Imprudências são lembradas no passado, e boas ações são presentes

Imprudências são lembradas no passado, e boas ações são presentes

Atualizado: Quarta-feira, 13 Outubro de 2010 as 8:45

Ela tinha todos os motivos para começar a roubar. Pelo menos, é o que parecia na época: uma filha pequena para criar, sogros doentes e dependentes e sem nenhuma poupança ou renda decente. Ela e o marido mal conseguiam pagar o aluguel. Pois então estava ela trabalhando em uma grande loja de departamentos, mergulhada no dinheiro. Quem perceberia a falta de alguns itens aqui e ali, como um casaco e alguns cosméticos?

Além disso, seria fácil. Era só fingir uma compra, colocar discretamente o produto em uma sacola e sair no final do dia com algo a mais: uma pequena doação para uma instituição de caridade digna: a luta de uma família americana.

"Eu sabia que era errado e que provavelmente seria pega", disse a ladra, que mora em Los Angeles e que recentemente contou esta história ocorrida em 1980 (de forma anônima, por razões óbvias) para pesquisadores que estudam as escolhas morais. "Depois do que aconteceu, eu realmente decidi acertar minha vida e andar nos trilhos", acrescentou ela.

Nos últimos anos, os psicólogos têm exposto as mais variadas formas pelas quais as pessoas buscam subconscientemente manter e massagear suas escolhas morais. Elas se consideram moralmente superiores aos outros; superestimam a probabilidade de que irão agir virtuosamente no futuro; acham que suas boas intenções são louváveis, enquanto as dos outros podem ser descartadas como irrelevantes.

Além disso, elas amolecem seus princípios morais ao realizar trabalhos sujos, como executar ordens de explorar clientes desinformados.

Atualmente, os cientistas começam a compreender como a memória ajuda e até mesmo amplia essas automensagens. Esses novos estudos sugerem que, ao montar uma história de vida, a mente lança os lapsos morais para o passado e força as boas ações para a frente - criando, na verdade, uma autobiografia adulterada. Reconhecer esta tendência em si mesmo, dizem os psicólogos, pode reduzir o risco de cair na antiga hipocrisia e aumentar a vigilância moral para o momento mais importante: o presente.

"Não temos a capacidade de refazer o passado, mas o cérebro encontra dificuldade para situar os acontecimentos no tempo. Logo, podemos mudar os elementos de lugar," explica Anne E. Wilson, psicóloga social da Universidade Wilfrid Laurier, em Waterloo, Ontário. "O resultado é que podemos criar uma história pessoal que, mesmo não sendo perfeita, dá a sensação de que ficamos cada vez melhores."

Em um artigo recém publicado na revista "Emotion", que inclui a história da ladra da loja de departamentos, uma equipe de neurocientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia fornece o que talvez seja a documentação mais completa sobre o assunto. Eles recrutaram 100 pessoas com idades entre 40 a 60 anos para participar de um estudo de memória. Ao responderem a dezenas de questões, como "fale de alguma vez em que você fez algo e sentiu-se culpado", os voluntários extravasaram suas memórias, as quais foram gravadas pelos cientistas.

Os pesquisadores transcreveram as histórias e criaram um banco de dados de 758 "memórias morais", destacando aquelas que tinham conteúdo moral claro, fosse ele positivo ou negativo. Uma pessoa confessou ter furtado um bloco de papel de seu chefe, outra disse ter roubado livros quando era uma criança pobre no México. Uma terceira admitiu ter traído o marido com o vizinho. Um ex-viciado em drogas lembrou de ter colocado uma faca na garganta de um homem durante um assalto. ("Eu lembro que naquele instante tive uma forte sensação de poder.")

O banco de dados fornece um catálogo detalhado de bom e mau comportamento, bem como um guia daquilo que as pessoas consideram mais vergonhoso. Os atos ruins mais comuns também foram os que causaram maior arrependimento: roubar, trair um parceiro, colar numa prova e mentir.

Para concluir o estudo, os participantes retornaram semanas mais tarde e classificaram suas histórias em uma série de escalas, inclusive as emoções que sentiram em cada momento e a data aproximada dos acontecimentos. Segundo Jessica R. Escobedo, autora do relatório junto com Ralph Adolphs, após corrigir as memórias de acordo com as faixas etárias (em outras palavras, tentar levar em conta as loucuras da juventude), os pesquisadores identificaram um padrão claro: as pessoas situaram suas memórias de falhas morais cerca de dez anos antes das memórias de boas ações.

"A principal descoberta é que se eu pedir para você me contar sobre uma memória moral positiva, você falará de um fato recente", explica Escobedo. "Mas se eu pedir para me contar sobre uma memória moral ruim, você vai me falar de algo que tenha acontecido há muito mais tempo."

Adolphs e Escobedo, que atualmente trabalham na Universidade Charles Drew, em Los Angeles, afirmam que para falar sobre os lapsos morais as pessoas primeiro precisam de tempo para poderem imaginar novamente sua evolução - como sendo uma pessoa diferente daquela que enganou seus clientes, mentiu para seu parceiro ou furtou bolsas de velhinhas.

Os autores do estudo concluíram que "as pessoas realmente veem seus passados sob uma luz moral crítica, mas ao mesmo tempo eles tendem a enfatizar que estão tentando melhorar".

Outros pesquisadores observam que as pessoas colocam muitos acontecimentos desagradáveis mais longe no passado do que eles tenham ocorrido, e não apenas os moralmente ruins. Os estudantes que foram mal em um exame sentem a experiência como mais no passado do que os testes em que foram bem na mesma época. O mesmo vale para as memórias da escola entre os jovens adultos: aqueles que odiavam o tempo passado nos corredores da escola sentem que sua adolescência tenha ocorrido há mais tempo do que os que gostavam desses momentos.

Mas a mente parece ser especialmente propensa a regredir no tempo os atos cruéis, gananciosos ou covardes - a evidência física de que as pessoas avaliam os atos corretos para julgar se são tão boas quanto seus pais dizem. Em um artigo de 2001 com o título em inglês "From Chump to Champ" (algo como: de perdedor a vencedor), Wilson e Michael Ross, da Universidade de Waterloo, demonstraram com uma série de experiências que os jovens adultos descrevem seus egos adolescentes de maneira muito mais negativa do que fazem com seus egos atuais, muitas vezes alfinetando seus passados.

"A autoimagem no futuro tende a ser a melhor de todas", afirma David Dunning, psicólogo social da Universidade Cornell.

"Parece que as pessoas se situam no tempo de forma diferente do que fazem com os outros", diz Dunning. "Pergunte a um aluno o que é importante para a obter uma imagem precisa dele e ele enfatizará mais o seu próprio potencial para o futuro do que quando for questionado sobre outra pessoa. Nós presumimos que o potencial futuro é mais florido do que o passado."

O efeito psicológico de proteção percebidos nestas autobiografias superdimensionadas é óbvio. "O resgate da existência é um tema típico das histórias de vida contadas pelos americanos", explica Dan McAdams, psicólogo da Universidade Northwestern e autor do livro "The Redemptive Self ". Essas histórias "fazem parte da cultura dentro da qual crescemos como americanos e por isso nos parecem 'naturais' ", diz ele. "Mas será que nas outras sociedades as pessoas narram suas vidas da mesma forma?"

Provavelmente não - pelo menos não o final feliz, segundo McAdams. Mas as pessoas de qualquer lugar do mundo certamente irão reconhecer os primeiros capítulos, os tropeços morais, de forma retroativa ou não.

"A coisa mais estranha que percebo ao ler sobre as más escolhas morais é que isso faz com que eu me sinta bem comigo mesmo. Basta ver como todo mundo comete erros e lamenta não ter feito o que era moralmente certo e você passa a se sentir mais ligado à humanidade", diz McAdams.

Tradutor: Claudia Lindenmeyer

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