Evidências reais para dietas que são apenas imaginárias

Evidências reais para dietas que são apenas imaginárias

Atualizado: Quarta-feira, 22 Dezembro de 2010 as 8:48

Pode chamá-la de dieta imaginária. Você não teria de contar calorias, acompanhar pontos ou memorizar regras. Se, digamos, algum amigo deixasse uma caixa de trufas de chocolate em sua casa neste período de festas, você nem os jogaria fora e nem engoliria todas. Em vez disso, começaria a comer chocolates imaginários.

Você se daria alguns segundos para imaginar-se saboreando e mastigando uma trufa (se houver uma foto na caixa, pode focar nisso.) Então você se imaginaria comendo mais uma, e mais uma, e mais uma... até que pudesse, finalmente, abrir a caixa real de chocolates sem fazer de si mesmo um completo porco. E então você poderia começar a fantasiar sobre outros vícios que quisesse eliminar.

Até agora, a dieta imaginária só existe em minha imaginação, assim como qualquer evidência de sua eficácia. Mas existem algumas evidências reais dos benefícios da alimentação imaginária, vindas de experimentos da Universidade Carnegie Mellon e relatadas na edição atual da revista “Science”. Quando as pessoas se imaginaram comendo M&M’s ou pedaços de queijo, elas se tornaram menos propensas a se empanturrar com o artigo real.

Essa forma de dieta mental --penso, logo estou satisfeito-- soa bizarramente contra-intuitiva, pois todos nós estamos acostumados com o fenômeno oposto: pensar numa comida nos deixa mais ávidos por comê-la.

E realmente, existe um fenômeno bem conhecido chamado sensibilização, ou efeito estimulador: se você se imaginar comendo chocolate, seu desejo pelo doce aumenta, e os pensamentos podem levá-lo a literalmente salivar.

Da mesma forma, imaginar a visão ou o cheiro de um cigarro eleva o desejo de um fumante por acender um. E quando você realmente sente o cheiro ou o gosto de algo, aquela sensação inicial também pode aumentar seu desejo por aquilo.

Eventualmente, porém, esse efeito é contrabalançado por outro fenômeno bastante conhecido, chamado habituação. Assim como você se adapta a luzes brilhantes e não mais se incomoda com odores desagradáveis, você se habitua a uma comida enquanto a come.

“Depois que você come o primeiro pequeno cheeseburguer em White Castle, seu desejo é provavelmente maior do que antes de iniciar a refeição”, diz Carey Morewedge, psicólogo da Carnegie Mellon e principal autor do artigo em “Science”. “Mas seu desejo provavelmente será menor quando você começar a comer seu oitavo”.

Nesse momento, você pode parar de pedir lanches e achar que perdeu seu apetite por qualquer comida. Mas a habituação é bastante específica ao alimento que você está comendo, como foi repetidamente demonstrado --tanto por pesquisadores quanto por chefs de doces. Clientes de restaurantes podem achar que não conseguirão dar nem mais uma garfada depois da entrada, mas se sentem subitamente famintos quando chega o carrinho de sobremesas.

Os experimentos na Carnegie Mellon são os primeiros a mostrar que a habituação à comida pode ocorrer simplesmente ao se pensar em comer, segundo Morewedge e seus colegas Young Eun Huh e Joachim Vosgerau.

A habituação ocorreu enquanto os participantes imaginaram comer 30 M&M’s ou cubos de queijo cheddar, um por vez. Eles tinham de observar fotos de cada M&M por três segundos, e cada cubo de queijo por cinco segundo.

O efeito habituação não ocorreu quando as pessoas se imaginavam comendo apenas três M&M’s ou cubos de queijo, e nem quando elas se imaginavam movendo os M&M’s, um por vez, para dentro de uma tigela, ou fazendo outras tarefas mentais, como inserir moedas numa lavadora automática.

O efeito exigiu grandes quantidades de alimentação mental, e foi específico a cada comida: as pessoas que se imaginaram comendo chocolate não perderam seu desejo por queijo.

A alimentação imaginária não fez as pessoas se sentirem mais cheias, e não alterou sua opinião geral sobre M&M’s ou cubos de queijo cheddar. Elas apenas não tinham tanta vontade de comer aqueles produtos naquele momento.

“Nosso desejo por comida tem dois componentes: o gostar e o querer”, diz Morewedge. “Nós podemos gostar muito de sorvete, mas não querer comê-lo no desjejum. O consumo imaginado não afetou o quanto os participantes gostavam de M&M’s, mas reduziu a quantidade que eles queriam comer. A habituação é geralmente considerada como um processo motivacional”.

A importância da mente sobre o estômago foi demonstrada em 1998, num arrebatador experimento com dois homens cujas funções mentais eram normais --exceto por uma grave forma de amnésia. Eles foram incapazes de se lembrar de um acontecimento por mais de um minuto. Seus hábitos alimentares foram estudados por diversos dias pelos pesquisadores, conduzidos por Paul Rozin, da Universidade da Pensilvânia, que criou um horário de almoço bastante prolongado.

Depois que cada homem almoçava, a comida era retirada da mesa. Alguns minutos depois, um pesquisador aparecia com uma refeição idêntica e anunciava, “Aqui está o almoço”. Os homens sempre comiam sem reclamações de que estariam satisfeitos. Então, alguns minutos depois que a comida era retirada, um terceiro almoço era servido, e os homens também o comiam normalmente.

Na verdade, um dos homens se levantou após seu terceiro almoço do dia e anunciou que iria “sair para caminhar e procurar algum lugar para o almoço”. Quando questionado o que ele planejava comer, ele respondeu, “bife à parmegiana” -- a mesma comida que havia acabado de almoçar.

Quando os pesquisadores tentaram o mesmo experimento num grupo de controle com memórias normais, todas as pessoas recusaram o segundo almoço. Diferente dos homens com amnésia, eles se sentiram menos famintos após comer, mas a sensação aparentemente não vinha apenas de seus estômagos, conforme os pesquisadores concluíram.

“Fatores não-fisiológicos parecem ser de grande importância no início e no cessar da alimentação normal”, escreveram Rozin e seus colegas em “Psychological Science”. “Os resultados sugerem que um dos principais fatores não-fisiológicos é a memória do que foi recentemente ingerido”.

Agora, parece que mesmo as memórias de comidas imaginárias podem afetar o desejo das pessoas por comer. Rozin diz ter se impressionado com o estudo da Carnegie Mellon, assim como Leonard Epstein, especialista em habituação a alimentos. Epstein, psicólogo da Universidade Estadual de Buffalo, diz que os resultados levantam intrigantes questões para pesquisas futuras.

“Você consegue reproduzir os efeitos ao longo do tempo, ou eles só funcionam uma ou duas vezes?” disse Epstein. “Obviamente, para que isso seja usado clinicamente, é preciso que funcione repetidamente. Isso funciona para todos, incluindo pessoas obesas? Funciona para todos os alimentos, ou apenas para petiscos?”

Morewedge concorda que é cedo demais para saber o grau de duração ou utilidade desse efeito, ou se ele funcionará com todas as substâncias viciante, como o tabaco.

Ele espera estudar o que ocorre quando pessoas se imaginarem fumando cigarros. Mas os resultados até agora, segundo ele, oferecem alguma esperança para eventualmente desviar pessoas a dietas mais saudáveis.

Por exemplo, se em sua casa você tivesse um saco de cenouras e um de batatas fritas, você poderia tentar consumir mentalmente as batatas _ para ficar mais inclinado a buscar uma cenoura real. E então, se isso funcionasse, talvez você pudesse tentar a habituação com outros vícios.

Se você quisesse conter seu desejo por alguém, imaginar detalhadamente um encontro erótico seria de alguma ajuda? (Nesse caso, os pornógrafos poderiam se auto-intitular provedores de materiais terapêuticos.)

Para reduzir suas contas com cartão de crédito, daria certo embarcar em passeios de compras imaginários? Fantasiar sobre a perda de uma oportunidade poderia fazê-lo parar de adiar suas decisões? Se você se imaginasse assistindo a “Jersey Shore”, seria possível não ver o programa real?

Morewedge ainda não tem essas respostas, embora reconheça que “os processos de habituação parecem ser similares entre uma variedade de modalidades e estímulos”. A habituação é inibida pela variedade, diz ele; então, para que ela ocorra com atividades além de comer, você presumivelmente teria de imaginar o mesmo ato, sendo feito exatamente da mesma forma. E para se habituar a uma comida, você teria de fazer mais do que provocar alguns pensamentos vagos sobre ela.

“Nossos resultados sugerem que você precisa empregar a atividade mental simulando o consumo real”, afirma Morewedge. “Você não pode simplesmente imaginar um filé ou uma barra de chocolate --é preciso se imaginar comendo, um pedaço por vez”.

Isso foi bastante fácil de fazer nos experimentos da Carnegie Mellon, que mostravam aos participantes fotos de cada pedaço de comida por alguns segundos. Mas e se você quiser tentar isso em casa? Claramente, surge a necessidade por um aplicativo de Dieta Imaginária para celulares, ou pelo menos de um livro com fotos das comidas mais engordativas do planeta.

Ninguém está planejando o Livro da Dieta Imaginária --ainda não-- masMorewedge e seus colegas têm brincado sobre apresentar um novo formato ao gênero das dietas.

“Teria apenas fotos”, diz ele. “O primeiro livro de dietas sem texto”.

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