Mudanças climáticas deixam Brasil mais exposto a surtos de dengue

Mudanças climáticas deixam Brasil mais exposto a surtos de dengue

Atualizado: Quarta-feira, 14 Setembro de 2011 as 1:30

Tanto o Brasil quanto a saúde dos brasileiros não ficarão imunes às consequências das mudanças climáticas. Estima-se que nas próximas décadas o país sofra agravos ambientais tão severos que irão mexer direta e indiretamente na forma de vida da sua população.

Entre as principais mudanças, pesquisas apontam alterações significativas nos ecossistemas da Amazônia, do Pantanal e nas áreas de mangue, além da diminuição drástica de chuvas no Nordeste e o aumento delas no Sul e Sudeste, que serão responsáveis pela maior incidência de doenças infecciosas como dengue, malária, leishmaniose e leptospirose em regiões onde elas até então não eram endêmicas.

Essa conclusão foi divulgada no estudo Mudanças Climáticas e Ambientais e Seus Efeitos na Saúde: Cenários e Incertezas para o Brasil, da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) em conjunto com o Ministério da Saúde e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), em 2008.

E ratificada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) na COP-15 (Conferência do Clima das Nações Unidas), em Copenhague, na Dinamarca, em 2009. No evento, a organização estimou que mais de 13 milhões de mortes ocorrem por ano no mundo por motivos relacionados ao ambiente.

Mais calor, mais chuva, mais dengue

Segundo o pesquisador Ulisses Confalonieri, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), o ciclo dessas doenças pode ser expandido no país tanto pelo aumento da temperatura em certas regiões, quanto por conta das inundações causadas por chuvas que se tornarão mais frequentes em algumas localidades.

Afinal, os mosquitos da dengue e da malária se reproduzem na água e em dias quentes. E a infecção por leptospirose pelo contato da pele humana com água contaminada por uma bactéria presente na urina de rato, geralmente em enchentes. Exemplo disso são os casos de dengue registrados neste ano no Sul do país, região com pouca tradição desses surtos, segundo o pesquisador.

- Existe um estudo no Paraná que mostra o aumento da dengue no Estado nos últimos anos pelo aumento na temperatura. E teses que mostram casos de malária no Rio de Janeiro.

Uma pesquisa recente do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostra que as noites estão ficando mais quentes em todo o Brasil, inclusive no Sul, o que pode justificar a proliferação dos mosquitos.

Outro fator que aumenta a probabilidade da migração dessas doenças é a alteração de ecossistemas locais degradados pelo desmatamento. Isto é, o clima mais quente e chuvoso em certas regiões fica muito mais propício para os mosquitos se reproduzirem, enquanto que em áreas desmatadas eles podem ficar sem habitat adequado, diz o pesquisador da Fiocruz.

- A dinâmica da malária depende do mosquito, que depende da floresta, que depende da água. Os modelos [de expansão das doenças] devem combinar desmatamento com mudança do clima. Segundo o quarto relatório do Painel Intergovernamental sobre Muda

nças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), de 2007, protocolo usado como referência pelos pesquisadores, a temperatura da Terra deve aumentar em até 4ºC em 2.100. E no mesmo período, o nível dos oceanos deverá aumentar 59 cm, as chuvas, 20% e as geleiras do Polo Norte, se derreter por completo.

Seca leva a falta de água e a doenças intestinais

Outro grupo de doenças infecciosas que pode ser afetado pelas mudanças climáticas são as relacionadas com o saneamento básico. As ondas de calor, tempestades, inundações, queimadas e secas, além de poder causar mortes precoces, devem diminuir as reservas de água potável nas regiões onde elas já eram escassas, além de prejudicar a agricultura de subsistência local, afetando a saúde da população desses lugares.

Diante desse cenário, estima-se o aumento de casos de doenças intestinais, como a diarreia e as gastrenterites, de doenças infecciosas, como a leishmaniose e a leptospirose, além do aumento de casos de desnutrição, fome e doenças mentais, como o estresse pós-traumático, pelo impacto ambiental.

E o Nordeste deverá ser a zona mais vulnerável a essas mudanças, segundo o relatório Mudanças Climáticas, Migrações e Saúde: Cenários para o Nordeste, da Fiocruz, de 2008.

A pesquisa mostra que a região do semiárido sofrerá ainda mais com a seca e, consequentemente, com a falta de água potável. Sem água, a população ficará mais suscetível a sofrer das doenças citadas acima e ainda correrão mais risco de sofrer de fome e desnutrição, por não terem como manter suas plantações.

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