Maus hábitos alimentares causam gastrite funcional

Maus hábitos alimentares causam gastrite funcional

Atualizado: Quinta-feira, 8 Setembro de 2011 as 11:25

Dor no estômago, queimação, azia, gases e sensação de inchaço costumam levar muitas pessoas ao consultório do gastroenterologista já com o autodiagnóstico de gastrite. O médico prescreve a endoscopia e, para a surpresa do paciente, o procedimento que examina o tubo digestivo não identifica nenhuma inflamação na mucosa gástrica.

Esse quadro de sintomas gástricos sem a confirmação patológica já foi chamado de gastrite funcional, mas o termo caiu em desuso e foi substituído por dispepsia. O gastroenterologista Ricardo Fittipaldi explica que, para ser identificada, a dispepsia precisa, além da normalidade dos exames, da persistência dos sintomas por três semanas seguidas nos últimos três meses.

O médico Fauze Maluf, também gastroenterologista, acrescenta que a dispepsia pode vir com uma discreta inflamação ou vermelhidão no revestimento do estômago. "O pulo do gato é entender que essa detecção não é a causa. A maioria dos pacientes não se alimenta bem, come rapidamente alimentos de difícil digestão, bebem enquanto comem, dormem de barriga cheia", frisa, transferindo o motivo do problema para os maus hábitos alimentares típicos do cotidiano veloz nas grandes cidades. Se o cardápio não passar por mudanças, os sintomas podem durar anos.

De acordo com os especialistas, frituras, alimentos gordurosos, condimentados e embutidos, café, chocolate, refrigerante, frutas ácidas, cigarro e álcool fazem parte do grupo de agressores do estômago, por isso devem ser evitados. O objetivo da reeducação é prevenir a agressão da mucosa estomacal pelo ácido gástrico que, embora seja responsável por impedir contaminações e digerir enzimas, é altamente corrosivo. Por isso, medicamentos antiácidos e os chamados inibidores de bomba de prótons, que bloqueiam a produção da substância, são frequentemente receitados.

No menu, devem ser incluídos legumes e verduras cozidos, frutas como caju, banana e maçã e carnes magras. Evitar passar muito tempo em jejum e esperar o intervalo de duas horas entre comer e deitar são hábitos que também ajudam a amenizar as queixas. Apesar da fama de apaziguador, o leite pode ser traiçoeiro. Segundo Maluf, sua alcalinidade melhora o desconforto momentaneamente, mas o cálcio produz ainda mais ácido.

Os sintomas podem significar uma gastrite real. Quando a endoscopia digestiva detecta a ação de uma bactéria, se está diante de uma gastrite causada pelo Helicobacter pilory (HP), micro-organismo que dribla o ácido gástrico e fica escondido no estômago. De acordo com Fittipaldi, a contaminação ocorre por via fecal ou oral através da ingestão de água e alimentos mal conservados, sendo geralmente contraída na infância. "60% da população mundial tem a bactéria, mas nem todos manifestam a doença", salienta. Como em toda doença bacteriana, o tratamento desse tipo de gastrite é feito com antibióticos.

A resistência da HP aos antibióticos pode provocar uma gastrite crônica e evoluir para hemorragias, úlcera ou câncer. Contudo, Fauze esclarece que a bactéria não é a única causadora do câncer do estômago, é apenas um dos fatores. Como argumento, ele afirma que o número de casos de câncer de estômago é muito inferior ao de indivíduos portadores da HP.

Na ausência da bactéria, a gastrite também pode ser causada por medicamentos que lesionam o estômago de pessoas com predisposição, os anti-inflamatórios não esteroides, tomados para conter inflamações, febre e dor, como o ácido acetil salicílico (AAS) e o ibuprofeno. O tratamento baseia-se na suspensão dos remédios ou, se não for possível, na ingestão conjunta com inibidores da produção de ácido.

As outras formas de manifestação da gastrite são menos comuns, dentre elas a gastrite atrófica, causada por uma doença autoimune, como a anemia perniciosa, que faz com que o organismo produza anticorpos contra o próprio estômago, degenerando-o. Para que se evitem complicações, essa situação requer o acompanhamento médico.

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