O risco da ditadura das cesarianas

O risco da ditadura das cesarianas

Atualizado: Quarta-feira, 30 Janeiro de 2008 as 12

O elevado número de cesarianas realizadas no Brasil tem causado um grave problema de saúde pública: muitos bebês prematuros em razão da antecipação do parto. A conclusão é do Ministério da Saúde, que estuda estratégias para a redução das intervenções cirúrgicas. Em 2005, 43% dos bebês brasileiros nasceram de partos cesarianos, o que colocou o País como líder neste tipo de parto. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a taxa de cesarianas considerada normal é até 15%.

"A maior dificuldade é convencer as pessoas de que estamos com um sério problema de saúde pública. A cesariana com data marcada com base na ultra-sonografia erra a idade do bebê em mais ou menos duas semanas. E o nascimento precoce não é indicado. Já no parto normal, a criança nasce na hora em que tem que nascer. A cesariana só deve ser indicada quando ela for realmente necessária", afirma a médica Daphne Rattner, técnica do ministério na área da saúde da mulher.

De acordo com o governo federal, a cesariana desnecessária está associada, no caso das mulheres, a lesões acidentais, reações à anestesia, infecções e hemorragias. Além do maior desconforto e da recuperação mais lenta e dolorosa. "As cesáreas eletivas ainda interferem na amamentação e no estabelecimento do vínculo afetivo do bebê com a mãe", explica Daphne. "As faculdades de medicina pararam de ensinar partos normais. A visão da obstetrícia passada hoje é cirúrgica. Tem hospital de faculdade em que o aluno não vê, não participa de parto normal", afirma a médica.

O maior problema está na rede particular. Segundo o ministério, se forem considerados apenas os partos realizados no Sistema Único de Saúde (SUS), a taxa de cesarianas em 2005 cai para 28,6%. Segundo pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que avaliou o prontuário de 437 grávidas em duas unidades particulares no Rio, 91,8% das indicações de cesáreas foram inadequadas. O trabalho revelou ainda que apenas 8% das mulheres submetidas a cirurgias haviam entrado em trabalho de parto.

"Com a banalização da cesariana, as mulheres não estranham mais que os médicos indiquem tantas cirurgias e acabam abrindo mão de seu desejo inicial por um parto normal”, afirma a epidemiologista Silvana Nogueira da Gama, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fiocruz, que participou do trabalho.

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