Homocistinúria: diagnóstico precoce pode ser fundamental

Homocistinúria: diagnóstico precoce pode ser fundamental

Atualizado: Quinta-feira, 19 Maio de 2011 as 10:32

A homocistinúria é uma doença que se enquadra na categoria dos chamados Erros Inatos do Metabolismo , ou seja, uma doença causada por uma mutação genética que causa falha em uma proteína ( enzima ) que atua no metabolismo , no caso, metabolismo da metionina-homocisteína. Essa falha metabólica leva a um aumento do nível de homocisteína no sangue . A homocisteína é um aminoácido não essencial (aminoácido que a gente produz, não provém da dieta) formado no metabolismo de outro aminoácido, a metionina (aminoácido que faz parte de todas as proteínas que ingerimos em nossa dieta, principalmente as carnes, leite, soja e derivados).

É uma doença rara (que acomete mais ou menos 1 para cada 100.000 a 1.000.000 de nascidos vivos no mundo, dependendo da região e do país) do tipo Autossômica Recessiva, ou seja, o paciente precisa ter herdado a mutação tanto do pai quanto da mãe, e pode estar presente em pacientes tanto do sexo masculino quanto do feminino.

Quais são as causas?

A principal causa da homocistinúria é uma mutação no gene da enzima cistationina beta-sintase (CBS), que atua no metabolismo da metionina-homocisteína.

A metionina (Met) que ingerimos na dieta participa de um ciclo metabólico cujo produto final é a homocisteína (Hcy). A Hcy é um aminoácido tóxico e deve ser processado para ser eliminado pela urina. O produto do metabolismo da Hcy é outro aminoácido, chamado cisteína, e é nessa via que a enzima CBS atua. Quando a enzima CBS está alterada, ocorre um acúmulo de Hcy dentro das células, que acabam jogando o aminoácido na corrente sanguínea. Por ser um aminoácido tóxico, ele é eliminado pela urina, daí o nome da doença homocistinúria (Hcy na urina). No entanto, o acúmulo de Hcy nos tecidos é que leva ao fenótipo característico da doença, caracterizado por uma criança alta e magra, com anomalias esqueléticas, com pele e cabelos secos, com uma miopia elevada que leva a uma luxação do cristalino (o cristalino cai), eventos tromboembólicos (como infarto do miocárdio e AVC) e deficiência mental.

Como é feito o diagnóstico?

Por ser uma doença do metabolismo, a criança nasce totalmente normal, sem manifestação nenhuma da doença. Conforme ela for ingerindo proteína na dieta, as características da doença começarão a aparecer, ficando mais perceptíveis quando ela estiver um pouquinho maior, normalmente na primeira ou segunda década de vida. Normalmente os pais percebem que a criança tem alguma deficiência visual, a levam ao oftalmologista e este diagnostica a miopia grave ou, dependendo da gravidade da doença, até mesmo a luxação do cristalino. O oftalmologista, então, encaminha o paciente para o geneticista clínico, que sugere o diagnóstico clínico e, para confirmá-lo, pede a triagem urinária para doenças metabólicas e a dosagem de Hcy no sangue . Dentro dos testes da triagem na urina existe um que pode identificar altos níveis de Hcy e cisteína, sendo quase que específico para detectar a doença. Para confirmação do diagnóstico e avaliação do tratamento da homocistinúria, é realizada a dosagem de Hcy do sangue. O normal de Hcy no sangue é de 5,5 a 16,5µm, já o homocistinúrico possui níveis de Hcy acima de 200µm.

É correto afirmar que a homocistinúria pode ser detectada ainda na maternidade?

Por ser uma doença muito rara, o teste neonatal para homocistinúria não está incluído no teste do pezinho . Se os pais relatarem ao obstetra e ao pediatra que sabem de casos de homocistinúria na família, podem pedir o teste urinário para a doença, que é o menos invasivo e de maior sensibilidade no período neonatal. Podem também pedir a dosagem de metionina no sangue do bebê, que deve ser abaixo de 1mg/dL. Qualquer pequeno aumento nesse nível no período neonatal pode ser indicativo da doença.

Como é feito o tratamento?

O tratamento é feito primeiramente para avaliar se o paciente responde ao tratamento com vitamina B6 (piridoxina). Essa vitamina atua como cofator da CBS, auxiliando a sua função. Em alguns pacientes, quando tratados com vitamina B6, os níveis de Hcy baixam quase aos níveis considerados normais, e esses pacientes são chamados responsivos. Para os pacientes responsivos, além da piridoxina, é também adicionado o ácido fólico, que ajuda a diminuir ainda mais os níveis de Hcy no sangue. Esse paciente não precisa ter uma dieta com restrição proteica. Já os pacientes que não respondem à piridoxina, chamados não responsivos, devem, além da vitamina B6 e do ácido fólico, passar por um nutricionista, que recomendará uma dieta bastante restritiva em proteínas, para evitar que o ingiram metionina. Um substituto à dieta é a fórmula farmacêutica, que possui todos os nutrientes e o mínimo de metionina necessários para que o paciente viva bem. No entanto, como a maioria dos pacientes é diagnosticada já na infância e devido ao preço, a adesão à fórmula é pequena.

Qual a importância do teste do pezinho na homocistinúria?

Se diagnosticada ainda no período neonatal , pode-se prevenir todo o aparecimento dos fenótipos mostrados acima, mantendo ao paciente uma boa qualidade de vida e aumentando o sucesso de tratamentos dietéticos ou através da fórmula para pacientes não responsivos.

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