Brasil ganha escola de primeiro mundo em cirurgia menos agressiva

Brasil ganha escola de primeiro mundo em cirurgia menos agressiva

Atualizado: Terça-feira, 12 Julho de 2011 as 11:35

O Hospital de Câncer de Barretos inaugurou nesta sexta-feira (08) o maior centro de treinamento em cirurgia minimamente invasiva da America Latina.

A proposta é oferecer tecnologia de ponta para capacitar médicos em técnicas menos agressivas, que reduzem o tempo de internação e aceleram a recuperação no pós-cirúrgico. Segundo o diretor do Hospital, Henrique Prata, 30% das vagas serão destinadas aos profissionais do Sistema Único de Saúde.

A escola compõe o enorme centro hospitalar do Brasil destinado ao atendimento público de saúde, e é a terceira unidade do Ircad, instituto referência mundial em treinamento e pesquisa em cirurgias laparoscópicas e robóticas, que tem sede na França e uma filial em Taiwan.

Para Henrique Prata, a prerrogativa do centro é combater a dicotomia social entre medicina privada e pública. Na visão do diretor, o treinamento dos profissionais permitirá o avanço das técnicas modernas dentro dos hospitais públicos.

“Essa medicina era feita só para a elite, por médicos bem remunerados, que tiveram condições de realizar cursos no exterior. Podemos mostrar que temos medicina de primeiro mundo para quem quer que seja, mesmo sem dinheiro”, diz.

Hoje, apenas 20% das cirurgias laparoscópicas são feitas dentro dos hospitais públicos. Na rede privada, o índice bate a casa dos 90%. A técnica, ao encurtar o tempo de internação, reduz o risco de infecção hospitalar em 80%. Os números também representam economia aos cofres públicos.

“Um paciente que retorna para a Unidade Intensiva de Tratamento (UTI) por conta de uma infecção custa seis mil reais por dia. Não há razão para essa técnica permanecer limitada apenas aos mais abastados. Com a laparoscopia, um sujeito faz uma cirurgia na vesícula pela manhã e tem alta no final do dia. Na medicina tradicional, precisa de quatro dias de internação”, compara Henrique.

Armano Melani, diretor científico do Ircad Brasil, revela que o centro tem capacidade para treinar mais de três mil médicos por ano e oferecerá, inicialmente, 11 cursos, com duração máxima de três dias e preço variável, de R$ 1.000 a R$ 2.500. Equipamentos com tecnologia HD, enormes telas, similares ao que hoje é possível encontrar nas salas de cinema 3D, e 20 estações cirúrgicas compõe a robusta filial brasileira. A intenção é chegar ao ponto em que oferecer ao paciente um procedimento agressivo seja ferir a ética médica. “Temos condições e estrutura para qualificar 3.500 cirurgiões todos os anos", contabiliza.

Segundo Melani, 90% das cirurgias digestivas e 60% das ginecológicas feitas no Hospital de Câncer de Barretos usam técnicas minimamente invasivas. “Somos um dos poucos hospitais públicos que oferece a tecnologia e qualidade de vida aos pacientes de baixa renda. Queremos multiplicar essa realidade através da capacitação”.

Olé na Argentina

“Peão de boiadero ignorantão”, como se autodefine, Henrique Prata transformou-se em paladino da saúde no Brasil. Sua postura agressiva, com um discurso similar ao de jogadores de futebol – que usam Deus como um recurso linguístico – foi essencial para convencer o médico e presidente do Instituto na França, Jacques Merescaux, a optar pelo Brasil, vencendo a concorrência da Argentina, que há três anos tentava instalar o centro latino-americano em seu país.

Com o dedo em riste, garantindo que a obra seria concluída no tempo máximo de um ano, com apoio público e privado, e sem falar absolutamente uma palavra em inglês, Prata conseguiu transformar os 10 minutos que tinha para fazer a proposta a Merescaux em uma relação de parceria e amizade.

“Uma série de milagres divinos resultaram na instalação do Ircad no Brasil. Tínhamos apenas dez minutos para explicar o nosso projeto. O tradutor não conseguia reproduzir exatamente o que eu estava propondo. Foi então que Jacques pediu para que eu falasse pausadamente em português mesmo, que certamente ele entenderia. Foi assim que a parceria deu certo”.

O governo federal e do Estado de São Paulo renderam-se ao projeto e destinaram R$ 15 milhões cada para o centro, que tem 7.200 mentros quadrados de área construída. Os outros R$ 30 milhões foram bancados pelas instituições multinacionais Covidien, líder no mercado de material cirúrgico, e Karl Storz, principal fornecedora do setor de instrumentos endoscópicos.  

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