Enxaqueca: cuidados com a automedicação

Enxaqueca: cuidados com a automedicação

Atualizado: Quinta-feira, 18 Fevereiro de 2010 as 12

Quando bate aquela dor de cabeça já é de costume comprar um analgésico na farmácia mais próxima, e às vezes, nem é preciso sair de casa, basta abrir o armário da cozinha e ali encontrar a solução para toda aquela dor.

No entanto, a automedicação esconde riscos inevitáveis para a saúde do corpo. A neurologista Célia Roesler, da Sociedade Brasileira de Cefaléia, alerta as pessoas sobre a automedicação e o uso abusivo de analgésicos, pois podem "mascarar" ou piorar o quadro de uma dor de cabeça. Pode não ser uma enxaqueca, mas outra doença como uma meningite ou um tumor cerebral.

Para a especialista, o uso de analgésicos em grandes quantidades fatalmente transformará uma dor de cabeça esporádica em uma cefaléia crônica diária, devido ao efeito 'rebote' dos analgésicos, ou seja, dor-analgésico-dor.

A dona-de-casa Lúcia Helena Bianchi Mello, de 65 anos, que sofre com a enxaqueca há 30 anos, disse que a automedicação ajudou a desencadear uma dor de cabeça crônica. "Já fiz vários tratamentos, tomei diversos remédios, mesmo assim, a dor que some por um período, volta bem mais forte depois", disse.

Também com histórico de automedicação, a recepcionista Rosmari Benevelli, de 62 anos, teve a primeira crise de enxaqueca em 1979, quando começou a ter dores de cabeça muito fortes. "Desde menina eu já tomava analgésicos para conter as dores, até que percebi que isso estava agravando o quadro", disse.

Desde que começou o tratamento para enxaqueca, em 1982, tomando o medicamento adequado, Rosmari pôde levar uma vida tranquila. "Na primeira semana de tratamento eu me sentia bem. Antes, ou eu estava no hospital ou fechada em um quarto escuro", afirmou.

Já os estudantes Paulo Hoffmann, 22, e Mariana Lopes, também de 22 anos, que convivem com as crises de enxaqueca há oito anos, sempre trataram a doença com medicamentos prescritos pelos médicos. A estudante Mariana também recorre a métodos mais naturais para se livrar da dor, como por exemplo, tomar algum tipo de chá, para evitar o excesso de remédio no corpo.

Pode-se dizer que a enxaqueca é um dos tipos de dores de cabeça, e, de todos, é a que apresenta mais sintomas. Além da dor que começa fraca até ficar muito forte, pode vir acompanhada de vários sintomas como náuseas, tonturas, fotofobia (intolerância à luz), osmofobia (intolerância a cheiros), fonofobia (intolerância a barulhos) e cinetofobia (intolerância a movimentos).

A doença, crônica hereditária, tem como causa um desequilíbrio químico cerebral. A neurologista explica que existem "gatilhos" responsáveis por desencadear crises de enxaqueca como alimentos (queijos amarelos, embutidos, molhos vermelhos, frutas cítricas), mudanças bruscas de temperatura, oscilações hormonais, falta ou excesso de sono.

Cerca de 20% das mulheres, podendo chegar até 30% (dependendo da idade), apresentam quadro de enxaqueca, enquanto apenas 10% dos homens desenvolvem o quadro. De acordo com estudos recentes realizados pelo médico Luiz Paulo Queiroz, da Sociedade Brasileira de Cefaléia, os casos de enxaqueca no país chegam a 16%, o que corresponde a mais de 30 milhões de pessoas.

Existem dois tipos de tratamento para as enxaquecas: o tratamento agudo, que usa medicamentos sintomáticos para interromper uma crise, e o tratamento preventivo, ou seja, aquele que previne o paciente das crises. Os medicamentos preventivos, que levam em conta o quadro e o perfil de cada paciente, são usados para depressão, labirintite, pressão alta, doenças cardíacas, epilepsias e outros, porém com doses bem menores do que a indicada para tratar essas doenças.

Os pacientes com enxaqueca geralmente procuram ajuda médica quando as dores começam a atrapalhar muito a qualidade de vida e a vida social. As dores frequentes e intensas levam os pacientes a faltarem do trabalho, escola e até de atividades de lazer. "Por isso nós dizemos que a enxaqueca é uma doença incapacitante, que prejudica muito a vida profissional, social e conjugal desses pacientes, afirmou Célia.

Tipos de Enxaqueca

Existem dois tipos de enxaqueca: a enxaqueca com aura e a enxaqueca sem aura:

Com aura: o paciente apresenta sintomas visuais ou sensitivos, antes do aparecimento da dor, que podem durar até 40 minutos. Com relação aos sintomas visuais, o paciente pode enxergar cobrinhas luminosas, manchas ou bolas escuras, ter visão dupla ou ver apenas a metade das imagens. Quanto aos sintomas sensitivos, ocorre formigamento em uma das mãos, que correm para o antebraço, braço, metade do rosto e, em seguida, metade da língua, dificultando até a fala do paciente. "Esses sintomas assustam muito porque podem ser confundidos com um derrame cerebral", afirmou a neurologista. Após o aparecimento dos sintomas visuais e auditivos, surge no quadro a chamada dor de cabeça latejante, que pode pegar um só lado da cabeça ou a cabeça toda.

Sem aura: o paciente apresenta apenas o quadro da dor sem os sintomas visuais ou sensitivos anteriores.

Tratamento Alternativo

Os tratamentos alternativos ajudam e auxiliam no quadro de enxaqueca, porém, sozinhos não funcionam. Por isso, é necessário o tratamento à base de medicamentos.

Segundo as dicas da médica Célia Roesler, a acupuntura, técnicas de relaxamento, mudança de hábitos de vida como praticar uma atividade física, alimentação balanceada e horários regulares de sono contribuem para a melhora do quadro.

"Nós especialistas em dores de cabeça afirmamos que um 'enxaquecoso' deve ter uma vida muito bem balanceada, regrada e disciplinada. Nada de pouco e nada de muito", declarou a neurologista.

Por Ana Paula Meneghetti

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