Disfunções na tireoide alteram metabolismo

Disfunções na tireoide alteram metabolismo

Atualizado: Quinta-feira, 8 Setembro de 2011 as 11:29

O comando de funções vitais do corpo humano está numa glândula situada na base do pescoço, comparada pelo médico endocrinologista Luciano Giacaglia a uma usina hidrelétrica responsável pela geração da energia do nosso organismo.

A tireoide produz os hormônios T3 e T4, reconhecidos pelos receptores das células que regulam o batimento cardíaco, a transmissão elétrica dos neurônios, a produção de hormônios sexuais e de crescimento, dentre outros. A tireoide é controlada por outra glândula, a hipófise, localizada no encéfalo e produtora do hormônio TSH. Por esse motivo a alteração da taxa do TSH, que normalmente varia entre 0,5 e 4,5, indica alguma disfunção na tireoide.

O alto nível de TSH detectado por exame de sangue confirma aquilo que o cansaço, ganho de peso, pele seca e intolerância ao frio já sinalizam. O metabolismo preguiçoso é fruto da baixa do ritmo da tireoide, que acaba estimulando o trabalho da hipófise e configurando o quadro de hipotireoidismo.

Giacaglia explica que uma das raízes do hipotireoidismo é a doença de Hashimoto, doença autoimune que faz o organismo produzir anticorpos contra ele mesmo. Rogério Dedivitis, cirurgião de cabeça e pescoço, aquele que faz a cirurgia da tireoide, aponta que essa disfunção é mais comum no sexo feminino, numa proporção de cinco a oito mulheres para um homem. "Mulheres descobrem o distúrbio por acaso por conta da preocupação com o ganho de peso", comenta. Ainda não existe um motivo comprovado para a predominância, porém ele diz que se suspeita de que o hormônio feminino estrógeno tenha influência.

Giacaglia afirma que o aumento do peso é de no máximo quatro quilos e é explicado pela retenção de líquido advinda da deficiência do rim. Sonolência, constipação, anemia, perda de apetite e discreta depressão também caracterizam a doença.

De acordo com Giacaglia, hormônios produzidos pela tireoide são constituídos de uma proteína ligada a três moléculas de iodo, logo a deficiência ou excesso da substância também pode originar o hipotireoidismo. O iodo está na maioria dos corantes alimentares presentes em refrigerantes e enlatados, por isso o médico recomenda evitar o consumo desses alimentos.

Salvos os 5% dos casos de Hashimoto que podem ser revertidos, o hipotireoidismo é uma doença crônica e definitiva. O tratamento é garantido pela reposição hormonal baseada na ingestão ininterrupta de um comprimido diário em jejum, no mínimo quarenta minutos antes do café da manhã.

O excesso de trabalho da tireoide define uma doença menos comum com sintomas inversos, o hipertireoidismo. Giacaglia dá três razões para o aparecimento da disfunção. Uma é a doença de Graves, que também é autoimune e faz com que a glândula seja estimulada. Segundo ele, geralmente com o tempo esse estímulo é retardado, virando hipotireoidismo.

Outra causa da produção excessiva da tireoide é o bócio multinodular tóxico, que resulta na proliferação de nódulos na glândula e na produção autônoma de hormônios. A terceira causa é o adenoma de tireoide, formador de um nódulo com mais de quatro centímetros visível a olho nu. Além dos altos índices de hormônios tireoidanos, o ultrassom é uma forma de diagnosticar a doença, caso seja do tipo nodular.

O endocrinologista comenta que algumas clínicas que fazem tratamentos para emagrecer oferecem injeções do hormônio T3, que também podem provocar o hipertireoidismo.

O metabolismo acelerado pode gerar ansiedade, insônia, perda de peso, apetite voraz, tremor e suor nas mãos, intolerância ao calor, arritmia e transtornos de humor. O tratamento consiste em medicamentos antitireoidanos associados a calmantes e drogas para diminuir a frequência cardíaca. No caso da doença de Graves, Giacaglia costuma manter os remédios e aguardar a transição para o hipotireoidismo, que será tratado com reposição hormonal.

Quando o hipertiroidismo é grave, a solução definitiva é a remoção da glândula com iodo ou com a cirurgia chamada tireoidectomia. Na primeira opção, o elemento químico é usado para destruir o núcleo celular da tireoide. Quanto à cirurgia, ainda há divergência na escolha entre a parcial e a total, mas segundo o endocrinologista a retirada integral tem sido a opção mais frequente.

Rogério Dedivitis, cirurgião de cabeça e pescoço, aborda outros fatores que tornam necessária a cirurgia da tireoide, como o câncer ou suspeita indicados pela biópsia do nódulo. Em 80 a 90% dos casos é o carcinoma papilífero, um tipo de câncer facilmente curável.

Outra indicação é o crescimento demasiado da tireoide que forma nódulos compressivos e traz dificuldade para respirar e engolir, além do risco de deslocar para estruturas vizinhas como vasos e traqueia. Hoje é possível fazer a tireoidectomia videoassistida, técnica minimamente invasiva com menor tempo cirúrgico, menor cicatriz e menos dor. Sem a glândula, o paciente precisa de reposição com hormônios sintéticos.

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