Consumidor sofre com plano de saúde de má qualidade

Consumidor sofre com plano de saúde de má qualidade

Atualizado: Segunda-feira, 28 Junho de 2010 as 7:34

Longas esperas por atendimento médico, dificuldade para agendar consultas, recusa para fazer exames complexos ou obter remédios caros. Essas são algumas das queixas de clientes insatisfeitos com planos de saúde aos órgãos de defesa do consumidor.

No ano passado, a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) recebeu 12,7 mil denúncias de infrações cometidas pelas operadoras privadas.

Para comprovar o descontentamento com o serviço, pelo décimo ano consecutivo, as operadoras de seguro de saúde figuram no topo da lista de reclamações feitas ao Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor).

Juntos, os Procons de 24 estados brasileiros contabilizaram 1.162 queixas contra as operadoras, que deixaram o setor na quinta posição entre os que mais receberam reclamações no Sindec (Sistema Nacional de Informação de Defesa do Consumidor), do Ministério da Justiça.

Para a assistente de direção do Procon-SP, Selma do Amaral, estes números são apenas um indício da situação.

- A situação é pior do que registramos. Há pesquisas que indicam que apenas 0,5% dos consumidores insatisfeitos reclamam dos problemas com os planos.

Diante da afirmação, a reportagem visitou hospitais particulares de São Paulo e de Brasília e, em todos eles, encontrou gente alegando algum tipo de dificuldade para ter acesso ao serviço pelo qual pagam. Para Selma, o convênio, às vezes, se transforma em uma dor de cabeça para o usuário.

- Os planos particulares não são a solução para todos os problemas. Há casos em que o cliente teve que recorrer à Justiça para conseguir ser atendido, mesmo estando quite com todas as suas obrigações.

A própria presidente da Unidas (União Nacional das Instituições de Autogestão em Saúde), Iolanda Ramos, admite a existência de problemas, mas defende que não se pode atribuí-los ao sistema como um todo.

- O mercado de saúde tem planos e planos. O que o consumidor tem que fazer para evitar aborrecimentos é, antes de assinar um contrato, pesquisar a rede de estabelecimentos conveniados que as empresas oferecem, o padrão dos profissionais, os órgãos de defesa do consumidor. É preciso entender que não existem milagres e evitar comprar gato por lebre. Óbvio que um plano familiar por R$ 50/mês não vai ter qualidade.

Para o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo, Cid Carvalhaes, a questão não é essa. Apesar de reconhecer a importância do sistema de saúde suplementar, que ajuda a desafogar o atendimento nos hospitais públicos, Carvalhaes aponta a busca por maiores lucros como uma das causas do mau atendimento.

Além disso, ele sugere que a ANS não cumpre o papel de fiscalizar as operadoras e defende a primazia do sistema público sobre o particular.

- A importância dos planos privados é inegável e ninguém pretende que eles desapareçam, mas é preciso que cumpram uma função social mais relevante. As operadoras de saúde suplementar perseguem o lucro fácil, demonstrando enorme oportunismo e ganância. Há várias operadoras cujo atendimento é péssimo. Falta um monte de coisas nos hospitais, ambulatórios e prontos-socorros e toda a responsabilidade acaba recaindo sobre os médicos.

Somados os clientes dos convênios de assistência médica e odontológica, o número de usuários de planos particulares ultrapassa 56 milhões de pessoas. Isso significa que um em cada quatro brasileiros paga pelo acesso à saúde que, segundo a Constituição, deveria ser garantido pelo Estado.

De acordo com dados da ANS, o número de usuários cresceu acima dos 5% ao ano entre 2005 e 2008. Em 2009, a taxa foi de 4,9%.

A distribuição dos usuários, contudo, reflete as discrepâncias econômicas regionais. Quase 80% dos clientes estão concentrados no Sul e no Sudeste, sobretudo nos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.

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