Ele faz retrato falado de bandido e acupuntura nas vítimas

Ele faz retrato falado de bandido e acupuntura nas vítimas

Atualizado: Terça-feira, 8 Novembro de 2011 as 9:35

A mesma mão que foi responsável por definir os traços do Maníaco do Parque e auxiliar na captura do estuprador em série, em 1998, também teria a capacidade de ativar os pontos energéticos das vítimas do criminoso para tentar ajudá-las a superar o trauma.

O lápis mal apontado e agulhas finas e descartáveis são instrumentos de trabalho de Yoshiharu Kawasaki, 46 anos. Ele, nas horas cheias, é investigador da polícia de São Paulo e responsável por fazer os retratos falados, sem auxílio da tecnologia, de assaltantes, estelionatários e sequestradores. Depois do expediente, Yoshi (como se apresenta) é acupunturista profissional e tem como clientes principais os nervos à flor da pele dos assaltados, sequestrados, ludibriados e violentados.

As duas carreiras que atendem a personagens da violência urbana brasileira (acrescente à lista que recebem as agulhadas de Yoshi os delegados, escrivães e policiais) foram trilhadas por acaso.

“Na polícia paulista e na acupuntura, comecei sem querer. O que era hobby virou profissão”, define ele em sua sala no Departamento de Investigação sobre o Crime Organizado (Deic) de São Paulo, que tem um computador empoeirado quase que como enfeite.

“Não gosto muito dos programas de informática para desenhar. Trabalho à moda antiga”, brinca.

No dia em que recebeu a reportagem do iG Saúde, nem bem tinha terminado o desenho de um suposto estelionatário, quando entrou pela porta uma delegada com outra missão.

“O dia tá tenso Yoshi. Só B.O (boletim de ocorrência) complicado. Não tem como fazer uma sessão em mim, não?”, questionou a mulher, fazendo olhos de súplica em direção ao estojo “zen”, guardado na terceira gaveta do gabinete.

“Claro. Mas eu preciso buscar as crianças na escola, depois levar o carro para a inspeção veicular e arrumar o jantar dos meninos. Passo aqui depois das 20h, pode ser?”, respondeu já recebendo um “sim” aliviado da colega.

Yoshi, além de investigador de polícia e acupunturista, também tem outras funções no currículo. É pai solteiro de três filhos, um de 16, outro de 14 e a caçula de 8 anos. E na já agenda apertada, arrumou tempo para fazer faculdade de arquitetura (está no quarto ano) e trabalho voluntário. Tudo sem estresse, palavra que detesta até pronunciar.

“Equilíbrio é minha meta, já quando acordo.”

Os dois começos

O jovem de classe média da Freguesia do Ó, bairro da zona norte paulistana, terminava o curso de técnico em eletrônica e andava de ônibus e metrô pela cidade sempre acompanhado de seu bloco e lápis.

“Nasci desenhando, sempre foi uma paixão. O que eu mais gostava era observar as pessoas no transporte público, focar em suas feições, fazer os retratos delas e, antes de saltar no ponto de destino, entregar a figura para o meu alvo”, lembra Yoshi.

“Crianças, jovens, casais, idosos. Eles nem sabiam que estavam sendo observados, mas sempre retribuíam com um sorriso os meus desenhos.”

Em 1990, estirado no sofá após um dia de trabalho, o ilustrador amador teve o descanso interrompido por um pedido inusitado e desafiador de uma vizinha. “A mãe estava aflita. Sua filha mais nova, que tinha na época uns 18 anos, havia sido violentada no caminho de volta da escola”, lembra.

Ninguém tinha visto o estuprador, a polícia precisava de uma pista para buscá-la e a facilidade de Yoshi para traçar rostos de desconhecidos foi lembrada por aquela família.

“Ela pediu para eu escutar a história da filha e tentar desenhar o criminoso.”

O relato da violência foi escutado com atenção e transformado em retrato pelo velho lápis de Yoshi.

“Levamos ao Distrito Policial mais próximo aquela folha de papel e uma semana depois o cara foi pego.”

Uma semana depois também, Yoshi passou a trabalhar como ilustrador voluntário nas delegacias de polícia, sempre ouvindo com toda cautela o depoimento das vítimas dos mais variados tipos de crime.

“Um ano depois, abriu um concurso para investigador da polícia. Prestei a prova, foi aprovado e virei um retratista profissional.”

A maior dificuldade, que ainda persiste mesmo após tantos anos de experiência, é transformar em figura humana os monstros descritos pelas quase seis mil pessoas que já sentaram em frente a Yoshi para descrever seus algozes.

“E depois de um certo tempo desenhando diariamente, me dei conta que não é só a boca o único instrumento que fala sobre um crime vivido. Os olhos também indicam se os traços estão corretos, as mãos mais calmas ou agitadas dão os seus sinais. A postura, os ombros, o corpo todo”, ensina.

Nesta época, os dedos de Yoshi já eram convocados para apertar os pontos tensionados nas costas dos mais próximos, já que o seu talento para o desenho era apreciado como a sua capacidade de fazer massagens relaxantes.

Ao perceber as mensagens corporais dadas pelas vítimas que o ajudavam a fazer os retratos falados – e da feição de satisfação dos colegas após receberem a massagem – o investigador da polícia foi pesquisar sobre uma técnica que parecia explicar toda aquela linguagem do corpo.

“Fiz matrícula em um curso de acupuntura, ganhei o meu diploma e, mais uma vez, o que era só um hobby tornou-se um complemento de renda bem importante.”

Foi nas agulhadas que Yoshi descobriu um facilitador de sua profissão na polícia. A orelha, sim a orelha, também poderia contar com detalhes a história de um crime.

Autoaplicação

Os olhos são importantes, a fala também, mas uma olhada de rabo de olho na orelha da vítima, acredita Yoshi, também é reveladora. “Mostra os pontos que estão mais comprometidos, qual é o momento certo da pessoa falar, como eu devo fazer certas perguntas ou até receber algumas respostas”, acredita.

Por meio das técnicas difundidas pela acupuntura, uma terapêutica que já ganhou espaço nos consultórios particulares e também no Sistema Único de Saúde (SUS), a orelha funciona como uma importante área de diagnóstico, reveladora não apenas da ansiedade, estresse, medo e pânico, como sinais físicos, pressão desregulada, colesterol alto e dores crônicas.

Yoshi aprendeu tudo isso e é diplomado na técnica há oito anos. “O meu serviço de acupuntura é abastecido pelo boca a boca. Mas acaba ficando mais centrado neste meio policial que, afinal, é o meu meio”, diz.

“Para as vítimas, eu não ofereço o trabalho com as agulhas. Mas sempre que esbarro com alguém muito desequilibrado, traumatizado, acabo pedindo licença, digo que sou formado, e se a pessoa autoriza, aciono os pontos da orelha mais comprometidos durante o depoimento". "De graça”, reforça.

Os clientes pagantes por sua terapia ainda não são tão numerosos como os suspeitos desenhados por Yoshi. Mas ele usa sua experiência pessoal para reforçar que os resultados são bons.

Vítima de três tiros em 2002, enquanto investigava um sequestro – ele passou dias no hospital–, Yoshi foi atingido por balas na região do quadril e uma sequela: uma desconfiança insistente para ir e vir. Nestes tempos, foi submetido ao tratamento com acupuntura voltou a ter equilíbrio emocional recuperado. Hoje, o investigador tenta não se desequilibrar novalmente, especialmente quando precisa dar formas para personagens do calibre do Maníaco do Parque. E enquanto corre para desenhar, atender clientes, cuidar dos filhos e fazer os trabalhos da faculdade, sempre encontra um tempinho para fazer uma autoaplicação em seus pontos energéticos da orelha, para dar conta de tudo.

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