Consumir álcool aumenta os riscos de câncer de mama

Consumir álcool aumenta os riscos de câncer de mama

Atualizado: Segunda-feira, 1 Novembro de 2010 as 8:58

O consumo de álcool tem sido associado ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer como na cavidade oral, faringe, laringe e esôfago. Tais riscos geralmente tendem a aumentar conforme a quantidade de álcool ingerida; porém não foi estabelecido um limite seguro para o consumo de álcool. Por outro lado, apenas o consumo pesado de álcool parece estar relacionado a um aumento no risco de câncer de fígado por um mecanismo associado à cirrose hepática.

Nos últimos 20 anos, pesquisas também têm abordado a relação entre o consumo de álcool e o risco de desenvolver câncer de mama. Na França, no ano de 2000, 9,4% dos casos de câncer de mama foram atribuídos ao consumo de álcool. Já no ano de 2002, na Europa, a porcentagem dos casos de câncer de mama atribuíveis ao consumo de álcool foi estimada em 7,7% (28.300 casos).

Devido à relevância desses dados, um artigo recente descreveu os principais aspectos dessa relação, revisando a literatura científica. Para comparar os diferentes estudos publicados nesta área, os autores deste artigo consideraram uma dose (um copo de cerveja, um copo padrão de vinho, ou uma dose de bebida destilada) como sendo equivalente a 10 gramas de álcool.

Um dos primeiros estudos a apontar a importante associação entre álcool e câncer de mama foi o Nurses Health Study, realizado entre 1980 e 1984, nos Estados Unidos. A amostra era composta inicialmente por 89.538 enfermeiras entre 34 e 59 anos de idade, sendo identificados 601 casos de câncer de mama ao longo do estudo.

Em comparação ao grupo abstêmio- aquele que bebia menos de cinco gramas de álcool por dia-, as mulheres que consumiam diariamente de cinco a 14 gramas de álcool* apresentaram aumento de 30% no risco de desenvolver câncer de mama, enquanto que aquelas cujo consumo diário era de 15 gramas ou mais apresentaram aumento ainda maior deste risco, de 60%.

Desde a publicação deste estudo, surgiram diversos relatos da associação entre álcool e câncer de mama. Por exemplo, em uma meta-análise com dados de seis estudos do tipo caso-controle, observou-se que o consumo menor ou igual a 40 gramas de álcool estava relacionado a um aumento de quase 70% no risco de desenvolver câncer de mama, em comparação ao grupo que não consumia álcool.

Em paralelo, a análise conjunta de alguns estudos (total de 4.035 casos de câncer de mama, com amostra inicial de 322.647 mulheres) sugeriu que o risco de desenvolver câncer de mama estaria proporcionalmente associado à quantidade de álcool consumida.

Demonstrou-se uma tendência entre o aumento no risco de desenvolver câncer de mama e maior consumo de álcool, sendo observados aumentos de 32% para o consumo de 35 a 44 gramas de álcool por dia, e de 46% para o consumo maior ou igual a 45 gramas de álcool por dia, em comparação aos abstêmios. No entanto, não foram observadas diferenças no risco de acordo com os tipos de bebida alcoólica consumida (vinho, cerveja ou destilados).

Mais recentemente, nos Estados Unidos e Reino Unido, foram realizados estudos relevantes com amostras representativas. Esses estudos fortaleceram a hipótese de que mesmo o consumo moderado de álcool poderia aumentar significativamente o risco de câncer de mama. Além disso, em uma análise combinada de 53 estudos epidemiológicos (com 58.515 casos de câncer de mama e 95.067 controles), verificou-se que haveria um aumento de 7,1% no risco de desenvolver câncer de mama para cada aumento de 10 gramas no consumo diário de álcool.

Em resposta a tantos estudos nessa área, em 2003, o Código Europeu Contra o Câncer passou a recomendar que o consumo diário de álcool se limitasse a duas doses para homens, e uma dose para mulheres (20 e 10 gramas de álcool por dia, respectivamente).

Já em 2007, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer concluiu que havia provas suficientes de que o consumo de 18 gramas de álcool diariamente aumenta significativamente o risco de desenvolver câncer de mama, e que o consumo maior ou igual a 50 gramas de álcool por dia aumenta tal risco em cerca de 50%.

Em geral, há evidências consistentes de que mesmo o consumo moderado de álcool aumenta o risco de câncer de mama. A maior parte dos estudos confirma cada vez mais que, quanto maior o consumo de álcool, maior é o risco de desenvolver esse tipo de câncer. No entanto, não foram observadas diferenças neste risco com relação aos tipos de bebida alcoólica.

O mecanismo de ação pelo qual o consumo de álcool aumenta o risco de câncer de mama ainda permanece desconhecido, mas atualmente há evidências de que o álcool influencia as vias de sinalização do estrógeno, hormônio fortemente associado ao câncer de mama.

*1 dose de bebida alcoólica contém de oito a 13 gramas de etanol e equivale a 285 ml de cerveja, 120 ml de vinho e 30 ml de destilado (whisky, vodka ou pinga), de acordo com a Organização Mundial da Saúde.

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