Fumantes que buscam tratamento em SP enfrentam filas e desinformação

Fumantes que buscam tratamento em SP enfrentam filas e desinformação

Atualizado: Terça-feira, 4 Agosto de 2009 as 12

A poucos dias da entrada em vigor da lei antifumo, que proíbe o cigarro em ambientes de uso coletivo em todo o estado de São Paulo, fumantes enfrentam filas e desinformação em busca de tratamento na capital paulista. Alguns centros de referência relatam aumento de procura por causa da lei, o que provocou mais tempo de espera.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que todas as 420 Unidades Básicas de Saúde (UBS) da capital paulista prestam atendimento. Porém, o G1 percorreu na segunda-feira, 3 de agosto, quatro UBS em diferentes regiões e ouviu de funcionários que elas não oferecem tratamento contra o tabagismo.

Quem procura ajuda para largar o cigarro na UBS Jardim Aeroporto, no Campo Belo, na Zona Sul de São Paulo, terá que insistir para conseguir informação. Uma das recepcionistas que agenda os horários e encaminha os pacientes para cada especialidade logo diz que não há nenhum tipo de programa contra o tabagismo. Depois da insistência, outra atendente informa que, por enquanto, não há nenhum tratamento desse tipo na UBS, mas que ele deve ser implementado, ainda sem previsão de data.

Na UBS de Americanópolis, também na Zona Sul, situação semelhante. Já na UBS Sé, no Centro de São Paulo, funcionários indicam procurar o Centro de Atenção Psicossocial (Caps), que fica no mesmo prédio. No local, o fumante é orientado a passar por uma triagem e depois pode ter acesso ao conteúdo do tratamento.

Na UBS Joaquim Antonio Eirado, em Santana, na Zona Norte de São Paulo, a reportagem foi informada que a unidade não fornece, por enquanto, o tratamento. Uma das funcionárias indicou o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), ligado ao governo estadual, que fica na região central de São Paulo.

Procurada novamente, a Prefeitura informou que as unidades receberão nova capacitação “para acolher os que querem largar a dependência”. “A Secretaria Municipal da Saúde esclarece que, a partir da vigência da lei estadual 13.541 [lei antifumo], estão sendo planejadas novas capacitações dos profissionais das Unidades Básicas de Saúde (UBS) para fortalecer o acolhimento às pessoas que querem parar de fumar”, diz uma nota enviada ao G1.

Tratamento

O oitavo artigo da Lei 13.541, que proíbe o fumo em ambientes fechados, prevê que “caberá ao Poder Executivo disponibilizar, em toda a rede de saúde pública do estado, assistência terapêutica e medicamentos antitabagismo para os fumantes que queiram parar de fumar”. Além do tratamento contra o tabagismo, o Cratod treina profissionais de unidades cadastradas no estado para ajudar o paciente a largar o cigarro.

A Secretaria de Estado da Saúde disse que o repasse anual para o Cratod é de R$ 1,2 milhão. A verba não foi aumentada após a aprovação da lei antifumo, mas a secretaria disse que, após a entrada em vigor da proibição, na próxima sexta-feira (7), será analisado se há necessidade de um maior repasse para o centro.

A diretora do Cratod, Luizemir Lago, afirmou que ainda não percebeu um aumento de procura por causa da nova lei. Apesar disso, há 230 pessoas na fila para receber o tratamento e a espera é de cerca de um mês. “Quem quer parar de fumar, com lei ou sem lei vai se motivar”, acredita Luizemir. Segundo ela, depois de um mês de tratamento, quase 46% dos pacientes param de fumar.

O fumante pode se inscrever para participar do programa do Cratod pelo telefone 3329-4455 - são atendidas no local pessoas que moram na região do centro expandido de São Paulo. Em caso de moradores de outras regiões da cidade ou outros municípios, são indicadas cerca de 80 unidades cadastradas em todo o estado.

Os medicamentos para os pacientes são gratuitos e, segundo Luizemir, não há falta de remédios. O tratamento dura um mês, mas a pessoa é acompanhada após esse período. “Vamos ensinando estratégias para parar de fumar com uma equipe multidisciplinar”, contou. Entre os profissionais que participam do trabalho há psicólogos, nutricionistas, psiquiatras, clínicos gerais e enfermeiros.

Aumento da procura

O pneumologista Sérgio Ricardo Santos, coordenador do Núcleo de Apoio à Prevenção e Cessação do Tabagismo (PrevFumo) da Unifesp, diz que o volume de atendimento aumentou cerca de 25% desde junho. Segundo ele, a lei antifumo foi um dos fatores para o crescimento. “A gente está vendo que as pessoas estão preocupadas em resolver e agora existe uma motivação, que é o desejo de não se sentir cerceado”, afirmou.

Por causa do aumento, o quadro de funcionários cresceu de 15 para 17 pessoas. Mesmo assim, o fumante espera de 14 a 21 dias para iniciar o tratamento, que dura de dois a três meses. A média de atendimento anual do PrevFumo é de 5 mil pacientes. “A nossa perspectiva é que a gente ultrapasse 6 mil atendimentos este ano”, acredita o médico.

Segundo Santos, a taxa de sucesso do tratamento fica em torno de 60%. Desse total, um terço pode sofrer recaída antes de um ano. Além de trabalhos em grupo, é feita terapia de reposição de nicotina – com adesivos, goma de mascar ou pastilhas - e indicação de medicamentos, na maioria dos casos.

Os remédios, no entanto, não são gratuitos. “O nosso centro está completando 19 anos e nós não temos fornecimento de medicação gratuita. Essa é uma demanda antiga nossa. Parece que isso vai se resolver em breve, existe uma sinalização dos órgãos que organizam essa distribuição”, afirmou o médico.

O tratamento com o remédio mais barato sai em torno de R$ 40 a R$ 60 por mês. Já o mais caro, entre R$ 220,00 a R$ 250,00. “Quando a pessoa fala que não tem condições, a gente acaba optando pelo mais barato, a menos que haja uma contraindicação clínica”, disse. O PrevFumo fica na Rua dos Açores, 310, próximo ao Parque Ibirapuera. O telefone para contato é 5904-8046.

Ubiratan de Paula Santos, coordenador do Ambulatório de Cessação de Tabagismo da Disciplina de Pneumologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, também notou um aumento na procura pelo tratamento. “O nosso problema é que aumentou muito a demanda, agora estamos com a agenda lotada até dezembro. Eu tinha uma agenda com três meses, e agora está com seis meses”, afirmou.

O programa coordenado pelo médico atende a pacientes do HC e o público em geral. Cerca de 30 pessoas iniciam o tratamento todos os meses. Depois que o fumante faz a inscrição no HC, ele passa por uma avaliação, quatro sessões em grupo durante um mês e, depois disso, indicação de medicamentos, caso haja necessidade. Os médicos acompanham o paciente durante um ano. Segundo o coordenador, 30% dos pacientes continuam sem fumar após esse período.

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