Hortas caseiras trazem mais saúde e economia

Hortas caseiras trazem mais saúde e economia

Atualizado: Segunda-feira, 19 Setembro de 2011 as 9:49

Embora a economia continue estagnada, no leste do Kentucky ela está fazendo tudo brotar.

Hortas são cavadas nas colinas verdes, dispostas com mais força do já se viu em anos. As pessoas as chamam de remendos de proteção contra tempos incertos.

“Você vê muito mais gente mexendo com a terra”, disse Wanda Hamilton, de 61 anos, jardineira experiente que vende seus vegetais excedentes na feira livre de West Liberty, pequena cidade no sopé das montanhas Apalaches. “É a economia. Você simplesmente não tem mais como comprar nos mercados”.

Não é só no Kentucky. A horticultura vem crescendo em todo o país, segundo Bruce Butterfield, diretor de pesquisa da National Gardening Association, devido a altas nos preços de alimentos e a um crescente número de consumidores conscientes. Varejistas de materiais para horticultura relataram um aumento de vendas nos últimos dois anos, disse ele, e muitas hortas comunitárias estão com listas de espera.

“Nossas vendas explodiram”, afirmou George Ball, diretor da Burpee, um dos maiores varejistas de sementes de vegetais. O salto, segundo ele, começou na época em que a Lehman Brothers quebrou, em 2008, quando a ansiedade com o dinheiro começou a crescer.

Em áreas urbanas, as palavras 'cultivado localmente’ evocam imagens de compradores ricos em feiras livres caras. Mas na América rural, os consumidores estão optando por alimentos cultivados localmente – em seus jardins e plantações vizinhas – principalmente pelo baixo custo. Uma professora daqui, Rebecca Frazier, disse ter cortado pela metade sua conta com comida plantando e preservando seu próprio alimento, bem como comprando de agricultores locais. Ela recentemente pagou US$ 10 por 18 quilos de batata-doce, uma fração do preço em mercados. “Estou comprando o dobro de comida por muito menos dinheiro”, disse.

Timothy Woods, professor de economia agrícola na Universidade de Kentucky, que estudou a evolução das feiras livres no estado, afirmou que mais moradores rurais estavam vendendo o excedente de suas plantações para obter receitas adicionais, um padrão que ajudou a dobrar o número de feiras livres no leste do Kentucky desde 2004.

Essas feiras são montadas para compradores que querem comprar os produtos em quantidade e no menor preço possível, para poderem fazer conserva, secar, enlatar e congelar, explicou Woods – diferentes das feiras urbanas, onde os clientes pagam o dobro dos preços rurais e geralmente comem suas compras logo em seguida.

“Você não encontrará produtos orgânicos certificados ou produtos sofisticados”, explicou ele sobre os mercados rurais. “É um mundo diferente”.

Hamilton começou a vender há dez anos, quando sua horta produziu mais do que ela podia usar. Ela sabe que poderia cobrar mais caro mas não o faz, pois seus clientes “estão batalhando como eu”. Quase dois terços de suas vendas são para moradores idosos que usam cupons alimentares do governo.

Outra motivação para plantar hortas maiores: a incerteza financeira que acompanha a aposentadoria. Brenda Eagle, de 56 anos, funcionária numa fábrica de vestuário, e seu marido Leon, de 64 anos, ex-funcionário de telecomunicações que trabalha no Walmart, estão tentando reduzir seu orçamento para o tamanho de seu futuro cheque de aposentadoria.

Eles plantam o equivalente a um ano de feijões, e Engle começou a produzir seu próprio detergente para roupas. “Queremos ser autossuficientes”, afirmou ela.

Sua horta também funciona como terapia.

“Quando estou na horta”, disse ela, “o mundo desaparece”.

Sarah G. Fannin, educadora agrícola que trabalha no serviço de extensão cooperativa da Universidade do Kentucky, levando pesquisas às pessoas da região, declarou que as ligações pedindo por ajuda com hortas dobraram nos últimos três anos, muitas vindo de pessoas jovens. As aulas de jardinagem estão sempre lotadas, assim como uma aula de conservas oferecida por um colega.

Na J.A. Oldfield & Son, uma loja da região, as vendas de sementes de vegetais sobraram nas últimas estações. “Dez anos atrás, não pensávamos sobre a origem de nossos alimentos além dos restaurantes ou dos mercados”, disse Fannin. “Hoje todos se importam mais”.

Isso ocorre porque – pelo menos na opinião da professora Frazier – a saúde se tornou uma questão mais importante para as pessoas daqui, em parte pelo aumento nos custos no sistema de saúde. Ela conta ter iniciado sua horta em 2008, depois que sua filha começou a ter problemas de saúde. E o leste do Kentucky demonstra um interesse fanático pela cozinha.

Segundo Woods, os moradores locais são mais dispostos a ver programas de culinária na televisão do que os do oeste do estado, a parte mais rica, citando uma pesquisa conduzida por ele em 2009. Hortas domésticas não levam necessariamente a uma saúde melhor, claro. Mas Bridget C. Booske, cientista sênior do Instituto de Saúde Populacional da Universidade do Wisconsin, afirmou que o condado de Morgan, onde fica West Liberty, parece estar se saindo melhor do que seus vizinhos.

A especialista conta que as pessoas da região vivem por mais tempo e menos bebês nascem abaixo do peso, citando o County Health Rankings, classificação dos condados americanos publicada há pouco e que ela ajudou a compilar.

Segundo ela, um melhor atendimento hospitalar contribuiria para melhores taxas, mas não seria inteiramente responsável por elas.

Ainda assim, as taxas de obesidade e diabetes permanecem altas e uma significativa melhora na saúde só será possível quando o desemprego a pobreza da região forem suavizados, segundo moradores locais.

Fannin disse que os vegetais poderiam fazer parte do futuro econômico desta área. Ela tem pedido que os agricultores comecem a plantar batatas-doces, uma cultura resistente que está na moda em cozinhas urbanas. Robert Bradley, carvoeiro que virou agricultor, conta ter sido ridicularizado quando as plantou pela primeira vez, mas a produção foi tão bem que outros agricultores também querem tentar.

A derradeira apólice de seguro, porém, é sua própria horta. “Quando entro no porão e colho meus próprios feijões verdes e batatas, tenho a certeza de que não vou passar fome”, disse ele.

veja também