Em luta contra a máquina

Em luta contra a máquina

Atualizado: Sexta-feira, 12 Fevereiro de 2010 as 12

Qualquer pessoa se irrita quando o celular cai na caixa postal, o computador dá pane e o manual de instruções do DVD não resolve o problema. Se essa irritação lhe provoca uma explosão de raiva, você é mais uma vítima de tecnostress. Essa variedade de stress resulta da dificuldade em aceitar as imperfeições da tecnologia ou conviver com ela. "Há uma verdadeira veneração pela máquina, e, quando ela falha, pode haver uma reação além do razoável", adverte a psicóloga Marilda Lipp, do Centro Psicológico de Controle do Stress de São Paulo. "Mas é preciso não esquecer que nem sempre a tecnologia funciona."

Os tecnoestressados típicos são pessoas que, mesmo sem fome nem compromisso posterior, escolhem o prato no restaurante pelo tempo de preparo, não pelo sabor. A maioria das pessoas que sofrem do mal tem mais de 45 anos e é do sexo masculino. "Na prática, as mulheres aceitam mais facilmente que não sabem algo e pedem ajuda", diz Marilda Lipp. Os homens, sobretudo os mais velhos, temem parecer obsoletos quando não sabem mexer em algumas máquinas. Esses costumam procurar os consultórios depois de um ataque explosivo sério - como uma descarga de socos na tela do computador diante da mensagem "Este programa executou uma operação ilegal e será fechado". Há quem jogue o celular pela janela ao notar que não está dando sinal ou quando outro não atende a uma chamada. "Isso é mais comum do que se imagina", afirma o psiquiatra César Romero, dono de uma clínica de psicote-rapia de Salvador.

O tratamento é a terapia ou, em casos extremos, o uso de antidepressivos. No limite, a vítima tem sudorese, náusea, vômito e diarréia, em um quadro diagnosticado como transtorno obsessivo-compulsivo. O terapeuta tenta mostrar ao paciente que a tecnologia anda a passos rápidos e não é possível dominá-la por completo. Toma-se especial cuidado em não criar na pessoa outro sentimento igualmente prejudicial: a tecnofobia – aversão à tecnologia.

Quem tem sintomas mais profundos geralmente sente que está sendo atingido naquilo que mais preza - a produtividade. A pessoa perde muito tempo com e-mails, telefone e bipes. Acha que deve ler e ouvir todos os recados assim que chegam e não cogita a idéia de ignorar o celular tocando. Quando não consegue enviar um e-mail, sai do sério. Assim, interrompe facilmente as tarefas, perde a concentração e demora para concluí-las. Ao fim do dia, produziu pouco e fica mais estressada ainda. Nos Estados Unidos, onde os portadores desse mal são comuns, um casal de psicólogos ganhou notoriedade por estudar o assunto. Larry Rosen e Michelle Weil escreveram o livro TecnoStress - Coping with Technology @Work, @Home, @Play (TecnoStress - Convivendo com a Tecnologia no Trabalho, em Casa e no Lazer). Nele, há boas dicas para lidar com o problema:

evite consultar o correio eletrônico a todo instante. Talvez a freqüência tenha se tornado um vício;

tente não passar o dia todo conectado na internet. A melhor fonte de conhecimento ainda são as pessoas;

faça uma coisa de cada vez. Isso diminui a probabilidade de erro;

cultive o bom humor. Faça uma piada sobre a demora do elevador. Você não pode controlar tudo.

Por Adriana Negreiros

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