Desinformação sobre gripe sobrecarrega trabalho nos PSs, dizem médicos

Desinformação sobre gripe sobrecarrega trabalho nos PSs, dizem médicos

Atualizado: Quinta-feira, 6 Agosto de 2009 as 12

A desinformação e o medo da nova gripe estão gerando excesso de pacientes, prejudicando o atendimento e comprometendo o trabalho dos médicos nos setores de emergência dos hospitais, segundo avaliação dos profissionais.

A reportagem do G1 visitou nesta quarta, 5 de agosto, três hospitais de São Paulo e conversou com pacientes que confirmaram que, na dúvida sobre os sintomas, preferem ir ao pronto-socorro.

Os especialistas dizem, porém, que a atitude pode ser prejudicial não só por gerar filas, mas porque pode contaminar o próprio paciente: pessoas sem o vírus podem contrair o vírus da nova gripe ao entrar em contato com outras realmente doentes.

Segundo David Uip, diretor do hospital Emílio Ribas, de São Paulo, cerca de 80% das pessoas atendidas no pronto-socorro não precisavam ter ido ao local. "Atendemos em média 260 pessoas por dia, e a enorme maioria é enviada de volta para casa e não precisava ter ido ao hospital", afirmou.

O presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo, Cid Carvalhais, faz relato semelhante. "Temos feito cerca de quatro atendimentos desnecessários para cada um que é realmente necessário", afirma.

O resultado é mais filas nos pronto-socorros e mais médicos desgastados. "A equipe está sobrecarregada. Cada minuto que um médico gasta com uma pessoa que está apenas assustada é um minuto que ele poderia estar atendendo alguém doente de verdade", afirma Carvalhais.

Preocupação

A auxiliar de portaria Eliana Azevedo de Sá, de 26 anos, levou o bebê de quatro meses ao pronto-socorro em São Paulo. Ela disse ter ficado preocupada com a nova gripe porque ele estava com muita tosse.

"O médico disse para eu ficar tranquila porque era uma gripe normal. Ele reclamou que eu trouxe, disse que não precisava. Mas como eu vou saber? O nariz escorre toda hora. E se tiver uma coisa pior? Vim mesmo para descartar a possibilidade de ser gripe suína."

Ela afirmou que ao chegar no hospital cobriu o rosto do bebê com uma fralda de pano. "Tinha gente tossindo para todo lado. Assim que o médico atendeu, eu saí do hospital. Achei melhor esperar meu marido na calçada e evitar ficar naquele ambiente."

Mãe de uma menina de cinco anos, a empregada doméstica Jaqueline Pereira dos Santos, de 21 anos, também foi alertada pelo médico que não precisava ter ido ao hospital.

"Ela está com muita dor de garganta. O médico disse que não é nada, que não tinha necessidade de trazer e que só é para voltar ao pronto socorro se tiver febre e dor no corpo."

A também empregada doméstica Ana Paula Santos, de 36 anos, foi ao pronto-socorro um dia depois de já ter ido ao médico.

"Estou com gripe forte, febre e falta de ar. Eu tinha ido ontem a um médico que nem pediu raio-x nem nada, mandou voltar para casa e esperar dois dias antes de voltar. Eu não preguei o olho a noite inteira. Daí, fui de novo a outro hospital."

Ana Paula afirmou que o segundo médico pediu exame e receitou tratamento em casa com antibiótico. "Não mandou fazer teste nem nada. É muito difícil para mim. Não dá para calcular, eu não sei como lidar com isso, porque trabalho em casa de família e tem crianças lá."

A empregada disse que mesmo agora, já medicada, não está tranquila. "Acho que os médicos não estão preparados. Está uma situação precária e a gente tem medo."

Sem gripe no hospital

A corretora Selma Alves de Oliveira foi ao pronto-socorro por conta de uma dor que ela acredita ser cálculo renal. Antes de passar no médico, disse que ficou ao lado de pessoas tossindo e com máscaras.

"Eu tenho preocupação, mas vou fazer o quê? Não posso deixar de ir ao hospital se estou com dor por medo de pegar."

Dona de casa, Maria José Adão foi ao hospital para um exame de rotina e disse ter ficado impressionada ao passar pelo setor de emergência.

"Achei um exagero de gente, uns tossindo sem máscara, outros sem tossir de máscara. Acho que o povo está mal informado, mas porque quer, porque tem informação para todo lado. Não tem tosse e não tem febre, se vai para o PS é pedir para ficar doente."

Especialistas

David Uip recomenda que as pessoas que suspeitam que estão doentes procurem os postos de saúde ou um médico pessoal.

"É fundamental descentralizar o atendimento no momento. No hospital de referência, só devem estar pessoas encaminhadas por outros médicos", explica.

Além de atrapalhar o atendimento, a ida desnecessária ao hospital também é um risco para o paciente, segundo o professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Paulo Olzon.

Pessoas sem o vírus podem ser contaminadas e pessoas já infectadas podem agravar seu caso. "É arriscado ir primeiro para o hospital porque a pessoa pode não estar com o vírus e daí ser contaminada ali, onde há muitos doentes", afirma Olzon.

O infectologista Marcos Boulos, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que não há “nenhum motivo para pânico na população".

"Os casos de morte são excepcionais. O número é muito, muito pequeno. A enorme maioria dos pacientes se recupera e passa bem", afirma.

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