Ex-participantes de reality shows tentam lidar com trauma pós-confinamento

Ex-participantes de reality shows tentam lidar com trauma pós-confinamento

Atualizado: Quarta-feira, 19 Janeiro de 2011 as 8:57

O show mal começou, mas todo mundo já está pensando em quem vai sair. Está no ar mais uma edição do reality show mais visto no Brasil, o "Big Brother" (Globo).

Entre os participantes, a ideia de que o jogo é de cartas marcadas talvez ajude a aguentar o tranco da eliminação. Mas pouca gente discute as consequências psicológicas de quem é expulso desse tipo de programa.

Voltar à vida real depois de participar de um reality show é bem diferente do caminho da fama geralmente suposto. E o alívio de sair do confinamento pode não compensar sintomas como depressão e frustração.

Parece óbvio? Nem tanto. Podemos não saber as reais motivações de quem se candidata, mas é difícil alguém entrar no jogo achando que vai sair pior do que entrou.

"Claro que o participante sai achando que ficou conhecido, que "será alguma coisa". Mas a maioria não vê grande benefício na vida profissional, além de sofrer abalos no relacionamento com a família, com o namorado etc.", diz o psicólogo Marco Antonio de Tommaso.

Tommaso, que dá atendimento psicológico para modelos de grandes agências, foi convidado para dar assistência às eliminadas na primeira edição do reality "Brazil's Next Top Model" (Sony), em 2007.

Para ele, as participantes supervalorizam a oportunidade e subestimam o perigo. "Ficam sempre na dúvida se são amadas, a autoestima vai para o espaço."

SEM EMPREGO

A chance de se projetar na carreira é questionável. "O que mais ouço falar é de ex-participantes não conseguindo emprego", diz Tommaso.

Mesmo quem consegue não acredita ser mérito do reality. A modelo Mariana Richardt, 24, quarto lugar no "Next Top Model" de 2007, afirma que o programa não abriu muitas portas para ela.

"No meio da moda, não é bem visto ser conhecida como ex-reality show", afirma a modelo, hoje contratada por uma agência.

E não é só no mercado de modelos que essa associação aos programas é negativa, diz a psicóloga Mariá Giulise, consultora de carreira.

"A forma como a coisa foi concebida é inadequada. A carreira tem um percurso para ser construída, não há solução mágica."

Participar de reality shows relacionados à carreira profissional pode queimar ainda mais o filme do participante.

"Os jurados não julgam apenas o trabalho, vira humilhação pessoal. A pessoa acaba duvidando de seu próprio talento", diz Myres Verardi, analista comportamental do birô de tendências Observatório de Sinais, que elaborou o "Dossiê Reality" para o mercado.

Para Verardi, ser eliminado por um profissional pode ser pior do que pelos milhões de votos anônimos. "O jurado é reconhecido na área. Sua opinião é apresentada como se fosse uma avaliação objetiva em uma entrevista para emprego, mas não é."

O assédio moral praticado às claras amplifica a humilhação. "Esse modelo de relacionamento profissional é sério, dá processo. Nos programas, vira uma caricatura perversa", lembra Giulise.

AUDIÊNCIA

Mesmo assim, essas situações dão audiência. "Ver pessoas sendo humilhadas e submetidas ao ridículo representa o jogo de poder que não nos é permitido exercer", diz o sociólogo Dario Caldas, do Observatório de Sinais.

Caldas acredita que, para os participantes, o prêmio é secundário. "O que move é a possibilidade de existir para além do anonimato."

Essa existência é efêmera, na maioria dos casos. "Parece bacana, o sujeito cai na mídia direto. Mas é consumido tão rápido quanto um pacote de salgadinho", diz a psicóloga e psicanalista Marília Pereira Millan, professora da Universidade Paulista.

Autora de um trabalho sobre o tema, Millan explica que o confinamento mobiliza aspectos primitivos do funcionamento psíquico, como a agressividade e a violência.

"O participante entra em contato com uma parte desconhecida de si mesmo de forma abrupta. Quando sai, é difícil juntar os pedaços."

'Sentia falta da liberdade e, quando saí, não sabia o que fazer'

"Eu sempre tive preconceito com reality show. Quando me convidaram, estava em um processo financeiro difícil, aceitei sem pensar. Foi tudo muito louco. Você errou, é punido. Como rato de laboratório. 'Agora você come.' 'Agora você brinca.' 'Agora você briga.' Entrei com a prioridade de ganhar os R$ 2 milhões, mas depois foi a de não sair com a imagem denegrida. Morria de medo de ser tachado como o cara da 'Fazenda' que ganhou um apelido infeliz. Você vive aquele universo e acha que é real, pensa: 'As pessoas me odeiam, eu sou um lixo'. Foi um alívio sair. Eu sentia tanta falta da liberdade e, quando saí, já não sabia o que fazer com ela. Passei uma semana dentro de casa. Assisti tudo depois. Achei totalmente diferente. Ainda estou digerindo, no processo de entender o que aconteceu."

Dudu Pelizzari, 25, ator, participou de "A Fazenda 3" (2010)

'Tive que enfiar na cabeça que não estava mais gravando'

"No programa, você não tem um segundo para pensar, ficar com você mesma. Ouvir a opinião dos jurados é complicado. São profissionais da área, gente que sabe o que está falando. O público vai pela sua cara, os jurados, pelo seu trabalho. A câmera era o que mais me relaxava. Descobri que queria o mundo da TV. Quando fui eliminada, queria sair correndo com os braços pro ar, gritando 'Liberdade!'. Fui direto para a balada. Mas senti saudades da câmera quando saí. Continuava me posicionando como se estivesse no foco. Tive que enfiar na cabeça que não estava gravando mais."

Hannah Epstein, 21, estudante de moda, participou da 2ª "Temporada de Moda" (2010), do canal Boomerang, que escolhe estagiários de produção de moda para a revista "Capricho"

'Fiquei aliviado em saber que as pessoas iam me esquecer'

"É legal estar no reality show para saber como funciona. Com uma semana, você sabe quem vai ganhar e quem vai fazer cada personagem: o malvado, o bonzinho. Gostei, mas não faria de novo. Teve um momento em que a produção [os câmeras] ficou me chamando de 'viadinho', dizendo que quem faz moda é filhinho de papai, por trás das câmeras. Eu não podia ir ao shopping no fim de semana, as meninas queriam tirar foto. Era engraçado, meus 15 minutos de fama. Quando acabou, fiquei aliviado em saber que não ia passar mais, que as pessoas iam me esquecer."

Bruno Joanna, 22, estudante de moda, participou da 1ª "Temporada de Moda Capricho" (2009), do canal Boomerang

'Me tornei uma pessoa fria, não conseguia abraçar meu irmão'

"Eu saí porque errei o nome dele [Roberto Justus, apresentador do programa], escrevi 'Justos'. O trabalho dele é te levantar e te derrubar o tempo inteiro. A pressão é pior por causa do confinamento. Quando saí, assisti partes do programa na TV. Me fazia mal, não me reconhecia. Após o reality, me tornei uma pessoa fria. Eu tinha passado quatro meses com microfone, tudo era gravado. Você perde a espontaneidade. Não conseguia abraçar meu irmão, sentar no bar com amigos. Fiz terapia por um ano e pouco. Eu não calculei tudo o que tinha a perder, não sabia dos riscos. Mas valeu a pena."

Pedro Frazão, 31, publicitário, participou de "O Aprendiz 4 - O Sócio" (2007), da Record, hoje apresentado por João Dória Jr.

CABEÇA A PRÊMIO

Os riscos emocionais e profissionais de participar de um reality show

- Elevação do nível de ansiedade

- Piora de quadros psicológicos preexistentes (agressividade doentia, manias, depressão)

- Frustração constante

- Depressão

- Crise de identidade

- Sintomas de estresse pós-traumático, como ficar revivendo cenas do programa que causaram sofrimento

- Possibilidade de desenvolver sintomas de paranoia, como mania de perseguição

- Imagem distorcida da realidade

- Perda da autoestima

- Insegurança quanto ao valor profissional

- Imagem negativa no mercado de trabalho

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