Cresce número de jovens que recebem tratamento psicológico

Cresce número de jovens que recebem tratamento psicológico

Atualizado: Terça-feira, 30 Março de 2010 as 12

O velho Gus estava sentado em seu costumeiro banco de bar, no canto, engolindo o uísque e lançando farpas. "Posso lhe dizer uma coisa", ele anunciou, como eu bem me lembro. "Na minha época, não tinha isso de crianças indo para psiquiatras, tagarelando sobre seus sentimentos, dopados de remédios".

"Na minha época, crianças eram crianças! Resolvíamos nossos problemas sozinhos. Não íamos chorar para um estranho com um monte de iniciais de títulos antes do nome".

Gus ridicularizava a conversa que eu levava com uma colega terapeuta sobre um adolescente de 13 anos que ela estava tratando de depressão e ansiedade aguda. Eu não mordi a isca de Gus. Não que eu não tivesse interesse em defender minha profissão. Em vez disso, assim como os rapazes universitários do outro lado do bar que se lamentavam por mais um colapso épico do seu adorado time, os Jets (isso foi antes de o time se recuperar), o motivo era que eu já tinha ouvido a reclamação tantas vezes que já estava cansado.

Não que Gus estivesse totalmente errado. Mais americanos do que nunca recebem tratamento - psicoterapia, medicamentos ou ambos - para transtornos psicológicos, e o número está crescendo acentuadamente.

Mas quando penso sobre como era a vida na minha época (estou na casa dos 50 e Gus provavelmente é 20 anos mais velho), não acho que essa seja uma tendência ruim.

Uma das minhas memórias de infância mais vívidas e menos alegres é o quanto eu me sentia desmotivado quando me dei conta de que a maioria dos meus colegas podia sentar durante uma hora e fazer toda a lição de casa sem se inquietar, sair da cadeira, perambular ou sucumbir às distrações do quarto.

O ambiente não era o fator determinante; eu achava difícil sentar quieto e me concentrar na sala de aula, grudado à minha cadeira, com uma tarefa bem diante de mim e o professor me rodeando. Nunca foi uma questão de não gostar da lição ou não saber como fazê-la. Para mim, era simplesmente fisicamente impossível ficar parado e focar numa tarefa por mais que alguns minutos de uma vez.

Com isso como parte do meu passado, a primeira vez que li os critérios para o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade - "muitas vezes não consegue prestar atenção a detalhes ou comete erros displicentes nas tarefas da escola... não consegue terminar a lição, tarefas ou deveres", e assim por diante - minha única surpresa foi que eles não incluíram "preferem bonecos do Comandos em Ação ou manusear cards de baseball a lições cívicas e quizzes pop".

Em resumo, eu era uma criança com TDAH, só faltava um diagnóstico. Agora que sei que a condição era resultado da incapacidade inerente do meu corpo de gerenciar o fluxo de químicos neurotransmmissores, como dopamina e serotonina, todas as irritadas súplicas dos meus pais para "trabalhar duro" e "prestar atenção ao que está na sua frente" eram tão úteis quanto mandar uma criança com miopia enxergar bem sem óculos.

Quando cresci e virei adulto, fiquei com uma série de questões não resolvidas, mas concêntricas: Será que o medicamento poderia ter me ajudado a me concentrar nas tarefas escolares? Se afirmativo, será que eu teria sido um aluno mais aplicado? E se eu tivesse sido um aluno mais aplicado, será que eu teria desenvolvido uma paixão pela leitura e pelo aprendizado? E se eu tivesse desenvolvido essa paixão, será que eu teria sido um ser humano mais feliz, melhor, mais produtivo? E se, e se... Nunca vou saber.

Embora minha própria vida seja perseguida pela possibilidade de possibilidade não preenchida - o que poderia ter acontecido se eu tivesse sido tratado -, o que realmente me assombra é a memória de tragédia total nas vidas de alguns dos meus amigos de infância.

Penso numa menina bonita, mas eternamente mal-humorada, chamada Maureen. Seu corpo tinha cicatrizes causadas por uma mãe abusiva. Ou um garoto alto e magro chamado de Dave, um superatleta com aparência de astro de cinema que chocou ao colocar uma arma na cabeça e tirar sua vida.

A suas histórias terríveis, eu acrescentaria as inúmeras histórias do cotidiano de crianças aparentemente normais e comuns que aguentam irmãos autoritários ou colegas de classe intimidadores, que não foram incluídas no segredo, convidadas para o baile de formatura ou escolhidas para o time de vôlei, cujo pai um dia acordou e simplesmente abandonou a família porque obteve uma proposta melhor de outra mulher. Essas crianças que simplesmente não poderiam resolver seus problemas sozinhas (Gus novamente). Quem sabe o quanto suas vidas seriam mais suportáveis se elas tivessem recebido a intervenção adequada?

Só foi muito mais tarde que comecei a apreciar as várias formas traiçoeiras nas quais o bem-estar psicológico pode ser alterado por coisas que estão fora do comando da criança.

A maioria das crianças exerce pouquíssimo poder sobre as decisões que afetam suas vidas. Elas não decidem quem são seus pais, onde a família vive, que escola frequentarão, quando atingirão a puberdade, quem irá ou não protegê-la. Elas têm um controle bastante limitado sobre suas habilidades atléticas, sua aparência, sua inteligência, ou se, na grande selva que é o parque da escola, elas serão predadores ou presas.

Em momentos difíceis, os esclarecimentos a serem adquiridos a partir de um profissional que lida com tido isso de forma séria (e, em alguns casos, os medicamentos que podem trazer calma ao caos) são extremamente úteis para uma criança que está buscando um caminho através de alguns anos bastante difíceis.

É claro, sempre vai haver críticas. "Olhe para mim", declamou Gus, à medida que minha amiga e eu perdíamos o ritmo da conversa.

"Meu velho era um bêbado e eu não fiquei tão mal", ele nos disse, orgulhoso, mal conseguindo articular as palavras.

* Erik Kolbell é psicoterapeuta em Nova York e autor do livro de ensaios "The God of Second Chances".

Postado por: Felipe Pinheiro

Via: Guia-me

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