2010 se torna o segundo ano com maior número de mortes por dengue

2010 se torna o segundo ano com maior número de mortes por dengue

Atualizado: Segunda-feira, 12 Julho de 2010 as 2:23

Desde o início de 2010 até 1º de maio, a dengue já matou 321 pessoas no Brasil. Na história do país, esse número só é menor do que o registrado em todo o ano de 2008, quando a doença vitimou 478 pessoas. Os dados, divulgados pelo Ministério da Saúde, incluem os óbitos confirmados e os que ainda estão em investigação.

Os números do governo mostram ainda que este já é o ano com o maior número de casos. Foram 737 mil até agora, com 321 mortes. Com isso, 2010 contribui de forma decisiva para a pior década da dengue na história do Brasil.

Entre 1991 e 2000, foram 1,66 milhão casos da doença, que provocaram 41 mortes. Já entre 2001 e maio de 2010, a dengue afetou 4 milhões de brasileiros e causou 1.927 mortes.

Esse avanço do número de mortes é preocupante, segundo Giovanini Coelho, coordenador geral do Programa Nacional do Controle da Dengue, já que poderiam ser evitadas.

- O número de óbitos deveria ser bem menor, tendo em vista que eles podem ser evitados. Com um diagnostico precoce, você consegue mobilizar a rede de serviços para atender [o paciente].

Por que os surtos voltam?

O ministério diz que a atual epidemia da doença pode ser explicada, em parte, pela circulação do tipo 1 da dengue, que voltou a predominar em alguns Estados no final de 2009. No entanto, há outros motivos que justificam o aumento na gravidade do problema.

Para o infectologista José Carlos Serufo, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), existe uma série de erros no atual modelo de combate à dengue.

- Não é falta de dinheiro. O que falta é coordenação, porque as ações são muito municipalizadas e não acontecem ao mesmo tempo. Não se trata de verticalizar, mas de trabalhar um único momento em todos os lugares, ou os criadouros se expandem.

O Ministério da Saúde disponibilizou, como Teto Financeiro de Vigilância em Saúde (TFVS), a quantia de R$ 1,02 bilhões para todo o ano de 2010 – o mesmo valor desde 2008. A verba é repassada a Estados e municípios para o combate de diversas doenças, em especial as de notificação obrigatória, como meningite, malária, doença de chagas, febre amarela e dengue. Segundo o governo, não é possível precisar o quanto foi efetivamente gasto no combate à dengue, já que a aplicação dos recursos fica a critério de cada Estado e município, conforme o cenário local.

Além dessa quantia, mais R$ 55 milhões serão investidos no combate à dengue, que se traduz no envio de inseticidas, medicamentos, equipamentos, veículos de fumacê, campanhas publicitárias, entre outros.

Como o combate à dengue envolve esforços de diversas áreas (das esferas federal, estadual, municipal, além da contribuição da população), Coelho diz que é “muito complicado" identificar um erro específico.

- A gente não consegue saber se é uma falha generalizada ou localizada.

Para ele, esse é o melhor modelo de combater à dengue em um país com as dimensões do Brasil. No entanto, Coelho reconhece que é uma estratégia muito difícil de ser executada.

E, como os esforços não conseguem deter os focos do mosquito Aedes aegypti, que transmite a doença, o inseto começa a chegar a lugares que antes não atingia.

Se em 1995 ele estava presente em 1.753 municípios, hoje ele se encontra em 4.007 localidades, ou mais de 80% das cidades brasileiras.

O entomologista Rafael Freitas, do Instituo Oswaldo Cruz, ligado ao Ministério da Saúde, diz que no início da década não havia casos autóctones de dengue (contraídos no próprio local) em cidades como Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, cenário diferente de agora.

- Áreas até então livres do risco agora estão em risco também.

Falta participação maciça das comunidades

Além disso, a baixa participação da população contribui com o aumento de casos. Segundo Freitas, o controle da dengue não é obrigação exclusiva do governo.

- Muitas pessoas pensam que a dengue é culpa do governo, mas não é assim. A população é chave no combate ao mosquito. Temos que sensibilizar as pessoas para eliminar os criadouros possíveis.

Em uma cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, ele afirma que existem vários locais em que os agentes de saúde não conseguem entrar, como em favelas ou mesmo em alguns condomínios de luxo.

- Precisa muito da comunidade: o cara que cuida da sua casa, mas que olha em cima do muro e avisa o vizinho. Os municípios não têm um número de agentes para cobrir todas as casas, por isso precisa da comunidade.

Por: Diego Junqueira

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