Novos estudos mostram que a dopamina não é a grande vilã do vício

Novos estudos mostram que a dopamina não é a grande vilã do vício

Atualizado: Segunda-feira, 14 Junho de 2010 as 10:59

Até bem pouco tempo, falar de vício era falar do efeito da dopamina no cérebro e do sistema de gratificação (o cérebro se viciaria no prazer proporcionado seja pela droga ou por comida, por exemplo).

Agora, as vozes que levantavam outros caminhos ganharam uma ajuda de peso: Jen-Pol Tassin, pesquisador do Quai St. Bernard na França. Ele recebeu no final de 2009 o prêmio do European College of Neuropsychopharmacology  por seus mais recentes trabalhos que propõe uma nova teoria para explicar a dependência.

Os estudos de Tassin comprovam que o consumo de drogas provoca uma dessincronia entre um neurônio específico que é receptor de noradrenalina e um outro neurônio receptor de serotonina. "No cérebro normal eles funcionam juntos, um regulando o outro. As drogas provocam o desacoplamento deste sistema, o que gera a dependência", explica o neurocientista no 6° Congresso Brasileiro de Cérebro Comportamento e Emoções, que termina neste sábado (12), em Gramado, no Rio Grande do Sul.

"Estas novas pesquisas indicam que a dopamina não tem tanto a ver com o processo de dependência quanto imaginávamos", diz Pedro do Prado Lima, especializado em bioquímica e professor da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

Tassin afirma ainda que a nicotina sozinha não vicia, o que é viciante no cigarro é a sua combinação com o tabaco, este sim com substâncias que criam dependência. Em testes com roedores, a nicotina sozinha não produziu dependência. Isto permitiu que ele patenteasse um novo tratamento de combate ao tabagismo.

"Atualmente, o efeito placebo é mais eficaz que os tratamentos de substituição da nicotina exatamente porque ela não tem o fator viciante". Segundo Tassin, a droga para substituir o cigarro deve agir na recepção de um tipo de serotonina (5HT-2A) que provoca o vício.

Pesquisas mais antigas como a de Prado Lima já indicavam outras causas para a dependência. A primeira parte de seu estudo publicada em 2004 mostra que pequenas alterações genéticas (que todos temos) seriam responsáveis por diminuir em até 20% a expressão gênica dos receptores de neurotransmissores no cérebro. Com isto, os neurônios seriam mais resistentes a serotonina, noradrenalina e dopamina, e por consequência, mais suscetíveis à dependência.

"Na população, 25% tem menos receptores, 25% tem mais e 50% fica na média", explica. "Dos que tem menos, a chance de parar de fumar é metade. Já entre os que têm mais receptores, a chance de largar o vício é de 83%". Assim, quanto mais receptores você tem, maior a chance de largar o vício.

"As drogas são como um cavalo de troia, ativam profundamente um sistema, mas são ruins, já que são exigidas cada vez mais para que o efeito se repita", faz a analogia Prado Lima.

Claro que questões já conhecidas como estresse, meio ambiente e disponibilidade da droga também facilitam a dependência.

Por: Lilian Ferreira

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