Cirurgião mudou de país para tratar a filha

Cirurgião mudou de país para tratar a filha

Atualizado: Terça-feira, 6 Setembro de 2011 as 9:57

Um sapo atropelado acidentalmente foi o primeiro “paciente” operado pelo então garoto de 15 anos. “O pai do meu amigo passou com o carro em cima do bicho. Peguei um anestésico, besuntei o animal, amputei a pata já condenada, costurei e o anfíbio sobreviveu”, lembra o hoje cirurgião Gerd Schreen, marcando ali sua aproximação com a medicina e vom a vontade de curar.

A função de médico, mesma profissão do pai, virou realidade para o jovem paulistano. Em 1991, Gerd Schreen ingressou na Universidade de São Paulo (USP). Mas 14 anos depois, já estabilizado como cirurgião vascular do Hospital Albert Einstein, Schreen mudou os rumos da carreira médica. Desta vez, quem marcava a mudança era o nascimento da segunda filha.

O diagnóstico de assimetria craniana na caçula – e a constatação de que não havia tratamento para ela no Brasil e nem para nenhum outro recém-nascido com o mesmo problema – fez o médico investir em um novo ofício na carreira da saúde.

“Fui estudar nos Estados Unidos, me especializei e consegui não só ajudar a minha filha como, agora, acabo de completar o início do tratamento no paciente número 50”, conta com orgulho.

"Conforme-se"

Foi em uma tarde de sábado que os olhos de Gerd Schreen enxergaram o que ele não via. “A minha pequena tinha só quatro meses de vida. Meu pai foi visitar a gente e disse que ela tinha a cabeça um pouco torta. Fiquei fulo da vida. Quase briguei com ele. Mas olhando bem, era diferente mesmo”, lembra.

“Depois de aceitar o que, até então, eu e a minha mulher não tínhamos visto, procuramos os cinco melhores neurocirurgiões do País. A cabecinha da minha filha ficava cada vez mais torta, um lado muito desigual do outro, e de todos os profissionais que visitamos, escutamos a mesma coisa: ‘conforme-se. Não há o que fazer'.”

De fato, o problema chamado Plagiocefalia – referente às crianças que tem um lado da cabeça maior ou muito achatado – não traz o risco de morrer. Não há prejuízos intelectuais e, em alguns casos, a diferença pode trazer assimetrias para a região da boca.

As razões para que o crescimento desigual da circunferência do crânio podem ser um mau posicionamento durante a gestação, posição errada no berço e no bebê-conforto ou simplesmente colocar o bebê para dormir em uma única posição no berço, provocando um torcicolo congênito.

Por vezes, a cabecinha fica simétrica com o passar do tempo, sem nenhuma intervenção médica. Em outras, fisioterapia e exercícios resolvem. Mas para uma parcela dos bebês, os impactos sociais não tratados serão para a vida toda.

Justamente pelo prejuízo ser mais social do que físico, já que as crianças estampam no rosto o diferente, não justificaria a intervenção cirúrgia na caçula de Schreen, única opção disponível naquele ano de 2005.

“A cirurgia consiste em abrir o crânio, quebrá-lo e montar os ossos novamente. A criança perde muito sangue e, em apenas um processo cirúrgico, são necessárias cinco transfusões”, lembra Gerd.

“É claro que por ser um problema benigno não vale à pena. É óbvio também que eu amo e amaria a minha filha de qualquer jeito. Mas resolvi não obedecer aos médicos. Eu não me conformei.”

Capacete

Em uma das muitas noites que passou pesquisando o assunto, o médico – que agora era pai quase em tempo integral – descobriu que nos EUA existia um tratamento para a Plagiocefalia bem menos invasivo. “Era uma órtese, em forma de capacete, que molda a cabeça da criança. Seu uso por alguns meses corrige em quase 100% a cabeça disforme. Pensei: pronto, é isso que a minha filha precisa.”

A descoberta da terapêutica exigia mais do que comprar passagens e voar para o outro país. Seria preciso um acompanhamento, de perto, por ao menos cinco meses. O capacete funciona melhor quanto mais nova é a criança.

“Pelos intervalos entre uma consulta e outra, não daria para ficar na ponte área. Fizemos as malas, tiramos o passaporte e nos mudamos para Washington.”

A família Schreen – pai, mãe, filha mais velha e a caçula – foi morar no porão da casa de um parente. Foram tempos difíceis, lembra o médico. A menor fazendo tratamento, a mais velha sem entender por que precisou deixar a casa, os amiguinhos e o centro das atenções – ela emagreceu e chorava muito na época – a mãe dedicada só às consultas médicas e Gerd tendo que voltar ao Brasil, atender os pacientes que deixou aqui e conseguir dinheiro para custear aquele investimento brutal. “Custou mais caro que um apartamento, mas valeu cada centavo”, diz.

Durante cinco meses, a menina usou o capacete de cor branca, acessório que não pesa e é feito sob medida para cada paciente. É preciso usar a órtese 23 horas por dia e tirá-la só para tomar banho e fazer a higiene. “Não dói. E é um curto período”, diz Gerd Schreen.

Maria-chiquinha

Com o resultado almejado conquistado, a família voltou para São Paulo. Foi no aniversário de um ano da menina que o médico se deu conta de como a decisão de buscar um tratamento tão distante para a cebeça disforme trouxe para tão perto a sensação de felicidade, vivida nas coisas mais triviais.

“Minha mulher estava amarrando o cabelo dela em duas marias-chiquinhas para ficar bonita para os parabéns. Ali, minha esposa e eu choramos em pensar que jamais poderiamos fazer aquilo se não fosse o tratamento. Ver a cabeça da minha menina perfeitinha foi sensacional”, diz o médico. “Ao mesmo tempo, me fez refletir que eu só consegui isso porque tive a oportunidade de viajar. E os outros pais? Como ficariam?”.

Seis meses após o episódio, Gerd Schreen recebeu uma ligação de um pai de uma criança com assimetria craniana perguntando como ele tinha tratado sua filha. “Desliguei o telefone já com um sócio elencado. Fui para Universidade Johns Hopkins (uma das mais renomadas em medicina dos EUA e do mundo), fiz especialização em assimetria cerebral, consegui o certificado”, conta o médico.

Conseguiu com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a autorização para produzir os capacetes no Brasil, processo que demorou um ano e meio. Montou uma clínica em São Paulo, e desde fevereiro atende pacientes de todos os locais do País e até da América Latina. Já são 50 crianças em tratamento (que tem custo total de cerca de R$ 15 mil).

“Não é sempre que a órtese pode ser usada – o paciente tem que ter menos de 1 anos e dois meses – mas quando é possível os resultados são ótimos”, comemora o médico.

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