Características importantes são transmitidas ao bebê durante a gestação

Características importantes são transmitidas ao bebê durante a gestação

Atualizado: Sexta-feira, 7 Janeiro de 2011 as 11:17

Quando o primeiro filho da jornalista médica Annie Murphy Paul ainda era bebê, em New Haven, ela começou a se perguntar como os traços de personalidade são passados de uma geração para outra. Assim, fez o que qualquer repórter faria: mergulhou em literatura científica e conversou com pesquisadores.

E então, durante sua pesquisa, ela ficou grávida.

"Originalmente, eu queria escrever sobre a transmissão de características e comportamentos em famílias", disse Paul, de 38 anos, numa entrevista com chá e bolo num café perto de sua casa. "Isso definitivamente veio do fato de eu ter meu primeiro filho, e pensar sobre o que eu iria querer passar de minha família e da de meu marido".

Mas então ela ficou intrigada com a ideia de que algumas características importantes poderiam ser transmitidas no útero, durante a gestação. "Isso chegou me pareceu uma ideia espantosa", disse ela. "Algo entre a natureza e a educação, ou ambos".

A ideia levou ao seu aclamado novo livro, "Origins: How the Nine Months Before Birth Shape the Rest of Our Lives" (Origens: Como os Nove Meses Antes do Nascimento Moldam o Restante de Nossas Vidas, em tradução livre). Dividido em nove capítulos que refletem os nove meses das gestações da própria autora, o livro explora a ideia de que problemas cardíacos, diabetes e talvez outras doenças podem ter suas origens durante a gravidez.

Essa hipótese é defendida por uma sucessão de estudos. Alguns cientistas têm o palpite de que a dieta de uma mulher grávida, e sua exposição a diversos compostos químicos, ativam alguns genes fetais que desativam outros. Essas trocas desempenham um papel vital na vida dos pré-adultos, tornando a criança mais ou menos suscetível a doenças, incluindo problemas mentais.

A meta principal de tal pesquisa é dividida em duas: ser capaz de aprimorar os conselhos a mulheres grávidas, e identificar indivíduos de alto risco bem cedo, até mesmo no nascimento. Dito isso, o campo ainda está em seu estágio fetal.

Mesmo assim, Paul considerou a pesquisa reconfortante. "As pessoas frequentemente me perguntam: 'Sua pesquisa lhe deixou mais preocupada com a gravidez?'", disse ela, "mas eu descobri exatamente o oposto". Na primeira vez, ela não sabia no que acreditar, com que seriedade interpretar os avisos enfrentados por todas as mulheres grávidas. É pior "ter um pouquinho de conhecimento, apenas o suficiente para saber que você está sempre fazendo algo errado".

"Quando me aprofundei nas pesquisas e falei com cientistas", disse ela, "fui capaz de colocar essas descobertas no contexto e enxergar a imagem mais ampla. Assim, era isso que eu queria fazer para os leitores" (hoje seus filhos têm 5 anos e 1 ano).

Paul dedica cada capítulo a uma influência ambiental que pode surgir durante os meses correspondentes da gravidez. Por exemplo, ela escreve sobre descobertas de que bebês nascidos de mães obesas usam insulina com menos eficácia do que aqueles cujas mães realizaram cirurgias de perda de peso antes da gravidez.

As descobertas sugerem que o ambiente no útero pode desempenhar um papel na diabete que vai além da genética _ assim como uma descoberta de que ratos alimentados com "junk food" tinham 95 por cento mais chances de gerar ninhadas pré-dispostas a comer demais.

Paul também descreve a metilação, processo pelo qual um grupo de elementos químicos (um grupo metil) se prende a genes e controla se eles são ativados ou desativados. Alguns alimentos agem como metiladores; um estudo com uma espécie de ratos gordos, inclinados à diabete e ao câncer, descobriu que, quando colocados numa dieta rica em metiladores, seus filhotes cresciam magros e sem um risco elevado para doenças.

Esse tipo de pesquisa tem sua origem no trabalho do Dr. David Barker, professor da Universidade de Southampton, na Inglaterra, que ligou a subnutrição em mulheres ao risco elevado de doenças cardíacas e diabetes em seus filhos. Suas ideias, desenvolvidas na década de 1980, foram amplamente rejeitadas no início _ hoje, porém, muitos de seus críticos ser tornaram colegas e o consideram o pai desse campo de pesquisa.

As observações de Barker, assim como os experimentos mais recentes sobre mecanismos de gestação, são "uma incrível combinação de ciência médica vinda de duas direções distintas", afirmou o Dr. Alfred Sommer, reitor-emérito da Faculdade Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins. Sua equipe descobriu que mulheres nepalesas subnutridas, recebendo vitamina A durante a gravidez, tinham bebês com maior desenvolvimento de pulmões, talvez prevenindo doenças futuras.

Paul disse que durante sua primeira gravidez, ela tinha medo de comer peixe – graças aos potenciais efeitos tóxicos do mercúrio. Em sua segunda gestação, ela leu sobre um estudo indicando que as mulheres que comiam pouco peixe durante a gravidez tinham maior probabilidade de ter filhos com maus resultados em testes de QI verbal. Ela começou a comer sardinhas - baixo teor de mercúrio, alta concentração de ácidos graxos ômega-3.

Seus maiores críticos, segundo ela, não foram os cientistas, mas "mulheres comuns, afirmando que isso deixará as mulheres mais ansiosas e que você está aumentando o fardo que as grávidas já carregam".

"Minha resposta a elas é que a pesquisa é real, isso está acontecendo e nós vamos continuar ouvindo a respeito", disse Paul. "Estamos num tipo de ‘o pior de todos os mundos’ no momento, com as mulheres sendo bombardeadas por essas mensagens sensacionalistas da mídia. Se podemos aprender mais sobre o assunto e enxergar o quadro mais amplo, isso é melhor do que as outras opções: ignorar o assunto, repudiá-lo ou deixar que as táticas de amedrontamento nos levem à loucura".

veja também