Estudos descobrem semelhanças entre coma e anestesia

Estudos descobrem semelhanças entre coma e anestesia

Atualizado: Segunda-feira, 24 Outubro de 2011 as 9:10

"O paciente não conseguiu sair da anestesia e nunca recuperou a consciência." "Em alguns casos o paciente pode lembrar o que acontece na sala de cirurgia e como mexeram em seu corpo." "Ele despertou no meio da operação sem que os cirurgiões nem os auxiliares se dessem conta."

Essas são algumas das crenças muito comuns sobre a anestesia, mas que dificilmente podem acontecer devido às avançadas tecnologias médicas e sistemas de monitoração. Porém, continuam causando tensão e temores infundados entre aqueles que precisam ser operados com ajuda da anestesia geral.

Este tipo de anestesia se parece mais com um coma farmacológico induzido e reversível que com um sono profundo, de acordo com um estudo de pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts, da Faculdade de Medicina Weill Cornell em Nova York, e da Universidade de Michigan, em Ann Arbour, ambas nos Estados Unidos.

Após a anestesia, "o cérebro fica muito, muito tranquilo. A atividade dos neurônios diminui drasticamente. Isso também acontece no coma", explicou o doutor Nicholas Schiff, da Faculdade de Medicina Weill Cornell.

Os autores deste estudo afirmaram que, apesar de a anestesia geral ser descrita como "ficar adormecido", há grandes diferenças entre esses estados e apenas algumas coincidências entre os estados mais profundos do sono e as fases mais leves da anestesia.

Por exemplo, o sono costuma envolver movimentos durante várias fases, enquanto que na anestesia geral os pacientes costumam entrar em um estado específico e permanecer assim durante a cirurgia, o que se parece mais com um estado de coma.

Os cuidados do anestesista

Além de ajudar a aperfeiçoar os tratamentos do coma, esta descoberta poderia melhorar a anestesia, já que "os anestesistas sabem como manter de modo seguro seus pacientes na anestesia geral, mas a maioria não está familiarizada com os mecanismos dos circuitos neuronais que lhes permitem realizar seu trabalho de sustento da vida", declarou o doutor Emery Brown do Hospital Geral de Massachussets.

"Os atuais pilares da anestesia são a hipnose (com anestésicos intravenosos ou inalados), os relaxantes musculares (reduzem a resistência das cavidades abertas e permitem a ventilação artificial) e os opiáceos (fármacos contra a dor que evitam as moléstias pós-operatórias)", detalhou o doutor Pere Vila, anestesista do Hospital Germans Trias Pujol de Badalona, na Espanha.

De acordo com este especialista, também há grandes avanços na proteção neurovegetativa (remédios que provocam a perda da atividade de reflexo), nas técnicas de ventilação e monitoração do paciente, e outros que permitem a recuperação das funções cognitivas o mais rápido possível e aceleram a eliminação dos remédios do organismo.

São muitas as pessoas que todo ano se submetem a uma intervenção cirúrgica e têm perguntas e dúvidas que não chegam a perguntar ao anestesista. Por isso, o doutor Pere Vila juntou as incertezas e temores mais frequentes sobre a anestesia e as esclareceu de forma simples, através de uma série de recomendações básicas.

Segundo este médico, na visita prévia ao anestesista, o paciente recebe normas que devem ser cumpridas rigorosamente e é preciso informar se consome álcool, tabaco ou drogas que afetem a resposta orgânica. Pere Vila lembrou também que "é fundamental comparecer em jejum, uma vez que o conteúdo gástrico poderia passar à laringe e aos pulmões, provocando complicações respiratórias".

Dormindo na sala de cirurgia

O especialista do hospital de Baladona acrescentou que "durante a cirurgia o anestesista monitora os sinais vitais do paciente, controla sua pressão, ritmo cardíaco, respiração e temperatura corporal, sabe o tempo todo se o paciente está pouco ou muito adormecido e realizam os ajustes para evitar um despertar precoce. Depois se ocupa da reanimação".

Além disso, "as últimas técnicas utilizam a ultrassonografia para localizar os nervos e fazer bloqueios seletivos das zonas a operar, sem necessidade de usar a anestesia geral (inconsciência completa)", considerou o anestesista.

Por outra parte, segundo este médico, durante a fase de recuperação ou despertar, o anestesista já inicia o tratamento necessário para atenuar a dor e as moléstias pós-operatórias; denominado analgesia preventiva.

Pere Vila ressaltou ainda que temores gerados pela anestesia são infundados, porque "as complicações leves, sem efeitos colaterais, acontecem em 20% das cirurgias, e a probabilidade de uma grave é de uma a cada dez mil casos".

Não é possível que alguém possa acordar durante a anestesia? Sobre este temor, o anestesista explica que "a monitoração cerebral atualmente disponível permite levar a pessoa a um plano anestésico adequado, que facilita realizar a cirurgia com sucesso sem que o paciente esteja consciente da intervenção".

No máximo, dois de cada mil pacientes despertam da anestesia durante uma operação, uma circunstância considerada como uma complicação ocasional, segundo uma pesquisa da Universidade Ruhr, em Bochum, e a Universidade de Charité, em Berlim, ambas na Alemanha.

De acordo com estesespecialistas, quando o paciente mantém a consciência durante uma operação, a causa costuma ser uma dose inadequada de anestesia.

Além disso, estes episódios podem estar ligados a certos fatores de irrigação. As crianças têm de oito a dez vezes mais risco de experimentar momentos de consciência sob anestesia, enquanto que o emprego de analgésicos em longo prazo ou o abuso de fármacos por parte do paciente o deixam mais propenso a estes fatos. Além disso, as cesáreas, as operações de emergência e as intervenções realizadas de noite, provocam um maior risco de episódios de consciência.

Para prevenir estes problemas, os especialistas alemães recomendaram levar em conta os fatores de risco já citados e elevar o nível de vigilância, assim como pré-medicar com benzodiazepinas e não empregar relaxantes musculares, além de proporcionar ao paciente proteção auditiva.

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