Os altos e baixos do transtorno bipolar

Os altos e baixos do transtorno bipolar

Atualizado: Quinta-feira, 8 Setembro de 2011 as 2:17

Sua expansividade e impulsividade chamam a atenção. Cantarola pelas ruas, rouba beijo de mulheres acompanhadas, invade o palco de uma orquestra sinfônica, equilibra-se destemido na viga de um telhado a dezenas de metros do chão. Justifica as atitudes dizendo viver sempre em êxtase e feliz, mas de repente é acometido por uma tristeza profunda e inevitável.

Embora ficcional, o personagem principal do filme "Mr. Jones", interpretado por Richard Gere, reproduz com fidelidade os altos e baixos vividos por uma vítima do transtorno bipolar.

A instabilidade emocional provocada pela doença tem registros desde a Grécia Antiga, investigada por filósofos intrigados com a extremada oscilação de humor, e em textos bíblicos, com passagens que relatam, por exemplo, a depressão que subitamente tomava Saul, rei de Israel, em meio a batalhas em que se destacava com bravura e heroísmo.

Porém, a caracterização do transtorno bipolar é muito mais complexa. Dóris Moreno, médica psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (Ipq - HCFMUSP), explica que a mudança de humor é a marca mais comum da doença, mas não significa necessariamente uma patologia. "Apaixonar-se ou passar por uma fossa depois de uma decepção amorosa ou perda não quer dizer que a pessoa esteja doente".

Existe uma alteração na velocidade dos pensamentos, para mais ou para menos. "Há uma mudança no nível de energia e ânimo para pensar e agir", descreve Dóris. O ciclo sono-vigília é outro aspecto afetado. O indivíduo não consegue pregar o olho, troca o dia pela noite ou, mesmo dormindo bastante, ainda sente que descansou pouco.

O transtorno bipolar também altera o apetite e aumenta a irritabilidade, a libido, os impulsos consumistas e o uso de álcool, drogas, televisão ou internet. Se essa ativação mental acelerada não for "desligada", as consequências desses excessos podem vir em dependência química, falência financeira e doenças sexualmente transmissíveis.

Fora de casa, bipolares costumam ser simpáticos, sedutores como o Mr. Jones e conseguem controlar a irritabilidade, por isso é tão difícil reconhecer alguém com o transtorno. Porém, quando a "tolerância zero" é transparecida em público, o estado é grave.

Dóris Moreno esclarece que o indivíduo pode ter algumas crises de transtorno bipolar ao longo da vida, mas chega um momento em que os sintomas não são mais superados e um tratamento se faz urgente. Entretanto, muitas vezes o diagnóstico não é feito corretamente e a doença pode ser confundida com esquizofrenia ou depressão. "A tendência a errar o diagnóstico é grande, muitos pacientes levam em média dez anos para serem identificados", comenta a psiquiatra.

A identificação do transtorno exige o conhecimento de variados tipos da doença, com intensidades e proporções diferentes. As versões mais comuns do transtorno bipolar são as mais leves, porém as mais faladas são as do tipo 1, 2 e misto.

Para ser diagnosticado com o tipo 1, que atinge 1% da população, o paciente precisa passar por pelo menos uma crise de mania, a forma mais grave de euforia. "Corre riscos, faz sexo sem proteção, é otimista, dono da razão, arrogante, piadista, perde senso crítico, é propenso a alcoolismo e negócios irresponsáveis", enumera Dóris. A mania pode durar semanas, meses e até anos, em doses leves e intensas que levam à sarjeta.

"Os mais inteligentes conseguem seduzir, manipular e convencer de que estão certos. Podem ficar psicóticos, paranoicos, desconfiados e aderir ao esoterismo e religiosidade", prossegue Dóris. A médica acrescenta que uma pessoa no estágio de mania dificilmente se percebe com o problema, daí a importância da família para notar os sintomas. "Se for uma pessoa forte na família, a família sofre".

Os períodos de depressão ou hipomania predominam no tipo 1 e deixam a pessoa cansada e desanimada a tal ponto que é levada a procurar ajuda, o que costuma induzir à detecção equivocada de uma depressão unipolar. A hipomania também prevalece no tipo 2, mas, no lugar da euforia, o indivíduo passa três a quatro dias com mais pique, impulsivo e obceca-se com algo para aliviar a agitação, como jogos de celular e computador.

Nos quadros mistos, a depressão e a mania convivem em proporções parecidas. "O indivíduo tem maior ansiedade e propensão ao suicídio", pontua Dóris. Peculiaridades à parte, a depressão e a irritabilidade ou pavio curto são as marcas sobressalentes da maior parte das vítimas do transtorno bipolar. "O paciente com essa doença sucumbe ao estresse, dá maior amplitude aos problemas", afirma.

O transtorno bipolar é determinado por uma predisposição genética alavancada por fatores externos como traumas, perdas, uso de antidepressivos e inibidores de apetite. Segundo Dóris Moreno, depois que a pedra rola, não para mais. A médica acrescenta que uma família em que o pai ou a mãe é bipolar pode pesar nos traumas de uma criança sintomática.

A medicina tem se voltado para a investigação das alterações provocadas pela doença no cérebro. Dóris explica que acontece o que chama de toxicidade cerebral, na qual a comunicação entre os neurônios na região frontal se perde, instabilidade que provoca inibição ou estimulação excessiva em diferentes pontos do cérebro.

O transtorno bipolar é tratado com uma combinação de medicamentos estabilizadores de humor e psicoterapia. Como se trata de um mal crônico, o tratamento não tem duração determinada e varia de pessoa para pessoa. Segundo Dóris, há pessoas com transtorno leve mais conflituosas do que aquelas no estágio mais grave

O tratamento psicoterápico tem o intuito de fazer o paciente conhecer a doença, por isso é conhecido como psicoeducação. A psiquiatra é membro do Grupo de Estudos de Doenças Afetivas, o Gruda, entidade voltada para o estudo de pessoas com transtornos afetivos que realiza programação para pacientes e familiares a fim de acabar com o preconceito. "O tratamento vale a pena, mas é preciso ter paciência e o acompanhamento da família, pois é muito difícil para quem sofre o transtorno criar amigos", conclui Dóris.

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