Baladas levam meninas ao fumo

Baladas levam meninas ao fumo

Atualizado: Quarta-feira, 2 Março de 2011 as 8:57

A estudante Veridiana Lima tinha 13 anos quando experimentou seu primeiro cigarro, durante uma balada com amigas. “Desde então, nunca mais parei”, diz ela, seis anos depois. Nesses ambientes noturnos, o risco de uma menina paulistana começar a fumar aumenta 14 vezes. Já os meninos da cidade ficam oito vezes mais suscetíveis nessa mesma situação.

Os dados compõem o artigo Diferenças de gênero no consumo de tabaco entre adolescentes, publicado pela revista americana BMC Public Health e divulgados ontem no Brasil. Sua autora, a pesquisadora Zila Sanchez, do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), se baseou em entrevistas com 2.691 estudantes do ensino médio de 28 escolas particulares da capital, sendo 95% deles das classes A e B.

A pressão do grupo e a relação com a família interferiram no comportamento de Veridiana e na adesão ao vício da maioria dos jovens ouvidos pela pesquisa. “Estava com duas amigas na balada e outros amigos chegaram já oferecendo o cigarro. Meus pais fumam e, quando eu disse que estava fumando também, eles falaram: ‘ai, que decepção’” conta a menina. Entre as garotas que fumam, 76% vão a baladas ao menos uma vez por semana, índice que sobe para 83% para os rapazes.

De acordo com a pesquisa, a influência do grupo pesa ainda mais para os garotos. Entre as meninas, outro cenário chama a atenção: a relação entre o vício e a fragilidade emocional da adolescente, principalmente em relação aos vínculos familiares. Segundo o levantamento, 40% das entrevistadas que declararam ter fumado no último mês afirmaram que raramente recebem atenção dos pais. Já entre as que não fumaram nesse período, apenas 20% demonstraram essa insatisfação afetiva.

“O relacionamento familiar é fundamental para motivar não só o uso de cigarro, mas especialmente o de álcool, droga lícita, consumida cada vez mais cedo”, observa o médico herbiatra Maurício de Souza Lima, do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC).

Para os meninos, a carência afetiva não aparece como fator de risco para o tabagismo. De acordo com Lima, para o adolescente, o cigarro, como as outras drogas, ajuda a se descontrair, a vencer a timidez. Ou seja: se torna um elemento de sociabilidade e também de bem-estar – já que a nicotina libera dopamina no cérebro, um hormônio ligado à sensação do prazer e da satisfação.

“Cada cigarro parece um escape”, define Stella Regina Martins, diretora do Programa de Atendimento ao Tabagista do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), órgão da Secretaria de Estado da Saúde. Segundo ela, resistir à sedução do tabaco nessa faixa etária é ainda mais difícil quando a indústria oferece cigarros com sabores e aromas. “Cada um deles equivale de três a cinco cigarros normais, em relação à quantidade de nicotina.”

Dependência psicológica

O estudo mostra ainda que a maioria dos jovens fuma apenas na balada e por isso não se considera viciada. “Eles acreditam que fumar só aos fins de semana, por exemplo, não faz mal algum”, afirma Zila. Na amostra da Unifesp, 14% dos estudantes ouvidos se declararam fumantes e, desses, 11% usam tabaco apenas aos sábados e domingos.

A boa notícia é que os fumantes temporários têm mais chances de reabilitação, já que há uma dependência “comportamental ou psicológica do cigarro, mantida pela força do grupo ou do hábito”, segundo Stella, do Cratod. “Com estímulo certo, param”, diz ela.

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