Entenda a doença que matou Steve Jobs

Entenda a doença que matou Steve Jobs

Atualizado: Quinta-feira, 6 Outubro de 2011 as 12:12

Marcado por uma história de sucessos e invenções que revolucionaram a relação do homem com a tecnologia, Steve Jobs foi vítima de um tipo de tumor pancreático raro, chamado de tumor neuroendócrino, que acomete uma a cada 100 mil pessoas. O cofundador e ex-presidente do conselho de administração da Apple morreu nesta quarta-feira (5), deixando um legado de inovação que construiu até mesmo durante o estágio mais avançado da doença - Jobs esteve à frente do grupo até o dia 24 de agosto.

O tumor neuroendócrino é um pouco menos agressivo do que o câncer de pâncreas mais comum, conhecido como adenocarcinoma, responsável por 90% dos casos, segundo dados do INCA (Instituto Nacional do Câncer). A principal diferença entre os dois casos, segundo explica Veridiana Pires de Camargo, oncologista clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e do Hospital Sírio Libanês, é que a evolução do tumor neuroendócrino é mais lenta, o que permite um tempo de sobrevida maior aos pacientes - a exemplo do próprio Jobs, que descobriu a doença em 2004.

"No caso do câncer pancreático comum, a sobrevida é de seis a nove meses, quando há metástase. Já o paciente que sofre do tumor neuroendócrino pode viver mais de cinco anos, com acompanhamento", ela explica.

Outra diferença está nas causas da doença. Enquanto o câncer de pâncreas comum está associado à obesidade, ao tabagismo, histórico familiar e hábitos alimentares, o neuroendócrino pode, somente em alguns casos, estar associado a síndromes genéticas. "Não existe nada determinado para este tipo de câncer. O câncer neuroendócrino não está ligado a um fator de risco conhecido, infelizmente", afirma Aline Angélica Porto Rocha Lima, oncologista do Hospital Brasil.

Os sintomas também são mais leves quando comparados ao adenocarcinoma, que é caracterizado por muitas dores abdominais, perda de peso repentina e alteração dos níveis de glicose, entre outros sintomas. Embora os sinais sejam sutis, é importante estar atento a sinais como dores nas costas, emagrecimento e amarelamento da pele. "Tendo estes sintomas, o paciente deve procurar o médico, que irá pedir os exames necessários. Geralmente, são feitos exame de imagem, como ressonância ou tumografia, e depois a biopsia".

Tipos da doença

Veridiana explica que existem dois tipos de tumor neuroendócrino: os funcionantes e os não-funcionantes. "Os funcionantes produzem alguns hormônios em demasia, causando sintomas como diarreia, bronquite, vermelhidão e ondas de calor. Já o não-funcionante traz dores abdominal que pode ir pras costas, alteração glicêmica e outros sintomas não muito específicos, que normalmente começam a aparecer quando a doença já está mais avançada".

Em termos de agressividade, não há muita diferença entre os dois tipos, mas o grande problema do tumor neuroendócrino é a dificuldade de diagnóstico. "Normalmente quando o paciente descobre já tem metástase, pois os sintomas não são muito específicos. O tumor cresce lentamente e tem um grau de agressividade muito baixa, então o paciente acaba não indo buscar ajuda. É um diagnostico difícil, até pela sua raridade. São poucos especialistas no mundo que mexem com este tipo de tumor", indica Veridiana.

A oncologista Aline explica que o pâncreas tem a função de produzir vários tipos de hormônios, entre eles, a insulina, que controla a glicose. Além disso, é responsável por produzir enzimas que ajudam na digestão. "Se o paciente descobre a doença precocemente, e consegue fazer uma cirurgia, conseguirá viver sem o pâncreas, por meio de medicamentos que suprem estes hormônios. Às vezes, o corpo se adapata e acaba produzindo os hormônios em outros órgãos".

Tratamento e chances de cura

Segundo Veridiana, o tumor neuroendócrino não responde bem à quimioterapia, por isso, geralmente é tratado com uma medicação à base de somatostatina, que age no controle dos sintomas mais graves, e não necessariamente no controle do crescimento do tumor.

Este ano, no entanto, uma novidade foi aprovada pelo FDA (Food and Drug Administration), órgão americano que controla os medicamentos, de acordo com Veridiana. O Sutent, um remédio que já era utilizado no tratamento de outros tipos de câncer, mostrou efeitos positivos também nestes casos e, por isso, passou a ser prescrito. "No Brasil já é vendido, mas no nosso sistema de saúde ainda não é utilizado, é um remédio ainda muito caro", explica. A medicação funciona como a quimioterapia - age nas células cancerígenas e inibe seu desenvolvimento - só que de forma mais eficaz para este tipo de câncer.

Assim como as demais medicações com este fim, o tratamento é agressivo. "Pode interferir na qualidade de vida do paciente, causando fadiga, diarreia, vermelhidão e calos nas mãos e nos pés, além de alterações de anemia, de baixa imunidade e queda de plaquetas", observa Veridiana.

A cura é possível para pacientes que descobrem a doença em um estágio precoce. "Quando ainda não há metástase no fígado ou em outros lugares, a chance de cura é alta, pois podemos fazer uma cirurgia. Os que descobrem a doença com metástase já não são mais pacientes curáveis, mas podem receber acompanhamento constante com sobrevida além dos cinco anos", indica a especialista Veridiana.

O exemplo de Jobs, que lutou até os últimos dias e chegou a fazer um transplante de fígado para tentar driblar o avanço do tumor, mostra que os limites da doença variam de pessoa para pessoa. "O próprio corpo dita a hora de parar", conclui a oncologista.

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