Em entrevista, neurocirurgião conta como dedicou-se ao estudo do sono após sofrer um AVC

Em entrevista, neurocirurgião conta como dedicou-se ao estudo do sono após sofrer um AVC

Atualizado: Quarta-feira, 27 Janeiro de 2010 as 12

Por Adriana Amorim - www.guiame.com.br

Insônia, ronco e sonolência excessiva são queixas comuns de muitas pessoas. Segundo pesquisa* do laboratório farmacêutico Roche, divulgada em maio de 2009, mais da metade dos brasileiros (52,9%) declara ter problemas com o sono (16,3% dormem mal e 36,6% às vezes dormem bem ou mal).

Distúrbios tão frequentes que, em geral, não motivam uma visita ao médico, e além de consequências como irritabilidade e falta de concentração, podem levar a resultados mais graves como hipertensão, depressão, isolamento social ou mesmo à morte.

Em entrevista ao Guia-me, o neurocirurgião Faustino Pacheco Filho conta como surgiu seu interesse em estudar os distúrbios do sono e testemunha o que o motivou a criar o Instituto do Sono de Santos. O médico cita os principais problemas que interferem no repouso principal do dia, fala sobre quantidade e qualidade do sono, explica o exame de polissonografia, e reitera a importância da população estar atenta aos distúrbios.

Guia-me: Como surgiu o interesse de dedicar-se ao estudo do sono? Soube que uma história pessoal o estimulou. Gostaria que nos contasse um pouco a respeito.

Dr. Pacheco: Realmente, o meu interesse por sono surgiu em decorrência do fato de eu ser médico, com especialidade em neurocirurgia e ter sido acometido no ano de 2000 de um AVCH ( acidente vascular cerebral hemorragico AVCH) que me deixou com sequelas, uma hemiplegia à esquerda. Isto me impossibilitou para a cirurgia. A princípio, fiquei muito decepcionado com o fato, deprimido mesmo, e pensava: o que fazer? Tenho três filhos, esposa para sustentar, como vou fazer para dar continuidade a minha vida? Sempre fiu cristão, mas a verdadeira fé só descobri neste momento. Deus não nos desampara! Foi quando pensei: vou trabalhar com os distúrbios do sono, mesmo porque fui vítima de um deles, a Síndrome da Apnéia e Hipopnéia Obstrutiva do Sono. Fui estudar a respeito dos distúrbios do sono e aqui estou trabalhando, e muito, para evitar que como eu outras pessoas possam adoecer.  

Guia-me: Como nasceu o Instituto? O senhor atua ainda como neurologista?

Dr. Pacheco: Atuo como neurologista. Nunca deixei de exercer a neurologia, isto porque para ser um neurocirurgião há necessidade que se saiba neuroclínica. Confesso que não me imaginava trabalhando com sono se não tivesse tido este AVCH. Hoje, vejo que foi a mão de Deus. Ajudo muito mais as pessoas agora com toda certeza.

Guia-me: Como é possível ter um sono de qualidade diante de uma vida moderna, com trabalho desgastante, trânsito, luzes em excesso etc?

Dr. Pacheco: É difícil, mas não impossível. Costumo dizer que a melhor coisa é ter Paz. Não ir para a cama com raiva, mágoas. Devemos nos libertar desses sentimentos, aí ja teremos 80% do caminho andado. O restante, a ciência faz, com medicamento, orientação etc.

Guia-me: É possível definir a quantidade de sono ideal para uma criança, um jovem e um adulto?

Dr. Pacheco: Estudos nos mostram que as crianças necessitam de mais horas de sono que o adulto, isto porque ela está em desenvolvimento, crescimento. Sabemos por exemplo que o hormônio do crescimento é liberado especialmente durante o sono. Mas há um engano por parte das pessoas quando acham que temos que dormir pelo menos oito horas por dia. Isto é um engano. Temos que dormir o tempo que for necessário para que no dia seguinte nos sintamos bem, descansados e dispostos para a jornada diária. Então, existem pessoas que se sentem bem no dia seguinte com apenas seis horas de sono, outras, necessitam de oito a dez horas de sono, e ainda há aqueles que necessitam de doze horas de sono para sentirem-se descansados no dia seguite. São os chamados: curto dormidores, médio dormidores e longos dormidores. Depende muito de pessoa para pessoa a quantidade de horas para dormir. Importante ainda é dizer que qualidade de sono não pode ser confundida com quantidade de sono. Uma pessoa pode dormir por muitas horas e ter uma qualidade de sono péssima.

Guia-me: Quais são os distúrbios do sono que o senhor atende com mais frequência em seu consultório?

Dr. Pacheco: Há muitos distúrbios do sono, mais de cem, mas os mais frequentes são: Sindrome da Apnéia e Hipopnéia Obstritova do Sono (SAHOS), Sonambulismo, Síndrome das Pernas Inquietas (SPI), Insônia, Sonolência excessiva, Narcolepsia, Terror noturno etc.

Guia-me: Quais são os mais graves?

Dr. Pacheco: Considero os mais graves a Síndrome da Apnéia e Hipopnéia Obstrutiva do Sono que se não tratada a médio, longo prazo, pode acarretar problemas cardiovasculares como: AVC, infarto, Hipertensão e outros relacionados. Este distúrbio pode acometer crianças, mulheres e  homens. Deve ser tratado com seriedade, principalmente se tratando de uma criança. A insônia também é bem frequente e deteriora a vida da pessoa, a Síndrome das Pernas Inquietas. Estes distúrbios comprometem muito a qualidade de vida do paciente se não tratados adequadamente e podem comprometer a vida de outras pessoas também.

Guia-me: Como funciona a polissonografia? Para quem ela é indicada?

Dr. Pacheco: A polissonografia é um exame feito geralmente durante a noite, onde as variáveis do sono são monitoradas e registradas como: eletroencefalograma, eletro oculograma, eletrocardiograma, eletromiograma de mente e/ou permas, fluxo aéreo nasal e bucal, microfone para detectar o ronco, oximetria. Este exame também pode ser registrado por vídeo. Com ele podemos detectar como é a noite de sono do paciente, se ele tem algum distúrbio do sono e qual, para que se possa dar a terapêutica indicada para cada caso. É bem comum um mesmo paciente ter mais de um distúrbio do sono.

Guia-me: Em sua opinião, as pessoas dão a devida importância aos distúrbios do sono?

Dr. Pacheco: Este é um assunto novo. As pessoas precisam ser esclarecidas a respeito dos distúrbios do sono e suas consequências. Ainda há muita desinformação a respeito, mesmo no meio médico. Quando as pessoas são esclarecidas a respeito, elas buscam atendimento médico. É muito importante que principalmente os profissionais de saúde saibam detectar quando o paciente é possível portador de um distúrbio do sono e encaminhá-lo para um especialista nesta área.

Guia-me: Quais são as consequências mais graves?

Dr. Pacheco: Depende do tipo distúrbio, mas vai desde irritabilidade, falta de concentração, memória, sonolência diurna excessiva, depressão, hipertensão e outros como: isolamento social. Além disso, outras pessoas do convívio familiar estarão envolvidas com o problema deste paciente - há casos de separação de casais. Não devemos deixar de registrar que muitas vezes tais distúrbios podem levar à morbidade ou mortalidade.

* A pesquisa entrevistou mais de 42 mil pessoas em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Vitória, Recife, Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza e Curitiba.

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