Número de casos de hepatite E é subestimado no Brasil

Número de casos de hepatite E é subestimado no Brasil

Atualizado: Segunda-feira, 2 Agosto de 2010 as 1:15

O baixíssimo número de casos de hepatite E no Brasil - 810 entre os anos de 1999 a 2009 - pode não corresponder à realidade do país, segundo uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, que investiga a ocorrência dessa doença no Brasil.

A doença é causada pela transmissão do vírus E da hepatite, também conhecida como hepatite não-A não-B fecal-oral, por ser transmitida por fezes e alimentos contaminados. A hepatite A tem a mesma forma de transmissão do vírus E da hepatite, no entanto, aquela apresenta incidência muito maior no período: 124.687.

A enorme diferença entre a ocorrência dos dois tipos de hepatite, mesmo diante da mesma forma de contágio, intrigou os pesquisadores do Laboratório de Hepatites Virais do IOC (Instituto Oswaldo Cruz), que resolveram investigar a ocorrência da "versão" E no país a partir de 2000. Depois de analisar 64 amostras sorológicas de pacientes com hepatite aguda sem tipo de vírus identificado, foi divulgado na semana passada o diagnóstico do vírus E em um dos pacientes. Até então nenhum caso de hepatite E aguda havia sido registrado.

A descoberta comprova a tese do coordenador da pesquisa da Fiocruz, Marcelo Alves Pinto, chefe do Laboratório de Hepatites Virais do IOC, que afirma que os vários casos diagnosticados de hepatite aguda sem vírus identificado podem ser do vírus do tipo E.

- Nós acreditamos que essa notificação [de casos] que existe não representa a realidade, porque no Brasil há vários casos não identificados de hepatite aguda e casos de hepatite fulminante [forma mais grave de hepatite aguda] têm ocorrido em países vizinhos como a Argentina.

Durante pesquisa de campo, a equipe de Pinto encontrou o vírus E circulando entre suínos e outras espécies animais no Rio de Janeiro e no Mato Grosso. A descoberta alerta sobre mais uma possível forma de contaminação do vírus no país, realizada por meio do contato com as fezes do animal contaminado ou pela ingestão da carne mal cozida ou processada de porco. No entanto, o pesquisador frisa que este tipo de contágio é muito raro.

- Basta processar e cozinhar bem a carne e lavar bem as hortaliças que usam o dejeto suíno na irrigação para evitar a transmissão do vírus.

Esse tipo de contaminação já foi identificado no Japão e há em outros países onde há surtos de hepatite E, como Índia, China e Tailândia. Nos três últimos países, os surtos são mais comuns pela precariedade do saneamento básico em algumas localidades.

Mercado não oferece testes para detectar a doença

Outro ponto que impede a descoberta de mais casos de hepatite E no Brasil, dificultando a contagem de números reais da incidência da doença, segundo os especialistas consultados pelo R7, é a falta de testes que detectam o vírus. A hepatite E é diagnosticada por meio de testes sorológicos que detectam o vírus E ou o diagnosticam por exclusão, quando não é detectada outra praga que causa a hepatite.

Segundo Pinto, o governo brasileiro deixou de comprar por um tempo os kits de equipamentos indicados para fazer o exame porque o Brasil não é considerado uma área endêmica (região em que reconhecidamente existe transmissão da doença).

A informação não foi confirmada pelo Departamento de DST e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, que não soube informar até o fechamento da reportagem se o SUS oferece o teste e quantos foram realizados no ano passado.

Para o gastroenterologista Roberto José Carvalho Filho, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), os kits necessários para fazer estes testes não são encontrados facilmente, pois são importados e custam caro para os laboratórios e para o governo, que chegou a interromper a importação do produto, devido ao pequeno número de casos ocorridos no país. O médico informa que um kit para se fazer 96 testes custa em torno de R$ 3.500 e dura de seis a nove meses.

- Se não fizerem os testes neste período, o kit perde a validade. Como os médicos e os laboratórios acham que é uma doença pouco frequente, eles não compram os kits por acharem um investimento que custa caro. Com isso não sabemos a real incidência da doença.

Contaminação é mais difícil

A pouca incidência de casos de hepatite E no país pode ter origem na própria constituição do vírus, segundo o hepatologista Raymundo Paraná, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia.

Ele explica que não há uma explicação definida sobre o porquê da incidência de casos de hepatite A serem muito maiores do que a de hepatite E, mesmo com transmissão semelhante. Mas, segundo ele, sabe-se que na transmissão entre pessoas o perigo de infecção pelo vírus E é muito menor, com exceção de mulheres grávidas.

- Na transmissão interpessoal a contaminação pelo vírus E é muito menor porque para transmiti-lo em humanos tem que ter haver uma grande quantidade de vírus introduzida no organismo. Já no caso da hepatite A basta muito menos para a pessoa se infectar e sentir os sintomas.

Já entre as gestantes, o risco de se infectar aumenta 25% em caso de contato com água ou alimentos contaminados depois do primeiro trimestre da gestação. Por isso, assim como outras doenças infecciosas provocadas por alimentos, o hepatologista recomenda às gestantes beberem apenas água filtrada ou fervida e alimentos bem lavados e cozidos.

Apesar do índice de mortalidade por hepatite E ser baixo comparado aos outros tipos de hepatites – 47 na última década - o risco de morte aumenta em 30% entre as gestantes.

Por: Camila Neumam

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