Análise refuta benefícios de restrição a comida em trabalho de parto

Análise refuta benefícios de restrição a comida em trabalho de parto

Atualizado: Quinta-feira, 4 Fevereiro de 2010 as 12

Alas de maternidade sempre proibiram mulheres em trabalho de parto de comer ou beber. Mesmo quando a situação se arrasta por algum tempo, as refeições geralmente se limitam a gelo picado.

Agora, uma revisão sistemática de estudos existentes não encontrou nenhuma evidência de que as restrições exerçam qualquer benefício sobre a maioria das mulheres saudáveis e seus bebês.

As proibições visam reduzir o risco da síndrome de Mendelson (doença com o nome de Curtis L. Mendelson, obstetra de Nova York que a descreveu pela primeira vez na década de 1940), que ocorre quando o conteúdo do estômago é puxado para dentro dos pulmões enquanto a paciente está sob anestesia geral.

Mesmo rara, a síndrome pode ser fatal. Atualmente, entretanto, o uso de anestesia geral durante o trabalho de parto e no parto em si também é raro. As cesarianas são geralmente feitas com anestesia local.

"Minha opinião sempre foi que, da mesma forma, você poderia dizer que ninguém deve comer ou beber antes de entrar num carro, pois você pode se envolver num acidente e precisar de anestesia geral", disse Marcie Richardson, obstetra e ginecologista do Harvard Vanguard Medical Associates, em Boston, que não esteve envolvida no novo estudo.

O Centro de Medicina Beth Israel Deaconess, onde Richardson realiza partos, estima que apenas de 1 a 2% das mulheres em trabalho de parto recebem anestesia geral.

As restrições datam de quase sete décadas atrás, segundo Joan Tranmer, professora associada de enfermagem na Queen's University, em Kingston, Ontário, e autora da nova pesquisa, publicada na semana passada pela Cochrane Collaboration.

"Achamos que era hora de questionar isso, agora que estamos na década de 2000", disse Tranmer, que afirmou ter visto mulheres demais em trabalho de parto com sede e boca seca tendo de recorrer a chupar panos úmidos.

"Com técnicas avançadas de anestesia, deixamos de usar muito a anestesia geral", disse ela. "Mesmo quando é preciso administrá-la, as técnicas estão aprimoradas, e os riscos são muito, muito baixos".

"Então, nós transformamos a pergunta: existem benefícios em restringir comidas e bebidas orais durante o trabalho de parto? Não encontramos nem benefícios, nem danos".

Os autores reconhecem haver encontrado relativamente poucas evidências para analisar: onze estudos, incluindo apenas cinco experimentos aleatórios controlados abrangendo 3.130 mulheres.

Todos os estudos acompanhavam mulheres em trabalho de parto ativo e com baixos riscos de exigir anestesia geral. Um comparava a restrição completa de comida e bebida com a liberdade total de comer e beber, dois comparavam água com outros líquidos e alimentos, e dois comparavam água com bebidas isotônicas.

Não houve diferenças estatisticamente relevantes em resultados primários, como a taxa de cesarianas e as escalas de Apgar fetais, ou em resultados secundários, como a necessidade de aliviar dores ou duração do trabalho de parto. Um pequeno estudo, entretanto, descobriu um aumento nas cesarianas entre mulheres tomando isotônicos, em comparação àquelas limitadas a beber água.

Alguns hospitais colocaram restrições a bebidas durante o trabalho de parto nos últimos meses, desde que o Congresso Americano de Obstetras e Ginecologistas emitiu, em agosto, novas diretrizes permitindo às pacientes beber líquidos claros. Mas as diretrizes mantiveram a restrição a alimentos sólidos.

"O problema está nas cesarianas de emergência, que são raras, mas não inexistentes", explicou William Henry Barth Jr., presidente do comitê de prática da obstetrícia da sociedade. "Naquela situação, simplesmente não há tempo para parar e aplicar uma anestesia local. E isso pode ser imprevisível".

Os médicos anestesistas foram críticos em relação à nova pesquisa, dizendo que nenhum dos estudos era grande o bastante para avaliar o impacto da comida sobre os riscos durante a anestesia geral.

"Da perspectiva de um anestesista, eles perderam a mão neste caso", disse Craig M. Palmer, presidente do comitê de anestesia obstetrícia para a Sociedade Americana de Anestesistas.

"Eles examinaram o impacto sobre a progressão do trabalho de parto, mas, para ser honesto, esse não é um assunto para anestesistas. Nossa principal preocupação é com a segurança do paciente".

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