Labirintite: Não há idade para o problema

Labirintite: Não há idade para o problema

Atualizado: Sexta-feira, 26 Fevereiro de 2010 as 12

Durante a fase carioca do último Tim Festival, em abril de 2009, o cantor britânico Antony Hegarty teve de fazer um segundo show não programado. Tudo porque a atração canadense Feist, de 33 anos, sofreu uma crise de labirintite que a impediu de subir ao palco. Outra personalidade pública a sofrer os efeitos da doença, de forma recorrente, é a apresentadora Fátima Bernardes, que já abandonou algumas vezes a bancada do Jornal Nacional, na TV Globo, para se tratar.

O que fica claro para quem lê essas notícias é que não se trata de um distúrbio de pessoas mais idosas, ao contrário do que se imaginava. O otorrinolaringologista Mário Sérgio Munhoz, chefe da disciplina de Otoneurologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), confirma que não há distinção de faixa etária para o aparecimento do problema.

Na infância, ela aparece sob a forma da vertigem paroxística benigna, um equivalente de enxaqueca e vertigem. No adulto, surge como doença de Ménière, quando ocorre aumento do volume ou da pressão de um dos líquidos que preenchem o labirinto (endolinfa). Já no idoso, ocorre a labirintopatia de maior frequência, que é vertigem posicional paroxística benigna, quando o simples movimento da cabeça pode desencadear a crise.

A perda de equilíbrio momentânea ou duradoura, também chamada de doença no labirinto, tem inúmeras causas. Segundo Munhoz, já foram descritas mais de 2 mil fatores implicados no aparecimento do problema. Os mais comuns são os distúrbios hormonais, infecções do ouvido, traumas e exposição a ruído excessivo. Já na experiência de Alexandre Pieri, neurologista do Hospital Israelita Albert Einstein, quando há uma causa defi- nida, ela é consequência de infecção viral ou bacteriana, e de trauma de crânio com fratura temporal.

Os órgãos responsáveis pelo equilíbrio e pela audição estão situados dentro do compartimento interno do conduto auditivo (orelha interna) e se comunicam com o sistema nervoso central por meio de terminações nervosas, como detalha o otorrinolaringologista Antonio Douglas Menon, do Hospital Sírio-Libanês. Além das já mencionadas doenças infecciosas, inflamatórias, tumorais e mesmo alterações genéticas que ocasionam mudanças nessas estruturas anatômicas. Essas patologias podem provocar sintomas como vertigem e tonturas. A fase aguda pode durar de minutos ou horas a dias conforme a intensidade da crise.

O mundo de ponta-cabeça

Maria Celeste, uma relações públicas de 46 anos, vinha de um longo período sem férias quando começou a faltar o chão. Era só olhar para qualquer coisa abaixo da altura dos olhos que o mundo começava a rodar. No pronto-socorro, foi examinada dos pés ao último fio de cabelo sem que nada de anormal fosse identificado. A consulta clínica deu o veridicto: estresse em grau elevadíssimo. Mais que um remédio para enjoo e tontura, a recomendação foi para tirar férias ou ao menos um período de descanso.

Além de repouso, recebeu as instruções de praxe em caso de crises agudas: evitar dirigir e outras situações de risco como andar sozinha até que o sintoma regrida. Depois de 15 dias, Maria Celeste sentiu de novo faltar o chão sob seus pés, fazendo sua cabeça rodar. Segundo Douglas Menon, a literatura médica relaciona o estresse como uma das causas da doença de Ménière, caracterizada por vertigem com náuseas, vômitos, perda auditiva e zumbido. Nesse caso, a frequência das crises podem ser mensais, anuais ou desaparecerem por dois ou três anos.

O principal sintoma da labirintite, seja qual for a idade, é tontura tipo rotatória, também chamada de vertigem. É acompanhada de barulho no ouvido e zumbidos na cabeça. "Outra consequência é a alteração quantitativa ou qualitativa da audição (eu não escuto, não entendo, o som me irrita). Sintomas que aparecem associados aos principais são náuseas, vômitos, aceleração do coração, descontrole de esfíncteres e sudorese", explica Mário Munhoz. Também pode ocorrer perda de audição, sensação de plenitude auditiva (sensação de ouvido cheio ou tapado). "Os ataques têm duração de horas, mas um certo grau de tontura e desequilíbrio podem persistir por dias", informa Alexandre Pieri.

Muito sensível

De acordo com Munhoz, quatro em cada dez pessoas já tiveram algum tipo de tontura na vida - ou 42% da população, segundo o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. O problema é que os distúrbios do labirinto são altamente incapacitantes, o que se explica pelo papel que o órgão cumpre no organismo. O labirinto, como explica o especialista, "é a porção interna do ouvido que tem a função de transformar a informação sonora em estímulo elétrico, para que ela possa ser levada ao sistema nervoso central, e de analisar o padrão de frequência dessa energia para identificar sons graves e agudos".

A operação comandada por essa porção minúscula do conduto auditivo é delicada e muito eficiente. Consiste em levar para o cérebro, sob a forma de eletricidade, informações sobre nossa posição no espaço, como as frequências dos movimentos da cabeça e da força da gravidade. Para manter nítida a imagem, o labirinto ainda determina uma movimentação ocular de correção. Diante de tal complexidade, qualquer desarranjo nessa estrutura parecerá mesmo um pesadelo."Como lidamos com estruturas nervosas altamente sensíveis e especializadas, as palavras de ordem são prevenção e diagnóstico precoce", recomenda Pieri.

Fechar o diagnóstico

O principal item para o diagnóstico de labirintite é a história clínica cuidadosa, em que os vários aspectos das doenças envolvidas são caracterizadas. "A consulta clínica é complementada com uma avaliação otoneurológica, que pode envolver diversos exames, aplicados em cascata, ou seja, os testes básicos indicam quais os demais que devam ser feitos. Portanto, é um investigação personalizada, não existindo uma regra fixa", detalha Munhoz.

Como o labirinto envolve audição e equilíbrio, independente da queixa, testes auditivos e de equilíbrio devem ser sempre aplicados em conjunto. O diagnóstico é fechado por meio de um exame clínico detalhado pelo otorrinolaringologista ou neurologista. Segundo Alexandre Pieri, exames como tomografia ou ressonância podem ser necessários para excluir outras causas de tontura como o acidente vascular cerebral (AVC).

É fundamental, de acordo com Douglas Menon, identificar a causa e tratá-la adequadamente, sob pena de apenas adiar a reversão de um problema de saúde que interfere decisivamente no cotidiano dos pacientes. "Quando a causa não é evidente, é preciso ficar atento, realizar novos exames e não deixar de fazer o diagnóstico porque existem doenças no sistema nervoso central que podem provocar manifestações no labirinto." Entre elas destacamse esclerose em placas, tumores no nervo auditivo, no cerebelo e nas áreas do tronco cerebral, além de doenças imunológicas.

Tratar a causa

O tratamento das crises é realizado com medicações sintomáticas que aliviam as náuseas e vômitos e medicações específicas que diminuem a excitabilidade do labirinto. Dependendo do remédio, as pessoas podem levar vida normal. Hoje, a grande maioria das drogas de manutenção não restringe as atividades dos pacientes.

Após a crise, o ideal é consultar o médico para realizar uma reabilitação vestibular, que consiste em exercícios de movimentação ocular e equilíbrio. Os especialistas ouvidos nesta matéria esclarecem que o enfoque principal é na identificação e erradicação da causa da labirintite. Remédios são importantes, mas devem ser usados por um determinado período de tempo. Recursos como mudanças de hábitos alimentares e exercícios físicos sempre são necessários. Mário Munhoz diz que tanto a reabilitação auditiva como a do equilíbrio corporal sempre precisa ser empregada e em alguns casos são o único tratamento disponível.

Crianças com queixas de tontura constante e desequilíbrio exigem uma avaliação clínica bastante detalhada, até mesmo porque alguns tumores podem provocar esses sintomas, alerta Douglas Menon. Afastada a hipótese de vertigem postural ligada a dores de cabeça frequentes (enxaqueca), caso a queixa se mantenha, elas devem ser examinadas inicialmente por um otorrinolaringologista e, se necessário, também pelo neurologista.

Mais que ser medicado, pessoas que apresentam labirintite precisam combater e erradicar as causas. Acompanhe as principais dicas dos médicos:

- Consulte um médico regularmente para manter os níveis de colesterol, triglicérides, glicemia, pressão arterial e outros indicadores clínicos sob controle

- Na dieta diária, reduza ao máximo o consumo de açúcar e de gorduras. -Evite, previna e trate distúrbios metabólicos e hormonais.

- Não abuse de sal, café, chocolate e outros alimentos com cafeína e/ou estimulantes. -Evite o fumo e o uso abusivo de bebidas alcoólicas.

- Trate qualquer infecção que apareça, seja de causa viral ou bacteriana, porque ela pode repercutir, a distância, no seu equilíbrio

- Evite grandes intervalos entre as refeições. O ideal, mesmo, é não passar três horas sem levar algum alimento à boca.

- Não se exponha a ruído de lazer excessivo (shows, MP3 players etc.)

Na hora da crise

Os médicos recomendam que o paciente fique na posição em que se sentir melhor: sentado, deitado de costas ou de lado. Há quem goste de ficar sentado, mas a maioria prefere ficar em decúbito dorsal (de lado) com a cabeça um pouco levantada. Outra dica do médico Antonio Douglas Menon é o paciente observar as situações que costumam levar às crises. Por exemplo, virar a cabeça várias vezes e rapidamente, baixá-la bruscamente ou quando ouve ruídos muito fortes. Desse modo, a prevenção se baseia em evitar determinado movimento ou a exposição ao estímulo sonoro.

Qual a diferença entre vertigem e tontura?

A primeira vem do latim vertere e quer dizer rodar, ou perder o eixo do movimento corporal. A definição clássica de vertigem é alucinação do movimento. Já na tontura, como descreve o médico Antonio Douglas Menon, está presente a sensação de desequilíbrio e instabilidade, de pisar no vazio, de que vai cair.

Na vertigem, a sensação é a de que os objetos presentes em um ambiente estão rodando ao redor da pessoa ou esta sente os objetos girarem ao redor de si. Na tontura, prevalece a iminência da queda, da falta de solo e de insegurança em permanecer no lugar que se deseja estar. Esses sintomas, associados ou não a náuseas, vômitos, sudorese, caracterizam a crise labiríntica típica. Menon esclarece que sentir-se mal e ter a sensação de desmaio também podem ser sintomas de hipoglicemia, de hipotensão ou de uma síncope que nada têm a ver com o labirinto.

São situações em que a pessoa, por exemplo, permanece muito tempo sem se alimentar, fica muito tempo na mesma posição, sofre uma súbita diminuição nos níveis glicêmicos. Em casos assim, o mal estar costuma vir acompanhado de náusea, daí a confusão com a labirintite. A parte psíquica e emocional, como no caso do estresse, é muito importante.

Os hábitos alimentares também influem decisivamente para a eclosão de crises. Bebidas gasosas que contenham quinino também podem desencadear zumbido no ouvido, conforme outro exemplo citado pelo médico. Ele faz uma ressalva, porém: cada organismo reage de uma maneira diversa diante do estímulo a que está sendo submetido. E essa variabilidade se aplica de maneira muito intensa no caso da labirintite.

Leque de medicações

São vários os tipos de medicamentos que podem ser indicados no tratamento da labirintite, exclusivamente a critério do médico:

- Vasodilatadores: facilitam a circulação sanguínea e melhoram o calibre dos vasos muitas vezes reduzido pelas placas de ateromas;

- Labirintossupressores: suprimem a tontura pela ação no sistema nervoso;

- Anticonvulsivantes e antidepressivos (inibidores seletivos de recaptação da serotonina);

- Drogas que atuam sobre outros sintomas, suprimindo a náusea, o vômito, o mal-estar.

Uma vez estabelecida a causa e o tratamento adequado, a tendência é a doença desaparecer. Atualmente, se estudam terapias que possam repor as células nervosas, por meio de células-tronco ou intervenções genéticas. Em paralelo, as pesquisas estão mais centradas na reabilitação e nas novas medicações inibidoras do labirinto.

Por Stella Galvão

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