Ócio faz bem para o cérebro

Ócio faz bem para o cérebro

Atualizado: Segunda-feira, 21 Março de 2011 as 9:13

Ficar deitada de pernas para o ar, folhear uma revista, sair para olhar vitrines: atitudes prazerosas e relaxantes como essas, apesar de raras, podem fazer muito bem para sua saúde.

Ledo engano quem pensa que ralar 12 horas por dia, muitas vezes até nos finais de semana, seja a única maneira de dar conta da avalanche de demandas cotidianas. Os indivíduos que se destacam em todos os âmbitos são aqueles que conseguem equacionar de maneira inteligente a atividade profissional e o lazer, evitando, assim, uma sobrecarga mental.

"É difícil avaliar o que é considerado excesso de trabalho cerebral, mas existem cálculos especulativos indicando que gênios como Albert Einstein, Isaac Newton e Leonardo da Vinci, por exemplo, só lançaram mão de 20% da sua capacidade, o que nos dá a sensação de que a estafa seja resultante de seu mau uso", conta o neurologista Deusvenir de Souza Carvalho, da Universidade Federal de São Paulo.

O especialista explica: "as atividades intensas incentivam a produção de substâncias no organismo que o preparam para reagir às solicitações do dia a dia", explica Luis Fernando Correia, clínico geral do Hospital Samaritano do Rio de Janeiro. "Se for contínua, a estimulação pode levar a um estado de exaustão física e mental. Daí a necessidade de buscar um equilíbrio entre as duas situações", acrescenta.

Ócio criativo

Um dos maiores defensores da teoria de que o cérebro precisa de uma pausa para funcionar bem é o sociólogo italiano Domenico De Masi, que elaborou o conceito de ócio criativo. Segundo ele, é possível estabelecer uma rotina equilibrada e fazer com que o trabalho, o estudo e o lazer se cruzem de maneira tão harmoniosa que a pessoa praticamente não consiga distinguir de qual deles está se ocupando em determinado momento. Ou seja, de acordo com De Masi, o ócio não é caracterizado por momentos inertes, mas justamente pela ocupação do tempo de forma gratificante e criativa.

O que até então parecia uma conversa teórica, mais baseada em ideias e percepções, está ganhando comprovação científica. "Não é necessário haver um esvaziamento da mente. O ócio pode estar em uma atividade prazerosa ou mesmo em uma contemplação", concorda a psiquiatra Rita Cecília Ferreira, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

"Nessas situações, o cérebro modifica o seu funcionamento e trabalha sem pressões, recuperando-se dos momentos estressantes", conta. "O descanso para a mente pode acontecer com o simples afastamento dos estímulos excessivos", complementa Luis Fernando Correia. "Em circunstâncias como essa, as ondas elétricas cerebrais assumem um padrão diferente, resultando num estado de relaxamento quase total".

Segundo Deusvenir de Souza Carvalho, o que de fato importa é deixar um espaço de tempo entre uma atividade e outra. "Do contrário, temos a impressão de que se trata de uma ação contínua, o que gera cansaço no final do dia".

Reservar um período para atividades agradáveis no cotidiano também é essencial. "Mesmo que sejam apenas 15 minutos para ler um livro ou assistir ao seu programa de televisão favorito", diz a psicóloga paulista Cecília Zylberstajn. "O deleite promove uma neuroquímica renovada. Por isso, o ideal é aprender a sentir prazer em tudo", acrescenta Carvalho.

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