Homens presos em mina no Chile vão enfrentar desafio de ajustar o relógio biológico

Homens presos em mina no Chile vão enfrentar desafio de ajustar o relógio biológico

Atualizado: Quinta-feira, 14 Outubro de 2010 as 8:53

A adaptação ao ciclo do dia e da noite na superfície e a volta da alimentação "normal", sem racionamento, estão entre os principais desafios para os 33 homens presos na mina San José, no Chile, que começaram a ser resgatados nesta terça-feira (13). Além disso, é preciso avaliar se os mineiros não sofreram traumas psicológicos, o que pode fazer com que eles fiquem mais sujeitos a infecções e a doenças oportunistas.

A falta de luz por muito tempo pode prejudicar o ciclo circadiano, conhecido popularmente como "relógio biológico", que regula funções do corpo como a fome, o sono e o estado de vigília. Esses ciclos são influenciados pela luz solar. Aizenaque Grimaldi, vice-presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho, diz que esse processo tem influência direta sobre as emoções desses homens.

– Eles estão vivendo em uma situação de privação sensorial, com visão restrita. Isso abala a parte psíquica do indivíduo, podendo causar irritabilidade e também problemas de coordenação motora. Isso precisa ser trabalhado para que eles voltem à normalidade e ajustem seu relógio biológico.

A médica Regina P. Marcos, professora do departamento de fisiologia da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), diz que outros estímulos dentro da própria mina já fazem com que o corpo deles fique "calibrado".

– O relógio biológico não se ajusta só pela luz. Pela audição, pelo convívio com outras pessoas, eles já conseguem ter uma noção das horas.

Entretanto, Regina diz que eles vão precisar se acostumar a comer normalmente, já que viveram mais de dois meses com alimentos racionados – é improvável que eles estejam desnutridos, já que receberam alimentos como arroz, carne e frango durante esse período. Ela diz que esses homens têm de "aumentar gradativamente as quantidades de comida até se acostumarem".

– Se alguém sai do jejum e resolve comer um boi, o corpo não aguenta. Você precisa readaptar seu sistema digestivo. O estômago tem todo um manuseio do alimento que não está mais acostumado a fazer.

A médica recomenda uma "dieta leve", que "premie a diversidade", em vez da quantidade.

Grimaldi diz que dois órgãos dos mineiros terão de ser examinados com cuidados pelos médicos após a saída do local: os pulmões, que podem ter sido prejudicados pela umidade presente na mina, e os rins, que sofrem se as pessoas não se hidratarem corretamente.

É importante também analisar como cada mineiro lidou com o estresse. Isso porque esse tipo de situação pode afetar o sistema imunológico (responsável pelo combate do corpo a infecções e deixar o organismo mais vulnerável a doenças. Regina diz que isso não acontece com todo mundo de forma igual – a avaliação deve ser feita caso a caso.

– O corpo acaba entendendo o estresse como uma bactéria, causando alterações no organismo, como se houvesse uma situação inflamatória. Isso pode provocar falta de apetite, febre, baixa de humor e até depressão. Mas o efeito principal mesmo é predispor o sujeito a outras doenças.

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