Calma, meu caro!

Calma, meu caro!

Atualizado: Quarta-feira, 2 Fevereiro de 2011 as 9:17

Você dá murros na almofada do sofá quando seu time perde um jogo. Ou começa a ter tique nervoso quando olha no espelho e percebe que está ficando careca. Atenção: não são apenas reações de irritações passageiras, mas sim de estresse de verdade. O pior é que essas pequenas chatices podem ser mais perversas do que as grandes tragédias, porque nos vencem pela invisibilidade ou pelo cansaço. “Não as evitamos porque não as vemos como problema. Até o dia em que você explode”, diz o psicólogo Armando Ribeiro das Neves Neto, supervisor clínico de terapia cognitivo-comportamental na Universidade de São Paulo (USP).

Esses causadores de tensão podem ser crônicos e perigosos e, conforme crescem, comprometem a saúde: estressados têm 54% mais chances de sofrer ataque cardíaco, segundo estudo britânico de 2008 publicado no periódico European Heart Journal. E um trabalho sueco sugere que o estresse pode dobrar as chances de um homem desenvolver diabetes. 596 homens responderam a uma pesquisa no site da MH, para apontar os pequenos fatores de estresse que atravancam seu cotidiano. Aprenda a lidar com essas questões menores e foque no que realmente interessa: todo o resto da sua vida.

Fator de estresse:

INSEGURANÇA

Não é de surpreender que o pagamento das contas, dos cartões de crédito e a preocupação com o orçamento doméstico estejam entre as maiores causas de estresse em nossa pesquisa – 61% dos entrevistados sentem tensão de moderada a alta nessas situações. “Muito do estresse sobre as finanças tem a ver com incerteza – sobre sua situação financeira, claro, mas muito mais sobre sua estabilidade no emprego. Não ter controle sobre isso acaba por consumir a pessoa”, diz Thomas Miller, psicólogo da Universidade de Kentucky, nos EUA, e autor do livro Handbook of Stressful Transitions across the Lifespan (Guia das Transições Estressantes ao Longo da Vida).

Desarme a bomba: reflita sobre o que realmente deixa você de cabeça quente. São as conta mesmo ou sua situação profissional? Faça um exercício de autoconhecimento: por que isso é tão ruim? Mexe com sua autoestima, com os valores que você aprendeu com a sua família? Parta para uma caça aos fatos e consiga respostas para as questões mais espinhosas. Mas seja flexível. “Não conseguir pagar uma conta, em um mês, não significa que você seja um desastrado, um atrapalhado, que não tem valor ou que não vai ser valorizado como gerente, pai ou filho”, diz Armando Ribeiro. No campo profissional, se tiver uma relação de confiança com seu chefe, comente sobre o clima de instabilidade. E dê um jeito de saber se você se encaixa nos planos da empresa e o que pode fazer para se tornar mais valioso. “Quanto mais respostas você conseguir, mais clareza terá sobre os fatos e sobre sua situação. E isso proporciona maior controle”, diz Miller.

Fator de estresse:

A ATUAÇÃO DO SEU TIME

Um em cada quatro homens em nossa pesquisa classificou como nível alto de estresse ver o time perder. Pesquisadores mostraram que quanto mais profunda a paixão por um time ou jogador, maior a probabilidade de transformar as reações emocionais em hostilidade. Você chuta o cachorro, seus dias ficam azedos e você se distancia dos amigos e familiares.

Desarme a bomba: encontre um fórum online que discuta sobre seu time e vomite sua frustração lá. Um estudo da Universidade de Mississippi, nos EUA, descobriu que os comentários de fãs que postavam mensagens depois que seus times haviam perdido um jogo do campeonato eram agressivos. Mas os pesquisadores argumentam que esse descarrego virtual pode ser uma boa coisa. “Blogs e fóruns oferecem espaço para a exposição de agressividade socialmente aceita”, diz Brad Schultz, um dos autores do estudo. A linguagem pode ser desagradável, assim como a atitude, mas os perdedores podem se amargurar e ninguém sai machucado fisicamente. Acima de tudo, propicia aos fãs um espaço para compartilhar as experiências e procurar ser compreendido por pessoas com opiniões semelhantes.

Fator de estresse:

DIVIDIR AS CONTAS

Estresse financeiro pode ser muito pior para um homem quando ele está em um relacionamento, porque o ponto de vista masculino sobre a situação é diferente do da mulher. “Muitas vezes os interesses são diametralmente opostos”, diz Zay Zagorsky, economista da Universidade Estadual de Ohio, nos EUA. Em sua pesquisa, publicada no periódico Journal of Socio-Economics, ele descobriu que os homens tendem a dar muito mais valor à aquisição de bens como carros e casa, enquanto as mulheres preferem consumir mais no dia a dia. As estimativas de receita e renda líquida variavam também. Isso mostra que os casais frequentemente não sabem quanto dinheiro têm ou não querem conversar sobre dinheiro honestamente, diz Glenn Good, psicólogo da Universidade do Missouri, nos EUA. “Eles se recusam a discutir, porque é desconfortável ou embaraçoso ou há tantas questões acumuladas que eles simplesmente não querem trazer o assunto à tona”, diz Zargosky. O que acontece é que o estresse cresce até que vocês entram em confronto sobre algo como os hábitos de consumo ou os gastos mais expressivos do outro. Então explodem.

Desarme a bomba: reserve 15 minutos do café da manhã no fim de semana para colocar na ponta do lápis dívidas e rendimentos, sugere Good. Façam isso separadamente e comparem seus números com os extratos bancários e holerites. Se compartilham objetivos financeiros de longo prazo e entendem que também dividem as responsabilidades financeiras do dia a dia, então a diferença normal entre os gastos – você gasta R$ 100 em cafés por mês a mais do que ela, por exemplo – fica mais fácil de entender. O clima de mútua compreensão permite que o nível de estresse despenque.

Fator de estresse:

PERDA DE CABELO

Mais da metade dos leitores que responderam à nossa pesquisa sente preocupação com a imagem, e 34% apontam a queda de cabelo como um fator de estresse considerável. Eles não estão sozinhos: um artigo da Mayo Clinic Proceedings, de 2005, cita diversos trabalhos que demonstram como a calvície afeta negativamente a autoestima masculina. “Incomoda o homem a ponto de levá-lo à insegurança pessoal e profissional. Com isso, ele acaba evitando diversas situações no dia a dia, como ir à academia ou paquerar uma garota”, diz o tricologista Luciano Barsanti, diretor médico do Instituto do Cabelo, em São Paulo, e presidente da Sociedade Brasileira de Tricologia. Pesquisa realizada por Barsanti mostra que os calvos têm também maior dificuldade de recolocação e empregabilidade. “Esse quadro aumenta o estresse.”

Desarme a bomba: considere o problema uma questão clínica. Alopecia é o nome que se dá à queda de cabelos que ocorre mais frequentemente. “Acontece quando a testosterona é convertida em outro hormônio, a dihidrotestosterona (DHT), que é um veneno para o cabelo, porque, além de fazer o fio cair, atrofia a raiz e provoca a miniaturização”, explica Barsanti. O tratamento para barrar a alopecia não é barato e exige dedicação, porque associa terapias, tratamentos tópicos, medicamentos orais e recursos tecnológicos como lasers. Dura em média seis meses, só que os primeiros resultados aparecem em quatro meses. Decida se o esforço vale a pena. Caso considere válido, encare sua escolha de frente. Se conseguir enfrentar esse problema como uma questão médica, você terá mais chances de evitar esse gerador de estresse. É bom que você saiba: já que o DHT vem da testosterona e quando você está estressado seu corpo produz mais desse hormônio, tente relaxar para não piorar o processo.

Fator de estresse:

OS IDIOTAS QUE CRUZAM SEU CAMINHO

Viver a vida significa ter que lidar com gente sem consideração, agüentar péssimos serviços e todas as burocracias que entopem as artérias da sociedade. Mas 72% dos leitores que responderam

à nossa pesquisa no site não consegue evitar o alto estresse que esse tipo de sujeito provoca. Esfrie a cabeça, meu caro: você não tem como influenciá-los. Você vê que eles não estão tomando as melhores decisões e pensa que pode fazer melhor. O resultado é que você se sente com menos controle, e esse é um fator de estresse muito sério.

Desarme a bomba: não se deixe perturbar por esse tipo de gente.

“Começamos a encarar bem essas situações quando saímos do automático”, acredita o psicólogo Armando Ribeiro das Neves Neto, da USP. “Normalmente, esperamos que as coisas aconteçam na velocidade do pensamento – e isso é impossível. Não é uma questão de negligenciar que exista burocracia e que as pessoas vivam fazendo bobagens a nosso redor, mas de enxergar que tudo precisa de tempo para acontecer. Aí você começa a ter mais flexibilidade.” Se você tenta mudar os sem noção, dá a eles controle sobre você. É mais divertido tentar apenas se entreter com eles. E quem garante que você também não age às vezes como um idiota?

Fator de estresse:

HORÁRIO DA MALHAÇÃO

Que tal esta ironia: exercícios físicos são ótimos no combate ao estresse, no entanto, quase metade daqueles que responderam à nossa pesquisa classificou o compromisso com uma rotina de malhação como um fator de estresse alto. Primeiro, porque você se preocupa se perde uma aula ou se falta a todos os exercícios programados para o dia. Segundo, quando você tenta garimpar algumas horas para se exercitar na sua agenda, seu estresse bate recorde, porque se lembra de todos os outros compromissos que deve cumprir no dia. “Quem encara os fatos dessa forma acaba abandonando o esporte”, alerta a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR) e representante brasileira na Divisão de Saúde Ocupacional da Associação Mundial de Psiquiatria. O esforço pode inclusive afetar como e o que você está comendo. Então, o ato de se alimentar também se torna fator de estresse, o que complica ainda mais sua vida.

Desarme a bomba: divida seu programa de exercícios em “porções”.

Por exemplo: deixe a sua rotina de exercícios cardiovasculares mais curta; intercale tiros com atividades dentro de seu ritmo normal (você também vai melhorar a queima de gordura dessa forma). Se estiver pegando peso, corte pela metade o intervalo de descanso de um minuto para 30 segundos entre cada série de 12 repetições e vai economizar seis minutos. Outra dica é levar um pouco da academia até você: troque o elevador pela escada, dê uma caminhada. As pessoas ficam muito bitoladas achando que só existe atividade física dentro de uma academia, mas há várias oportunidades de colocar o corpo para funcionar melhor. Por fim, procure maneiras de condensar outras atividades: banho, cozinhar, navegar na internet. Você tem tempo, só precisa aprender a mandar nele.

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