, por isso os componentes principais são usados por todas as marcas. A diferença está nos opcionais, nos ativos como vitaminas, antioxidantes e proteínas, por exemplo, na concentração e na qualidade dos pigmentos, em maior ou menor quantidade de amônia. A amônia é importante porque abre as cutículas dos fios e reage com o peróxido de hidrogênio misturado à coloração, liberando o oxigênio. Antes de você perguntar “E daí?”, explicamos: o superstar nessa história é o oxigênio, responsável pelos dois processos mais importantes na busca pela cor perfeita: ele oxida o pigmento natural, clareando, e oxida os artificiais, fixando a nova cor.

Coloração vs. coloração

Se você olhar nos rótulos, vai encontrar quase os mesmos ativos nas colorações usadas no salão e em casa. Variação haverá nos preços, de ambos os lados. Segundo Coutinho, um dos ingredientes é o silicone, e há inúmeros tipos utilizados na cosmética. A diferença está na qualidade: um pote concentrado de 100 g de um produto superior pode custar quatro vezes mais que um pote de 500 g de um inferior. Isso se reproduz nos vários componentes. O resultado é um produto menos fantástico do ponto de vista tecnológico.

Solução caseira

Ivone Sousa, colorista do Salão 1838, em São Paulo, não se intimida e diz: “Quem tinge sozinha quer economizar, mas o barato pode sair caro! Se você não sabe identificar a cor do cabelo, apaixonar-se por um tom — e decidir que quer ficar daquele jeitinho — pode ser bobagem. “É difícil chegar lá porque o volume de peróxido de hidrogênio na embalagem pode não corresponder às necessidades do tom do seu cabelo”, diz Coutinho. Por exemplo, se o seu cabelo é castanho-escuro e você acha que ele é um castanho-médio, clarear em casa para um loiro-médio não vai dar pé, porque a volumagem do peróxido (lembre-se: é ele que clareia) pode ser insuficiente. Você pode chegar, no máximo, a um loiro-escuro. “Colorir em casa é uma aventura, mas é mais difícil errar com cores escuras”, diz Aldeni Ribeiro, do Lay Out, em São Paulo. Outra saída é usar tonalizantes, que só cobrem a superfície dos fios e não alteram a estrutura interna. Deixam o cabelo mais brilhante do que muitas colorações, mas duram menos tempo e saem com as lavagens.

Momento tonalizante

No salão, tonalizar não significa apenas passar um produto só com pigmentos coloridos. Ele pode tonalizar usando a mesma coloração que foi aplicada no cabelo. A diferença é que não usa peróxido com alta volumagem, como faz ao colorir. Mistura um peróxido de 5 a 10 volumes, que não tem poder para clarear. Os pigmentos de cor só são depositados. O processo é feito para melhorar o tom do cabelo natural, criando reflexos, ou para reativar a coloração e dar um tapa em uma descoloração meia-boca.

Olho na bula

Deixando de lado a química, o produto caseiro traz mais um risco inerente à sua aplicação: você! Todo mundo lê o passo a passo e sempre dá um jeitinho de não seguir as regras tal como elas são — não vai me dizer que já não fez isso até com os remédios. Sionara Bandeira faz outro alerta: “A longo prazo, aplicar o produto em todo o cabelo, sem diluir nas pontas, pode deixar o cabelo poroso, com pontas duplas. Em 12 meses, você aplicou amônia 12 vezes em toda a cabeleira, quando poderia ter apenas retocado a raiz!” Outra dica boa é de Régis Marciliano, do Espaço Be, em São Paulo: “Da primeira vez, vá ao cabeleireiro: depois de tingir, ele saberá como o seu cabelo reage e pode indicar tanto o número da cor que se aproxima mais da que você usou como o melhor produto”..

Estilo donatela

De loira para loiríssima em casa, só se o seu cabelo for natural, de um tom uniforme”, pondera Ivone Sousa. No salão, a coisa muda: se quer ficar loiríssima (10 na escala cromática universal utilizada por profissionais de beauté), vai atingir seu objetivo com oxidantes de volumes adequados ao número de níveis que precisa clarear. “Em marcas de coloração com maior carga de amônia, o oxidante (peróxido) de 30 volumes clareia até três tons e meio. Para aqueles com menor carga de amônia (lembre-se, é ele que abre a cutícula e libera o oxigênio), só um oxidante de 40 volumes ajuda a clarear três tons”, explica Fernando Coutinho. Loiras mais escuras, que precisam baixar até quatro tons para ganhar jeitão de Lady Gaga, só vão de clareador, produto que tem o dobro de quantidade de amônia das colorações normais. Loiras artificiais? “Só no salão. Coloração não clareia coloração e é preciso aplicar descolorante, controlando rigorosamente o tempo de pausa”, explica Régis Marciliano.

Dita Von Teese para Marylin

Do preto para o loiro complica. “Natural ou já colorido, o preto precisa passar por etapas sequenciais de clareamento, com volumes mais baixos de oxidantes para não detonar totalmente”, diz Aldeni Ribeiro. “E só um profissional sabe fazer o mix de descolorante e peróxido na proporção correta para minimizar os danos”, adverte Coutinho. Analisar o estado do cabelo é fundamental: o loiro-dramático está proibido para fios sensibilizados. A escala do pH, que mede o índice de alcalinidade e acidez dos produtos, vai de 0 a 14, mas nosso cabelo tem um pH ligeiramente ácido, entre 4 e 5,8, estágio em que as cutículas dos fios permanecem alinhadas. Nos processos químicos, ele vai a mais de 10, e as cutículas se abrem, expondo o córtex. O cabelo fica muuuito poroso. Imagine isso em um cabelo que já está frágil! Um bom profissional sabe que precisa condicionar o cabelo a cada etapa para equilibrar o pH. Além disso, enquanto clareia, o cabelo pode ficar meio alaranjado. Para evitar, o profissional costuma usar tonalizante. O produto também ajuda a repor proteínas e aminoácidos, melhorando a saúde do fio.

Jogo de cena

Durou só uma novela, mas até a atriz Paola de Oliveira saiu do loiro para o preto total. Em casa, a probabilidade de insucesso é grande, principalmente se você é loiro-clara. “O cabelo desbota para o esverdeado ou azulado”, diz Sionara Bandeira. Para evitar o mico, Fernando Coutinho dá sua receita: repigmentar a cabeleira com um castanho muito escuro (cor 2) mais pequenas dosagens de cores 3 ou 4 usando um oxidante de 10 volumes. O tempo de pausa não costuma ultrapassar 20 minutos. Só depois de lavar entra o tom final — preto (cor 1) — misturado com oxidante 10 volumes. “Esse cuidado estabiliza a cor e evita o risco de manchar.” Ivone Sousa prefere luzes ao contrário, costurando com tonalizante. Isso dá tempo de se acostumar ao estilo Morticia Adams.

Decidi virar Julia Petit

Do castanho para o ruivo, só descolorindo. No salão! Cabelos vulneráveis precisam de duas etapas clareadoras com oxidantes de baixa volumagem. Já se a cabeleira “tem a força”, mesmo que seja colorida, dá para usar um superclareador e oxidante de 40 volumes. O objetivo é chegar ao tom amarelo-laranja antes de aplicar o ruivo. Caso contrário, repete-se o processo, usando volumagem baixa de oxidante. Se é um castanho natural muito escuro, o ruivo pode não sair daquele tom clarinho que você imaginou. “O castanho-escuro tem uma carga muito grande de pigmento azul/violeta e pigmento vermelho, que dificultam o desgaste natural provocado pela oxidação da coloração”, explica Coutinho. Isso significa que o resultado final pode ser um fundo laranja/avermelhado. Melhor aplicar um tonalizante ruivo e oxidante de 10 volumes para um reflexo um pouco mais quente que casa com o fundo vermelho revelado no clareamento. Se você é loira original, o processo é simples: consegue ficar ruiva com tonalizante ou coloração. E dá para fazer em casa.

Me arrependi

Esse capítulo toda mulher conhece. A loira fake quer voltar ao castanho natural ou ao preto. A ruiva rock’n’roll descobriu que dá trabalho manter o tom e também quer fazer o caminho inverso. No primeiro caso, a loira, não dá para escapar da primeira mão de tinta que aproxima a cor do cabelo do resultado desejado. É a tal da repigmentação. O segundo passo é uma tonalização que reflete a cor original. Sem esses cuidados, você corre o risco de o cabelo desbotar e ficar manchado. Já a Julianne Moore arrependida, que quer ficar loira, precisa se decidir pelo tom exato. Se a ideia é o loiro-escuro mais acinzentado (cor 6), basta passar direto: o tom acinzentado tem um toque de cor azul que neutraliza o reflexo laranja do ruivo. “Não dá para se distrair no tempo de pausa: o cabelo pode acabar chumbo puro”, adverte Coutinho. Agora, se você quer uma cor mais clara, complica: a descoloração entra em cena para remover os resíduos do laranja que compõem o ruivo. Só depois aplica-se um tonalizante para neutralizar possíveis reflexos amarelos, resultantes da descoloração.

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