Médicos improvisam amputações no Haiti

Médicos improvisam amputações no Haiti

Atualizado: Terça-feira, 19 Janeiro de 2010 as 12

No title Jacques Lorblanches perdeu a conta de quantas amputações realizou nas últimas 48 horas em Porto Príncipe, capital do Haiti, mas não se esquecerá das condições em que as praticou.

- Nunca vi nada igual, feridas infectadas e cheias de larvas.

O terremoto de sete graus na escala Richter ocorrido na última terça-feira, 12, no Haiti deixou dezenas de milhares de pessoas feridas, que demoraram a receber assistência ou em serem resgatadas dos escombros. Agora, médicos precisam amputar pernas e braços.

- Minha primeira amputação, fiz com três pinças, cinco tesouras e um bisturi. Sem água e com uma lanterna frontal para iluminar a ferida, explica Lorblanches, membro da organização internacional Médicos do Mundo.

Desde sábado, a instituição calcula ter operado 30 pessoas no hospital geral de Porto Príncipe, com 28 casos de amputação. O discurso é idêntico no hospital de campanha instalado por Israel fora de Porto Príncipe, de acordo com o médico Amit Assa.

- Das 48 operações praticadas há dois dias, quase todas foram amputações.

A cada dia, chegam novos feridos a todos os hospitais instalados na cidade. Pernas e braços esmagados por paredes e vigas de cimento, feridas infectadas e gangrenas tornam inevitável a amputação dos membros, explicam os médicos. Segundo os cirurgiões, haverá milhares de amputados após o terremoto.

Lorblanches recorda com especial emoção sobre o caso de uma jovem que caiu na rua durante o terremoto e teve as mãos esmagadas por uma parede. Elas foram amputadas pela equipe no domingo (17), diz o médico.

- Amputamos para salvar vidas. Nosso trabalho é uma pequena gota de água nessa tragédia.

A poucos metros, Marie-Françoise lança gritos de dor após a amputação de seu braço esquerdo. Seus pais faleceram soterrados em casa e ela permaneceu horas nos escombros antes que os vizinhos a resgatassem.

- Sinto-me feliz porque estou viva, mas não quero pensar no futuro. Perdi todos e não posso trabalhar.

A cena se repete nos corredores do hospital e nos jardins em que centenas dezenas de feridos foram instalados. Lucile, de 20 anos, teve o braço direito gangrenado por uma ferida infectada e foi amputada no fim de semana. Apoiada no ombro de sua mãe, ela não para de chorar ao ouvir o diagnóstico do médico haitiano Jean Toussaint.

- Agora, é sua perna que está em perigo. Estamos tentando salvá-la, mas não podemos esperar mais que algumas horas para tomar uma decisão.

As salas de cirurgia foram destruídas pelo terremoto e a equipe francesa de médicos improvisou uma sala de operações na antiga seção de radiologia. À espera de material, que demora a chegar devido à destruição do aeroporto, a higiene é mínima e os instrumentos de operação são muito básicos.

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