Cãibra muscular no meio da prova. Insistir ou desistir?

Cãibra muscular no meio da prova. Insistir ou desistir?

Atualizado: Quinta-feira, 24 Dezembro de 2009 as 12

Na Maratona de Boston de 2003, quase na metade do percurso, Dennis Fisher enfrentou um dilema. Cãibras nas pernas e cólicas haviam diminuído muito seu ritmo, interrompido por várias idas a banheiros químicos. Uma voz interna dizia para ele desistir e que aquele sofrimento não valia a pena. Mas, enquanto lutava para seguir em frente, pensava na instituição de caridade pela qual corria e nos e-mails que teria de enviar para explicar a "quebra" em sua quinta maratona. "Eu não queria desistir de jeito nenhum", diz Fisher, jornalista de Massachusetts. "Naquele momento, desistir era um sinal de fraqueza."

Fisher juntou forças e terminou a maratona em 4h40, uma hora a mais do que o tempo que planejava. Depois da competição, bebeu uma garrafa de água e, logo em seguida, vomitou. A esposa o levou ao pronto-socorro, onde ele recebeu tratamento para insuficiência renal. Dennis se recuperou, mas saiu do hospital com outra visão sobre a prova. "Ficou claro que eu deveria ter desistido", afirmou.

Quando você depara com um contratempo no dia da competição ? quer ele já esteja presente quando você acorda (enjoo, febre), quer apareça entre uma passada e outra (cãibras na panturrilha, torção no tornozelo) -, uma decisão precisa ser tomada. E, considerando que você tenha treinado intensamente e por muito tempo antes do evento, é provável que a decisão seja difícil. Se você desistir, terá de conviver com a dúvida de como teria se saído se tivesse continuado. Se abandonar a competição, pode evitar que um pequeno problema se transforme em algo mais sério.

De acordo com os médicos, as possíveis causas da insuficiência renal de Fisher foram a desidratação (clima quente, várias idas ao banheiro), o uso de anti-inflamatórios (usados antes da competição) e os 42 km percorridos. Se ele tivesse deixado a competição aos primeiros sintomas, talvez tivesse conseguido evitar a ida ao pronto-socorro. Aprender a entender os sinais do seu corpo pode ajudá-lo a saber quando insistir e quando desistir.

Diagnóstico na pista

Especialistas afirmam que é normal sentir algum desconforto ao fazer esforço e que, geralmente, você pode passar por isso sem se machucar ou correr risco de lesões. Uma dor que você já conhece provavelmente não é motivo para abandonar uma corrida, segundo Craig Moore, clínico geral especializado em medicina esportiva em Washington e maratonista com tempo de 2h19.

Se você tem tendinite no tendão de Aquiles, por exemplo, não é estranho que o calcanhar comece a doer no meio da prova. "Se você sentir uma dor incômoda e contínua, mas que não piora, normalmente você pode seguir em frente, especialmente se já estiver no fim da competição", diz Moore.

Mas, se a dor for severa, inesperada ou diferente de qualquer dor que você já tenha sentido, então, esse é um sinal de alerta. "Se você sentir uma dor aguda, penetrante ou lancinante, você deve diminuir o ritmo para ver se ela para", afirma Moore. Se isso não acontecer ou se ela aumentar, procure um posto médico ou espere até o atendimento chegar a você. Dor, pressão ou aperto no peito são sintomas que exigem atenção imediata. Além disso, se você sentir ou ouvir um estalo ou um estalido ? sinais de estiramento do músculo ou do ligamento ?, não dê mais nem um passo. Se parar na hora, você poderá se recuperar a tempo de participar de uma corrida "plano B" em poucas semanas (veja "Bola pra frente", acima). Mas, se continuar correndo, poderá sofrer uma ruptura completa, o que pode significar meses sem correr e competir.

Lewis Maharam, diretor médico da Maratona de Nova York, afirma que a postura na corrida também pode dar indícios se é hora de desistir ou seguir. "Se a dor fica forte a ponto de alterar seu modo de correr ? você favorece uma perna e tem dificuldade de aguentar o peso na outra ou está se curvando ?, seu corpo está avisando que há algo errado", afirma. Mas, antes de dizer adeus, tente ajustar o ritmo. "Se você estiver se matando para correr 1 km em 5 minutos, mas conseguir manter a postura e correr numa boa 1 km em 6 a 8 minutos, então deixe de lado seu tempo-alvo e pense em terminar a corrida", diz Maharam. "Há uma diferença entre competir e correr em uma prova."

Pense nas consequências

Se sua prioridade é correr em um tempo específico, então abandone o percurso se perceber que sua meta não poderá ser atingida e evite desperdiçar seu treino e desgastar o corpo em uma competição sem sentido. E, parando logo, você ainda pode tentar novamente na semana seguinte. Segundo Maharam, essa é a melhor saída também se você estiver enfrentando um resfriado, uma gripe ou lutando contra a feijoada que comeu antes da corrida - problemas que costumam se resolver sozinhos, em poucos dias. Se seu objetivo for curtir a prova, então uma boa estratégia é reduzir o ritmo e concentrar-se em alcançar a linha de chegada do modo mais confortável possível.

Às vezes, as coisas parecem ser piores do que realmente são. Escoriações, bolhas, cortes e arranhões podem até fazer você reduzir o ritmo, mas não precisam freá-lo. Em 2006, Teri Harper, do Colorado, lutou contra a bexiga cheia durante um percurso entre pedras e raízes de árvores na competição Barr Trail Mountain Race. "Estava procurando um lugar onde pudesse ir ao banheiro quando tropecei e caí", diz ela. Se você cair, o conselho é simples. "Se você conseguir correr, corra", afirma Terry Nicola, diretor de reabilitação em medicina esportiva da Universidade de Illinois. Qual é então a dificuldade? É definir o termo "correr". "Mancar, andar com dificuldade ou se arrastando não é correr", diz Nicola. Apesar de Teri ter ficado com os joelhos, os cotovelos e as palmas das mãos ensanguentados, ela não sofreu lesões importantes, conseguiu se recompor e conquistou uma medalha.

Quer você decida seguir em frente, quer resolva desistir, uma experiência frustrante em uma competição faz de você um corredor mais forte e mais sábio. Isso aconteceu com Fisher, que já correu duas maratonas desde o episódio traumático em Boston. "Aprendi que não há problema em diminuir o ritmo ou abandonar a prova se as coisas não vão bem", afirma. "Mas também aprendi que posso continuar e cumprir as metas que estabeleci. Essa lição me ajuda em competições de curta distância, quando estou tentando estabelecer um recorde pessoal e parece impossível correr mais 1 quilômetro."

Por: Gigi Douban

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