Contra tirania da magreza, gordos lutam para ser respeitados

Contra tirania da magreza, gordos lutam para ser respeitados

Atualizado: Quarta-feira, 30 Março de 2011 as 9:43

A vendedora nem diz bom dia e já avisa que naquela loja não tem roupa para o seu tamanho. Na seleção de emprego, o entrevistador diz que seu currículo é ótimo, mas que você não se encaixa no "perfil" da empresa.

Na escola, seu nome próprio foi substituído por "baleia assassina", e parece que ninguém se importa com isso. Se as agressões verbais passam à ameaça física, não se esperam reações. Até que, um belo dia, você revida. Foi o que fez o adolescente australiano Casey Heynes, o mais recente fenômeno da internet. O vídeo mostrando a tentativa de bullying e a inesperada reação do garoto tornou-se viral.   Heynes, 16, passou a vida escolar sendo humilhado por causa de seu peso. No último ataque, um garoto muito menor, cercado e estimulado por colegas, começou a socá-lo. Pela primeira vez, Heynes reagiu e, num golpe digno de videogame, levantou o agressor e o jogou no chão.

Ele se tornou um herói porque deu um basta à discriminação que a maioria dos gordos sofre calada. "Eu me senti vingado" foi o comentário mais postado pelo exército de fãs formado logo depois de o vídeo ser divulgado.

Se o tipo de reação de Heynes foi um caso isolado, as iniciativas para acabar com o preconceito contra os gordos não são. E não é exagero falar em preconceito --ou discriminar alguém por uma característica física é o quê?   "O Brasil tem tradição de preconceito velado. Com o gordo, justificam falando que estão preocupados com a saúde, mas 'pera' lá: gordura não é sinônimo de doença", dispara o educador Lucio Luiz, 32, da equipe do site Papo de Gordo (http://papodegordo.mtv.uol.com.br ).

Para provar que dá para ser gordo e saudável ao mesmo tempo, a equipe do site promoveu, em janeiro, uma caminhada com comilança pelas ruas de São Paulo.   REDES SOCIAIS

É nas redes sociais que obesos, gorduchos e simpatizantes começam a se mobilizar para afirmar o orgulho gordo. Aviso: não é apologia da obesidade.

"Nos blogs, há muita coisa voltada para a autoestima, mas também tentamos mostrar que ser gordo não é sinal de ser relaxado ou doente", diz Dionisio Sanabio, 38, militar e blogueiro.

Dionisio é da equipe do blog Gordinhas Maravilhosas (http://gmaravilhosas.blogspot.com ). Foi ele que incentivou sua mulher, Gisele Oliveira, 37, a criar o blog.

Ele conta que sempre foi "redondinho", mas nunca teve problemas com isso, ao contrário de Gisele.

Para mulheres, a barra é mais pesada. Em uma enquete do Gordinhas Maravilhosas sobre quem sofria mais preconceito, 56% disseram ser a mulher, 5%, os homens, e 35%, os dois.

"O gordo que sai com uma mulher magra é 'o cara'. Magro que sai com gordinha é otário", ironiza a gerente de hotel Barbara Aguiar, 34.

Barbara, que conta estar 10 kg acima de seu peso normal por causa de um problema na tireoide, resolveu criar a campanha "beleza não tem tamanho" para ajudar mulheres acima do peso a se sentirem lindas e se vestirem com roupas legais.

Falar de moda é pisar no calo da mulher que está fora do padrão. Padrão de quem mesmo? Vez por outra alguém reclama do visual anoréxico das modelos, mas o ideal de magreza continua imperando.

"Quase metade da população está acima do peso, mas entra no shopping e não encontra roupas do seu tamanho", diz a consultora de marketing e produtora de moda Renata Poskus Vaz.   Com 1,70m e 83 kg, Renata é a criadora do blog Mulherão (http://mulherao.wordpress.com ) e do Fashion Weekend Plus Size.

Ela conta que o primeiro desfile, em 2010, não foi levado muito a sério. "Eram 40 modelos e 500 pessoas na plateia, mas não foi nenhum jornalista de moda. A cobertura foi mais com um olhar para o 'evento bizarro'."

Renata caprichou mais nos detalhes para os desfiles seguintes. No último, realizado em fevereiro, já se sentiu consagrada. Além de vários editores de moda na plateia, muitas de suas modelos GG foram chamadas para editoriais e campanhas.

Nos EUA, já existe um bom mercado para modelos tamanho grande. Claro, há muita consumidora usando roupa número 46 ou mais.

Elas ainda não sensibilizaram alguns donos de grifes brasileiras. Uma história que circula tanto na rede de gordos quanto no mundo fashion é de um estilista que mandou diminuir a modelagem de suas roupas com o argumento: "Não quero minha etiqueta em bunda gorda".

Mas Renata alerta que há um boom de mulheres gordas querendo ser modelos, e a solução não é por aí.

Para a gerente de RH Milly Costa, 27, autoconfiança é bom, mas é preciso ir além.

ABAIXO-ASSINADO

Revoltada com a quantidade de mensagens ofensivas na rede, Milly criou um abaixo-assinado contra crimes virtuais e pelo direito de ser gordo (www.peticaopublica.com.br/?pi=gordo ).

Ela diz que está difícil conseguir assinaturas. "As pessoas não têm coragem de dar a cara, o nome e o RG. Parece que gordo não tem vontade de incomodar, nem para defender seus direitos."

A psicóloga Rafaela Zorzanelli, co-autora de   "Corpo em Evidência - A ciência e a redefinição do humano" , lembra que muita gente nem imagina que o gordo tem seus direitos desrespeitados.

"Hoje, há um braço dos movimentos pelos direitos civis, iniciados nos anos 60, composto por minorias com alguma característica orgânica, como obesidade, autismo etc. Os gordos querem confrontar essa ideia meio tirânica de que estariam necessariamente melhor se fossem magros."

O gordo assumido Lucio Luiz afirma que é preciso até lembrar que o gordo vive os problemas e alegrias da vida como todo mundo. "O que que há demais nisso? Não sei, mas tem gente que se incomoda."

Ele dá um exemplo: quando estreou o seriado "Mike & Molly" (Warner), comédia romântica sobre um casal que se conhece em uma reunião de comedores compulsivos, uma jornalista escreveu no site da revista "Marie Claire" americana que tinha nojo de ver dois gordos se beijando.

A revista e a jornalista tiveram que pedir desculpas pelo artigo. O seriado continua sendo um sucesso.  

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