Arritmias e morte súbita vitimam 300 mil brasileiros por ano

Arritmias e morte súbita vitimam 300 mil brasileiros por ano

Atualizado: Sexta-feira, 12 Novembro de 2010 as 9:11

Até os 37 anos, o brasileiro Hugo Campos, residente nos EUA, nunca teve razão para suspeitar de nenhuma doença cardíaca. Ele se lembra apenas de ter sentido algumas palpitações ocasionais, mas achou que o sintoma tinha relação com situações de estresse ou excesso de café. Até que um dia desmaiou em uma estação de trem.

No hospital onde foi atendido, Campos ouviu que a causa do desmaio deveria ser uma simples desidratação. Algumas semanas depois, porém, consultou um cardiologista e soube que tinha sopro no coração. "Nada preocupante", disse-lhe o médico. Durante dois anos, ele viveu sem pensar no assunto até desmaiar mais uma vez. Foi quando decidiu buscar a segunda opinião de um médico e descobriu ser portador de cardiomiopatia hipertrófica, uma doença genética que afeta 1 em 500 indivíduos.

Depois de pesquisar muito sobre a doença na internet e encontrar um centro especializado no tratamento da doença, muita coisa mudou na vida do brasileiro. "O mais difícil foi aceitar a realidade da possibilidade de uma parada cardíaca inesperada. Para reduzir este risco, recebi um desfibrilador cardioversor implantável (CDI), dispositivo semelhante a um marcapasso, capaz de detectar e tratar 99% das arritmias cardíacas malignas causadoras da morte súbita", conta. Hoje, ele é um ativista de direitos dos pacientes com CDIs.

A história de Campos dá uma ideia de como a arritmia cardíaca pode ser perigosa e repentina. O problema é a principal causa de morte súbita, uma dobradinha que faz 300 mil vítimas por ano no Brasil. "A maior parte das arritmias é benigna; as malignas acometem principalmente quem já sofre de alguma doença cardíaca", explica o cardiologista Guilherme Fenelon, presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac).

Fora do ritmo

As arritmias cardíacas são alterações elétricas que provocam irregularidade no ritmo das batidas do coração. Ele pode acelerar (taquicardia) ou bater mais devagar que o normal (bradicardia). Ou, ainda, apresentar ambas as irregularidades. "Algumas arritmias são congênitas, outras ligadas ao uso de medicamentos ou cafeína em excesso", comenta o médico. A pessoa pode sentir palpitações, cansaço excessivo ao fazer esforço e, eventualmente, sofrer desmaios. Mas também há casos em que não há sintoma algum – a morte súbita é a primeira manifestação.

Fenelon alerta para a importância dos check-ups regulares, principalmente entre os indivíduos que já apresentam algum problema cardíaco. Ir ao médico antes de iniciar qualquer programa de atividade física é outra forma de evitar problemas, já que não é incomum presenciar casos de morte súbita durante a prática de esportes.

Dia de prevenção

Neste dia 12 de novembro, Dia Nacional de Prevenção de Arritmias Cardíacas e Morte Súbita, a Sobrac promove a campanha "Coração na Batida Certa", com atividades educativas em diversos Estados para alertar sobre a prevenção e também para a importância do Desfibrilador Externo Automático (DEA), equipamento que deve estar presente em locais de grande circulação de pessoas, como shopping centers e estádios de futebol.

Embora o uso do desfibrilador seja simples (o equipamento é autoexplicativo), ele só é recomendado para pessoas treinadas. Um leigo que presencie um desmaio deve, antes de mais nada, ligar para 192 (Samu), ou pedir que alguém telefone. Caso perceba que a vítima está sem pulso ou não respira, deve executar a massagem cardíaca: contrações rápidas (100 por minuto) e intensas (veja vídeo com orientações para leigos e para profissionais).

Primeiros socorros

Infelizmente, nem todo mundo está preparado para fazer as manobras de ressuscitação em uma situação como essa. "Em muitas partes dos EUA, isso é ensinado na escola", observa o cardiologista. Já no Brasil, o conhecimento é limitado a quem faz curso de primeiros socorros por iniciativa própria ou por exigência do trabalho.

O treinamento para atuar em casos de paradas cardiorrespiratórias no serviço permitiu o supervisor de segurança Andelso Resende salvasse a vida da mulher no ano passado. "Vi que ela tinha apagado na cama e verifiquei que não estava respirando", lembra. Imediatamente, ele executou as manobras e, assim que ela recobrou a consciência, Resende levou a companheira para o hospital mais próximo. "É importante que as pessoas saibam o básico", acredita ele, uma testemunha de que conhecimento e a iniciativa podem salvar vidas.

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