Atividade cerebral "offline" sustenta memória duradoura, dizem brasileiros

Atividade cerebral "offline" sustenta memória duradoura, dizem brasileiros

Atualizado: Terça-feira, 26 Janeiro de 2010 as 12

Um grupo brasileiro de neurocientistas mostrou que os mecanismos ligados à persistência de uma memória entram em funcionamento várias horas depois de o indivíduo tê-la adquirido.

A estrutura cerebral que determina a estocagem daquela informação no longo prazo, o hipocampo, precisa trabalhar em um momento 12 horas após a aquisição da lembrança e, de novo, 24 horas depois. Tudo acaba de ser demonstrado em experimentos com ratos.

A descoberta está descrita em um trabalho liderado por Jorge Medina e Iván Izquierdo, da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), publicado no início do mês na revista "PNAS".

Os cientistas, que já vinham descrevendo o fenômeno em estudos publicados ao longo dos últimos anos, estão conseguindo mostrar que o cérebro possui uma espécie de agenda de atividades para consolidar uma memória após a sua formação.

"Nós já sabíamos que havia duas fases onde havia intensificação da expressão gênica no hipocampo, uma logo depois do treino [para memorização] e uma três ou quatro horas depois", diz Izquierdo. "Agora estamos vendo que existe uma outra fase que se encarrega não da consolidação da memória, mas da persistência dela, 12 horas e 24 horas depois."

Hora certa

Para investigar quais eram os momentos em que o cérebro estavam atuando "offline" para consolidar uma memória --operando sem estímulo direto do contexto de aprendizagem-- os cientistas deram às cobaias uma droga que inibia a produção de proteínas no hipocampo.

Para efeito de comparação, cada rato recebia o fármaco num intervalo diferente após o treino de memória.

Este consiste, basicamente, em uma caixa onde os animais tomam um leve choque nas patas ao pisar uma área específica. Quando o rato reluta em pisar a região eletrificada mesmo após passar uma temporada fora da caixa, os cientistas sabem que ele reteve a memória adquirida quando esteve lá.

"O choque tem de ser pequeno para produzir o aprendizado", explica Izquierdo, que tem de seguir as normas éticas para pesquisa com animais determinadas pela universidade. "Se o choque for muito forte, também, acaba produzindo estresse, e o animal não aprende."

Ratos que recebiam a droga 12 horas e 24 horas após o treinamento no teste, porém, raramente conseguiam se lembrar da área a ser evitada na gaiola.

Examinando o cérebro das cobaias após o teste, Izquierdo e colegas comprovaram que o hipocampo dos animais de fato estava realizando uma atividade especial naquele momento. A prova disso é que um gene conhecido por agir na formação de sinapses de longo prazo, o c-Fos, estava mais ativo naqueles momentos.

A descoberta do grupo de Izquierdo é a segunda a ganhar as páginas da "PNAS", o periódico da Academia de Nacional de Ciências dos EUA. Com estudos nessa e outras publicações importantes, o grupo tem conseguido aumentar sua projeção internacional.

Por Rafael Garcia

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