Gravidez na adolescência tem maior risco de depressão

Gravidez na adolescência tem maior risco de depressão

Atualizado: Quarta-feira, 13 Outubro de 2010 as 9:34

A adolescência é caracterizada por um período de intensas mudanças físicas, sexuais, psicológicas e sociais. É um momento em que o jovem está em plena mudança e ainda buscando a sua própria identidade e testando os seus ideais e suas crenças.

Em uma grande maioria ainda são imaturos e não sabem muito bem definir o querem para suas vidas. Muitos jovens procuram aconselhamento na tentativa de se entenderem melhor. Seja no amor, na opção sexual, na religiosidade ou em sua vocação profissional.

A verdade é que muitos jovens são ambíguos, eles próprios se deparam com suas contradições e oposição de sentimentos, valores e crenças internas. "Quem sou eu?", "O que eu quero para o meu futuro?", são perguntas frequentes que muitos adolescentes e adultos jovens se fazem.

Muitos iniciam uma faculdade e logo em seguida a troca, várias vezes. Em geral, a crise de identidade se instaura no momento da busca do que eles realmente querem fazer e ser.

Depressão e ideias suicidas

Quando esse caminho se torna muito difícil e quando muitos jovens não vêem uma luz no final do túnel, pode se desencadear neles um processo depressivo e até ideação suicida.

Diversos autores apontam para o alto número de adolescentes com ideias suicidas. O Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde, ligado à Fundação Oswaldo Cruz, revelou um aumento de 26% na taxa de suicídio de jovens entre 15 e 24 anos em nove capitais brasileiras.

Gestação na adolescência

Como seria de se esperar, geralmente a gestação nessa fase da vida também é considerada um momento de crise, pelas mudanças físicas, sociais, econômicas e emocionais associadas à adolescência, intensificando os não poucos conflitos já existentes nesse período.

Muitos estudos demonstram um elevado risco de depressão e suicídio entre adolescentes gestantes. Entretanto, outros apontam para resultados mais otimistas, como é o caso da Clínica Obstétrica do Hospital das Clínicas da FMUSP.

Possivelmente por conta da maioria das gestantes adolescentes deste serviço terem desejado a gravidez. Nestas situações, os principais motivos observados foram que por conta da gravidez elas não mais estarão sozinhas, que se sentem agora importantes, que a vida passou a ter um significado e um sentido.

Acredita-se que nestes casos a gestação passa a ser uma alternativa à crise da adolescência, à busca de identidade e ao vazio das transformações.

Agora, a adolescente, grávida, adquire um importante status social no papel de mãe e encontra sentido em viver, pois terá importância na vida de alguém. No entanto, sabe-se que a gestação nesta fase da vida é muito idealizada, dificultando o contato real com as obrigações e as dificuldades de ser mãe.

A grande maioria das adolescentes que engravidam em idades tão precoces, continua sendo sustentada pelos pais e morando com eles, dificultando ainda mais o estudo e o trabalho.

Pais na adolescência

O pai, também adolescente, geralmente quer "estudar e aproveitar a vida" e muitos acabam "deixando pra trás" a responsabilidade de assumirem o papel de pai. Não raro são as avós que abarcam esse papel. São as conhecidas avós-mães.

E para uma boa parte das adolescentes, após o parto, surge, implacavelmente, a depressão. Com o intuito de minimizar os riscos de depressão pós-parto e auxiliar as adolescentes no processo da maternidade, algumas maternidades desenvolvem durante todo o pré-natal, um trabalho em equipe, ensinando, discutindo, orientando.

Consegue-se, assim, um baixo índice de depressão pós-parto (2%), e, por consequência, de ideações suicidas. A situação não é tão diferente em outros países. Pesquisadores britânicos descobriram que muitos pais jovens vivenciam depressão durante os primeiros 12 anos de vida de seus filhos, mas o risco é maior durante o primeiro ano após o nascimento de uma criança.

Pesquisadores no Reino Unido analisaram 86.957 famílias atendidas em clínicas de cuidados primários, entre 1993 e 2007, a fim de identificar pais jovens com depressão. Viu-se que mais de um terço das mães e cerca de um quinto dos pais tiveram um episódio de depressão entre o nascimento de seu filho e os próximos 12 anos.

Cerca de 20 mil mães tiveram um total de 25.176 episódios de depressão e 8.012 pais tinham um total de 9.683 episódios de depressão. Globalmente, as taxas de depressão nas mães foram 7,53 % contra 2,69% nos pais, ao ano.

As taxas durante o primeiro ano após o nascimento de uma criança foram de 13,93% nas mães contra 3,56% nos pais, corroborando os nossos achados de que as mães jovens sofrem mais de depressão do que os pais jovens.

Os altos índices de depressão no pós-parto não são surpreendentes, devido ao estresse potencial associado ao nascimento de um bebê, escreveu Dave Shreya, do Medical Research Council, em Londres.

As pesquisas mostraram que a depressão ocorreu mais nos jovens entre 15 e 24 anos, quando o filho nasceu, e naqueles que eram socialmente mais desfavorecidas, de acordo com o estudo, publicado na revista Archives of Pediatrics & Medicina do Adolescente.

Relação entre depressão e pais mais jovens

Existe uma relação bem estabelecida entre depressão e pais mais jovens, por estarem menos preparados para a maternidade/paternidade.

Nas classes menos favorecidas, vemos mais gravidezes não planejadas e esses jovens pais podem ficar ainda menos capazes de lidar com as tensões da paternidade em comparação com pais de mais idade.

Um ponto importante que não podemos deixar passar é o de fazermos uma triagem psiquiátrica nas jovens grávidas, colhendo uma história detalhada da gestante. Problemas como o transtorno de humor bipolar e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade sabidamente cursam com um número maior de gestações precoces, uma vez que levam a comportamentos impulsivos.

Trabalhos educativos na população sobre o significado da maternidade na adolescência e todo o ônus a ser arcado pelas famílias, devem ser amplamente divulgados em nosso país.

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